Regime?


por Luiz Henrique Matos

Nessa semana resolvi emagrecer. De uns tempos pra cá tenho sentido uma certa massa se desenvolvendo sobre a região abdominal de meu corpo e resolvi dizer a ela que não era bem vinda. Tentei exclamar um “queima Jesus!” mas de certo não adiantou. Desde então, tenho sacrificado minha voracidade por gorduras, calorias e excessos (bem, ainda estou em adaptação e confesso minhas fraquezas e desvios, como a atual ressaca de um pastel de pizza – coisa de paulista – ingerido noite passada). Parar de comer o que gostamos é lamentável, é doloroso e difícil. Reconheço que me sinto mal ao recordar o que não posso comer, até porque só de lembrar, essas delícias já me abrem o apetite.

Durante o mês passado também estive me limitando de certos pratos. Por uns dias parei com refrigerantes, por outros cortei a carne vermelha e durante outros tantos, me recusei a tomar cafés depois das refeições. A situação era outra e um tanto mais nobre, estava em jejum ao meu Deus, orando a Ele por certas “causas”. Ainda nesses dias aprendi algo importante, me lembrei da minha condição de filho pidão (que pede, pede, pede) e esqueci do meu verdadeiro propósito nessa vida (servir e adorar a Deus). Parei para refletir se eram realmente aquelas causas mais importantes do que a busca pela face do Senhor, pelo seu mover em minha vida, pelo seu toque, sua presença… cheguei a uma óbvia conclusão: não, elas não eram mais importantes. Minhas necessidades ele conhece e supre de antemão, mas minha fé deve ser praticada dia a dia.

“Buscai antes o seu reino, e estas coisas vos serão acrescentadas.” (Lucas 12.31).

Somos capazes de passar um mês ou dois cortando gorduras, frituras, refrigerantes… mas nenhuma causa nos parece grande o suficiente para uma consagração em jejum. Olhamos somente para os nossos umbigos (eu olhei para o meu e além de perceber que sou um egoísta notei que ele – o umbigo – avançara alguns centímetros adiante, daí a atual dieta). Quando o objetivo é alimentar nossa vaidade ou cuidar do que parece visível, fazemos sacrifícios e enfrentamos tantas lutas quanto for necessário. Mas quando passamos por provações que sabemos pela Bíblia, produzem em nós perseverança e crescimento espiritual (invisível), insistimos que Deus já não ouve nossas orações e que Ele pode não ser tão fiel quanto pensamos.

Bom, que desde já fique claro uma coisa, não estou aqui reduzindo a relevância do jejum em momentos críticos, sabemos pela própria Bíblia que Deus se importa sim com isso. Para tanto, veja alguns exemplos retirados das escrituras:

“(mas esta casta de demônios não se expulsa senão à força de oração e de jejum.)” (Mateus 17:21).

“Davi, pois, buscou a Deus pela criança, e observou rigoroso jejum e, recolhendo-se, passava a noite toda prostrado sobre a terra.” (II Samuel 12:16).

“Em todas as províncias aonde chegava a ordem do rei, e o seu decreto, havia entre os judeus grande pranto, com jejum, e choro, e lamentação; e muitos se deitavam em saco e em cinza.” (Ester 4:3).

Acontece que por teimosia, insistimos no jejum como uma troca, uma forma de “merecer” de Deus algum favor ou que sendo nós sofredores desse sacrífício, também nos tornamos dignos de Sua compaixão. Ora, o sacríficio já foi feito, em uma cruz cerca de dois mil anos atrás, caso contrário estaríamos queimando cordeiros em holocausto até hoje. Paulo escreve em sua carta aos Efésios (capítulo 2): “estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)”. Graça é um favor imerecido, portanto, não há maneiras de convencer a Deus. Se tem sido essa a razão de seu jejum, digo que deixou de comer coisas muito gostosas em vão.

“Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?” (Mateus 6:25a).

Esse versículo ajuda no regime (…minha vida é mais importante do que aquele sundae de chocolate…). Mas, em outro ponto, temos aprendido que não adianta nos entregarmos em jejum diante de Deus se nossas vidas e corações estão voltados para a benção (resposta) e não para o abençoador (dono da providência). Quando jejuamos, separamos essa parte de nossas vidas para dedica-la ao Senhor e “separação” e “dedicação” são justamente definições para um termo bastante comum para cristãos: consagração.

Vamos ao Aurélio! No dicionário vemos que a palavra “consagrar” vem do latim “consacrare” e tem dentre seus significados: “Tornar sagrado; Dedicar ou oferecer a Deus; Oferecer por culto ou voto; Oferecer afetuosamente, dedicar; Dedicar-se, dar-se.”

Dessa forma então, não há jejum sem consagração, ou melhor, um é também o outro nessa situação. Não podemos nos “separar” para o Senhor e continuar em pecado. Lembrando também que separação espiritual, constitui-se por santificação, purificação e outras tantas qualidades atreladas. Mais importante do que o alimento ou atividade que cortamos em jejum (sacrifício) é a busca e louvor a Deus que decorrem disso (oração). No livro do profeta Isaías, vemos uma bela definição a esse respeito:

“Seria esse o jejum que eu escolhi? O dia em que o homem aflija a sua alma? Consiste porventura, em inclinar o homem a cabeça como junco e em estender debaixo de si saco e cinza? Chamarias tu a isso jejum e dia aceitável ao Senhor? Acaso não é este o jejum que escolhi? Que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo? E que deixes ir livres os oprimidos, e despedaces todo jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desamparados? Que vendo o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará. E a tua justiça irá adiante de ti; e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; e se abrires a tua alma ao faminto, e fartares o aflito; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio dia.” (Isaías 58:5-10).

Deus não liga para o nosso estômago roncando, para o chocolate que rejeitamos, não liga para a picanha (humm… mal passada, gordura crocante, na brasa, no espeto!), tampouco para o refrigerante que deixamos de beber. Esse é um gesto simbólico, onde mostramos a Ele que estamos nos separando fisicamente do que nos atrai nesse mundo. Mas existem tantas outras coisas mais graves nesse mundo que nos atraem (pecados) e o jejum que devemos praticar antes de qualquer outro é o de nos separarmos da iniquidade, da sujeira, da maldade. Ao que, de fato, nosso Pai não resiste, é um coração quebrantado, isso sim, move os ouvidos dEle em nossa direção.

“O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” (Salmos 51:17).

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