Irmãos em Cristo


por Luiz Henrique Matos

– A gente é amigo, mas por Deus nós somos irmãos, sabia?

– É.

– É.

Não tivesse esse diálogo ocorrido aos meus 7 ou 8 anos de idade, hoje ele seria comum. Naquela idade não sabia eu que Deus era Pai, mas sabia que meus amiguinhos eram meus “irmãos da parte de Deus”. Estava até agora tentando encontrar o neurônio onde guardei o nome ou o rosto de quem me ensinou isso, mas não adiantou, deve ter sido uma tia, avó ou algum “crente”… e eu nem sabia o que era “crente”, sabia sim o que era a igreja, católica, onde eu ia com meu pai aos domingos para poder passar na padaria depois da missa e comprar doces (engraçado, até hoje me lembro daquela igreja e sinto cheiro de pãozinho!).

Lembro-me daqueles meninos com quem conversei, André e do Danilo. Os conheci no “prézinho” em meu primeiro dia de aula, os três chorando desesperadamente porque não tinha nenhuma mãe ali, só aquela tia estranha sorrindo pra gente. O André, hoje entendo, era nordestino, daí o estranho modo como me chamava. Ele dizia “Ô Hérrique!” com um sotaque engraçado. O Danilo também tinha algo estranho, quando ia agradecer por algo, dizia “brigada” ou invés de “obrigado” e em meus 7 (ou 8) anos tentava descobrir o motivo disso e para me consolar coloquei na cabeça que ele devia ter muitas irmãs e como ainda era novo na escolinha não sabia como um garoto deveria falar… sei lá.

A conversa portanto, aconteceu com os dois, André (“ô Hérrique!”) e Danilo (“brigada”) e eu me sentia de certa forma feliz em pensar nesses amigos de quem eu gostava como sendo meus irmãos. Pensava também no Cuca e no Beto, meus outros amiguinhos de infância para quem também falei essa mesma “novidade”. Só não entendia como é que ficavam os meus dois irmãos de verdade, filhos da minha mãe e também, ora bolas, porque deveria chamar de irmãos aqueles outros garotos que queriam brigar comigo na hora do recreio!

Sinceramente eu não sei ao certo a série ou idade em que estava, mas pensar em meus coleguinhas como irmãos era algo que explicava muita coisa e ao mesmo tempo complicava tantas outras a respeito do meu sentimento pelas pessoas.

Poucos anos depois, quando começaram as aulas de Ciências na 3ª série, eu já havia mudado de cidade, não sabia o que acontecera ao André e ao Danilo e a “tia” deixou de ser tia para virar “pissôra”. Nessa época, fui aprender nos livros e nas aulas que eu não era fruto da evolução das espécies, que o ser humano (eu) tinha sua origem no avanço do macaco e que mundo não tinha sido feito pelo estalar de dedos de Deus, mas sim por uma explosão que mais lembrava o nome daquele relógio grandão lá na Inglaterra. E passei a pensar que meus amiguinhos não eram meus “irmãos”, mas que talvez meus avós, antes de serem velhinhos de cabelos brancos, poderiam ter sido macacos, como aqueles do zoológico onde o pai e a mãe tinham me levado.

Passados outros anos (lá pelos 11), eu já tinha feito o catecismo lá na igreja do bairro (não, não era aquela do pãozinho, era a da quermesse) e aprendi algumas histórinhas que novamente confrontavam aquela coisa da explosão, que falavam de fato quem era o tal do Jesus e os outros tantos personagens que apareciam antes e depois dele. Eu cabulava bastante essas aulas para ir na piscina do clube, mas no fim do ano consegui fazer a confissão e comer aquele pãozinho achatado molhado num restinho de vinho.

E seguindo a linha do tempo, avançaram-se mais alguns anos (cerca de 4 ou 5 atrás) e eu estava no início do namoro com minha esposa. Nesse tempo, ainda queimava em minha cabeça a possibilidade de eu ser um macaco primata ou ser um descendente de Adão (só para fazer outro parêntese, eu tinha um tio chamado Adão e sei lá eu porque cargas d’água sempre pensava nele como sendo a figura bíblica… ruivo, magrelo, alto e mineiro!). Nessa época eu estava começando a faculdade e pensava que todo aquele universo de cientistas e estudiosos não poderiam ser menos inteligentes do que aqueles padres que não se casavam e viviam sozínhos (só para constar, eu descartava qualquer hipótese protestante).

Mas enfim, o tempo passa e como costumamos dizer: “Deus faz a obra”. E assim aconteceu. Inicialmente, na primeria etapa de meu processo de conversão, me convenci que então eu passara a ser filho de Deus e obviamente, como filho, me tornava irmão daqueles que compartilham da mesma fé. Isso pode parecer estúpido, mas fez uma diferença inexplicável nessa minha vida em que em tudo precisava de uma comprovação científica, lógica e testificada.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (João 1.12:13).

E por misericórdia e amor de nosso Pai, fui compreendendo o sentido dessa nova vida, fui me adaptando ao bater desse novo coração e conhecendo a personalidade do novo homem, nascido após aquele batismo. Comecei a perceber que o relacionamento que temos com as outras pessoas não deve ser baseado nos nossos sentimentos ou julgamentos, mas que esses devem ser guiados por diretrizes muito maiores e completas que são as mãos poderosas e o amor de Deus.

Hoje particularmente, acredito na vida como uma grande “?” (interrogação) aos nossos olhos, com a única certeza que é Deus quem nos tem sustentado e à vontade dEle cabe o nosso futuro. Mas ainda agora, filho e servo do Senhor, leio minha Bíblia, medito naquelas passagens, ouço a pregação na igreja e já não tenho em mente as mesmas questões de alguns anos atrás, mas de certa forma, até agora não compreendo o fato de que mesmo sabendo a Verdade, muitas vezes insistimos na mentira. Deus disse (e diz) tanta coisa, porque raios teimamos em agir diferente?

Como é muito claro nas linhas aí de cima, não nasci em uma igreja protestante. Mas agradeço a Deus pelo fato de tê-Lo encontrado ainda jovem. Pude compreender porque afinal aquela tia, avó ou um “crente” me ensinaram a respeito dos irmãos (João 1.12:13 citado acima) e que pelos meninos briguentos eu devo a mesma dedicação e amor e que devo pelos cristãos e amigos amados (Mateus 22.39). E fui vivendo esse amor como se visse uma retrospectiva da minha vida na tela de um cinema e aprendi a respeito do amor de Deus por nós e do mesmo amor que Ele ensina que devemos ter uns para com os outros. Mas não entendo porque ainda assim não nos tratamos de tal forma.

Não entendo porque também aprendi que mesmo naquela realidade obscura em que vivi durante outros tempos, Deus não fez e não faz distinção de pessoas (Romanos 3.22:24), amando a todos da mesma forma, seja eu, o pastor da minha igreja ou o traficante de quem eu consumi droga durante minha adolescência. É o amor incondicional, que independente de nosso humor e muito menos e nosso credo, cor, sexo, raça ou classe social.

Compreendi também que o relógio inglês chama-se Big Ben e a explosão dos cientistas Big Bang e que de fato o relógio existe mas a explosão não passa de uma teoria humana e incrédula. Que minha avó nasceu bebê, assim como eu e você e que os macacos do zoológico não se tornarão vovós daqui uns anos. Percebi que o tio Adão provavelmente nada se parece com o outro que foi marido da Eva.

E entendi enfim, que Deus criou o mundo e tudo o que nele há (1 Samuel 2.8)) e que estamos aqui para amarmos uns aos outros como a nós mesmos e em primeiro lugar, para adora-Lo e servi-Lo com toda nossa dedicação e… amor!

Fiquem na Paz do Senhor!

PS. Abaixo estou incluindo parte dos versículos que fundamentam e sustentam esse texto. Por serem passagens mais extensas, preferi deixar que consultem conforme o tempo e desejo de cada um. Sugiro que leiam, consultar a “fonte” é sempre mais importante.

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mateus 5.43:48).

“O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mateus 22.39).

“Justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3.22:24).

“Porque do Senhor são todas as colunas da terra, e assentou sobre elas o mundo.” (1 Samuel 2.8b).

“Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito. Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se disser o pé: Porque não sou mão, não sou do corpo; nem por isso deixa de ser do corpo. Se o ouvido disser: Porque não sou olho, não sou do corpo; nem por isso deixa de o ser. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde, o olfato? Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo? O certo é que há muitos membros, mas um só corpo. Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários; e os que nos parecem menos dignos no corpo, a estes damos muito maior honra; também os que em nós não são decorosos revestimos de especial honra. Mas os nossos membros nobres não têm necessidade disso. Contudo, Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha, para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros. De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam. Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo.” (I Coríntios 12.12:27).

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