Eu cato ele!


por Luiz Henrique Matos

“Eu cato ele!” Foi o que disse aquele garoto de metro e meio, uns 12 anos de idade e ar sossegado. A declaração foi clara, não pela ameaça, mas pela resposta. Segundos antes eu havia lhe perguntado o que faria se algum outro menino o provocasse. A resposta seria comum nesse mundo em que vivemos, não fosse aquele um momento de estudo bíblico, mais precisamente a Escola Biblica Dominical da igreja a qual faço parte.

Eu estava tapando um buraco, cobrindo a ausência da professora deles que obviamente não pode comparecer. Contava a história de Elias. Falava-lhes acerca da perseguição sofrida pelo profeta nos dias de Jezabel, falava sobre a providência de Deus em sua vida, nos tempos em que era alimentado por um corvo. Tentava mostrar àqueles garotos, através da vida de Elias, pela história da Bíblia e pelos olhos de Deus, qual deve ser o comportamento de um cristão frente às “pressões” do dia a dia.

Mas que tipo de pressões ou perseguições sofrem adolescentes? Que tipo de situação lhes são postas como prova? Talvez assim como eles, aos 12 anos, meus conhecimentos sobre a vida de Jesus limitavam-se ao presépio de Natal e aquela imagem crucificada que eu via durante as missas. Nunca me ocorreu o que significava ser cristão, nunca me passou pela cabeça imitar a vida de um homem que morreu por outros que o perseguiam.

Hoje estou convicto de minha fé em Deus e pela Sua graça, já pude experimentar Sua mão pesando sobre meus ombros. Hoje declaro Jesus como único e suficiente Salvador de minha vida. Mas… perseguido?

Perseguição. Será que sabemos do que isso se trata?

“Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.” (Mateus 5.10).

Pensemos por exemplo, na perseguição sofrida por irmãos em países de cultura exclusivamente muçulmana onde não lhe são permitidas simples declarações de louvor, onde os cultos são tratados como pecado e justificativa para prisão, onde os missionários sofrem ameaças de morte e acusações de bruxaria pelo simples fato de confessarem Jesus como seu salvador.

Há alguns anos assisti a um culto com uma missionária brasileira que vivia na África. Dentre as perseguições sofridas por ela e sua família estavam condenações e tentativas de homicídio. Algumas dessas histórias me marcaram:

Na primeira, os homens da aldeia onde vive, cortaram os cabos de freio do carro que ela dirige para que se acidentasse e morresse na auto-estrada. Pois Deus lhe permitiu ir ao seu destino diário através da estrada e quando enfim o cabo estourou (engraçado ele estourar depois de tanto tempo sendo que já estava cortado desde que saíra de casa), seu carro deu voltas descontroladas no meio da pista de uma estrada movimentada sem que batesse em nenhum dos carros. Ela e a mulher que a acompanhava sobreviveram e testificaram que o carro não possuia condição alguma de se locomover.

Em outra situação, esses homens banharam o redor de sua casa com combustível inflamável, suficiente para derrubar a casa e tudo o que houvesse ali dentro (sim, estavam todos lá). Eis que o fogo se espalhou ao redor de toda a casa e queimava o lado de fora, mas sem conseguir “entrar” no interior daquele lugar. Todos ali dentro saíram ilesos porque o fogo acabou e não queimou.

A outra história era mais recente. Durante a madrugada, um grupo de homens invadiu essa casa onde vivem os missionários e abrigam os jovens recém-convertidos (em geral, ex-drogados, ex-bandidos e ex-moradores de rua). Um dos homens, empunhando uma faca, cercou um dos garotos e a apertou contra seu pescoço o ameaçando e incitando a dizer que não acreditava em Jesus. O rapaz, recém convertido mas que já havia experimentado o amor do Senhor sobre sua vida respondeu: “Você pode me matar, mas eu não nego ao meu Deus”.

Agora nós, pôxa vida, reclamamos de nosso chefe que pega no nosso pé porque nos chama de “crente”. Lamentamos uma certa “perseguição” que sofremos por nossa conversão, das brincadeiras de mal gosto, das ofensas, os olhares atravessados, mas essas são acusações do inimigo que convenhamos, sabemos superar com nossa atitude e comportamento, seguindo o que Jesus nos fala sobre “dar a outra face”. Deus nos honra e traz justiça.

Vivemos em um país que possui hoje 30 milhões de evangélicos e corremos o sério risco de daqui muito pouco tempo, ter uma nação cristã em aparência, mas pagã na essência. De que adianta declarar-se “membro” de uma segmentação religiosa que proclama a salvação por Cristo Jesus se a prática de nossas vidas não é pura e tampouco digna de ser entitulada realmente cristã.

Não falo pelo pecado, do qual nos arrependemos dia após dia, falo do comodismo pelo qual permitimos esfriar a nossa fé. Pensemos no quanto falamos pouco de nosso Deus às outras pessoas, do quanto deixamos de viver como filhos verdadeiros e fazemos pouco caso da criação de Deus que está perdida pelas ruas das cidades e temos a negligência de permitir que suas ovelhas se desviem do caminho correto e santo. Estamos fazendo a nossa parte, mas pela liberdade que temos, frente ao que sofre nossa família lá no oriente, isso tem sido tão pouco!

Martinho Lutero tem uma frase interessante: “Ser cristão é olhar para Jesus e dizer: Esse homem para mim é Deus!”. Paulo em outra ocasião declarou: “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” (2 Coríntios 3.18).

Baseado nesse texto de Paulo, eu já disse isso anteriormente mas gostaria de repetir, quando olhamos em um espelho vemos o reflexo do que somos, mas se olharmos em um espelho e vermos a imagem de Deus é sinal de que estamos cada vez mais parecidos com Ele. Não que conheçamos a sua face ou que acreditemos naquele loiro barbudo e bonito das imagens, mas de fato, a única forma de nos espelharmos e parecermos mais com o Senhor é conhecendo a sua vida e imitando suas atitudes. Ser imitadores de Cristo com nossos atos e nos alegrarmos com isso, porque nós SOMOS LIVRES para isso tais atitudes.

Deus nos deu o privilégio de declarar e viver em Sua presença, dançando, louvando, adorando e declarando Seu amor aos povos, nascendo em um país que não nos reprime por isso. Temos o potencial e o aval para ser uma nação santa e carregada pelas mãos de Deus, mas por vezes temos fugido dessa “responsabilidade” fazendo uso do livre arbítrio para dar abertura à vontade do diabo em nossas vidas: dizer “não” aos mandamentos e desígnios de Deus.

Nossos missionários, quando em nações orientais, comemoram e festejam uma única conversão. São proibidos de declarar o evangelho, são perseguidos e como vimos, correm risco de vida por isso. Mas Deus os honra e naqueles lugares onde pensamos que Sua presença pode não existir, faz amadurecer o fruto daquela semente plantada.

“Então Jesus entrou no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas; e disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores. E chegaram-se a ele no templo cegos e coxos, e ele os curou.” (Mateus 21.12:14).

Jesus estava indignado com a injustiça. O povo de Deus estava mais preocupado com seus interesses particulares e carnais do que com a busca efetiva do Senhor. Em Apocalipse 3.20 vemos a passagem em que Jesus envia uma carta à igreja de Laodicéia dizendo: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.” Imagine que a igreja estava ali, reunida, de portas fechadas e falando de Jesus, mas Ele não estava lá dentro…

Assim também nós, quantas vezes temos nos preocupado com o nosso “comércio” pessoal com Deus e esquecido de nossos irmãos necessitados, temos buscado mais as “bençãos” e menos o “Abençoador” fechando as nossas portas para que Jesus efetivamente entre e faça Sua obra. Nos grudamos nos bancos do templo e perdemos a nossa comunhão pelo comodismo com que nos apresentamos na presença do Senhor.

Aquele garoto de 12 anos na Escola Dominical tinha sua reação carnal para a provocação que sofria no colégio quando, na verdade, sabia qual era a atitude correta que deveria ter. Mas para sua idade e ambiente em que vive, ser acusado de não reagir a tal provocação do coleguinha poderia ser pior do que agredir ao outro e ceder ao pecado.

Nós, servos e filhos de Deus, muitas vezes nos comportamos de igual forma quando confrontados por uma seta como essa. Cedemos às mentirinhas para não perder a nossa “posição”, rimos das piadas maldosas para não ficar feio diante das pessoas, nos iramos no trânsito, em casa ou no trabalho, nos preocupamos com as aparências e andamos ansiosos com a resposta que Deus se encarrega de prover, como se Ele fosse o servo e não nós.

Voltando ao estudo dado em sala, lembramos que a Bíblia faz questão de dizer que Elias foi um homem comum e quando perseguido por Jezabel, sente medo e foge para esconder-se em uma caverna. Mas Deus o “cutuca” e alerta que ele deve ir ao povo, declarar a verdade do Senhor, sem temor, pois o Deus que o sustentou e usou até então o honraria e traria a providência.

Mais uma vez irmãos, desculpe a insistência, mas nós não sofremos nada diante das perseguições que nossos irmãos sofrem em terras distantes, temos total liberdade para declarar, evangelizar e cultuar ao nosso Deus. Se Ele precisou alertar a Elias para que saísse e não temesse, também nós, devemos ter essa consciência e fazer a obra do Senhor confiantes em Seu mover glorioso em nosso meio.

Glorificado seja o nome do Senhor!

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