Sinal vermelho


por Luiz Henrique Matos

Eu seguia para casa, era fim de tarde, ainda não estava completamente noite, mas também não era possível dirigir com os faróis desligados. O tempo estava fechado, começo de primavera com cara de inverno. Minha única vontade era chegar logo em casa, tomar um banho e descansar. Estava voltando do trabalho, acabara de entrar no início da última avenida que dá acesso à minha rua, ela é longa, beira um riacho que cruza parte da cidade e como tantos outros nessa capital – a Grande São Paulo é repleta desses rios – é também poluído, morto, fétido e feio.

Parei com meu carro em um semáforo, portas travadas, vidros fechados e a atenção voltada para qualquer movimento suspeito. Andar por essas ruas atualmente requer cuidado e vigília, não se pode vacilar. Não notei nenhum “movimento suspeito”, mas pude observar algo diferente.

Através do vidro cuidadosamente fechado (mas que não protege efetivamente de nada) eu via um homem na calçada, me parecia um mendigo, também parecia estar bêbado. Ele não pedia dinheiro, como fazem tantos por esses faróis. Estava de costas para a rua, olhava em uma direção específica, mas não parecia ver nada. Levantou o braço direito e falou com o rio, balbuciou algumas palavras, pelo gesto parecia um insulto. Pensei comigo: “Coitado, sujo, sem casa, sem Deus”.

Além do homem e o rio, eu também vi um ponto brilhante no vidro pelo qual eu olhava, parecia uma luz… era só o reflexo de meu relógio, nada sobrenatural. Dentro daquele carro, de que tantas vezes reclamo – “carro velho, só dá problemas, seria bom ter um mais novo, que o banco não me doa as costas” – meu pensamento vagava, conciliando assuntos dos mais diversos. Observava aquele homem parado, pensava no carro, olhei também para o relógio, que muitas vezes acho pequeno demais para o tamanho do meu pulso, que acho fino, mas o relógio não é de tamanho suficiente para saciar esse ponto estético. Também pensava em minha camisa cinza, que há poucos minutos eu via no espelho e afirmava que ela deveria ter botões no colarinho, para que a gravata ficasse mais firme. E a gravata, era emprestada do meu pai, eu precisava comprar pelo menos mais umas três, usar uma por dia, não é elegante repetir uma peça dessas na semana.

Como você já deve imaginar é óbvio que tão logo respirei fundo, passei imediatamente por uma lição de moral cristã (certamente tocado pelo Senhor) sobre a comparação de uma vida segura e estável com a de um homem pobre e sem rumo, tal qual vemos nas histórias de cinema e nos livros quando somos criaças. Olhei para mim naquele instante e vi que o pobre ali era eu, pobre de espírito, tão engajado nas causas sociais, tão preocupado com a teologia acadêmica, tão envolto nos meus interesses com Deus, não pude olhar para aquele homem e imediatamente ver alguém igual (ele a mim, eu a ele). Ao contrário, eu o diminui, o diminui quando senti pena, quando senti dor por vê-lo naquela condição, mas senti dor “por” ele e não “com” ele.

Não pude ouvir o que aquele homem disse, estava atrás do vidro, preso em minha segurança. Eu não pude ver perfeitamente o seu rosto, não pude sentir o frio que ele sentia, o sentimento que lhe tocava, eu não fui capaz.

O farol abriu logo, nos poucos instantes em que permaneci ali, via o contraste de dois mundos, duas realidades separadas por um vidro e uns dois metros de distância. Fiquei tentando imaginar onde aquele homem vive, o que faz, o que comeu durante aquele dia, se era feliz, se tinha alguém que o amasse.

Agradeço a Deus pela benção de ter nascido saudável, de meus pais terem tido condição de me educar em uma boa escola, dado sustento, tranqüilidade. Fiz as contas rapidamente, estou dentro da parcela da população rotulada pelo secularismo de “classe alta”, representada por 2% da população desse país. Somos cerca de 170.000.000 milhões de brasileiros, isso significa que por volta de 166.600.000 pessoas não puderam ter a mesma condição de vida que eu tive.

Isso tudo certamente é uma benção, mas de certo são condições mundanas, que podem ser pagos com dinheiro. Existe, porém, algo que nenhuma fortuna desse planeta compra: a salvação. E o que Deus nos dá com a vida eterna é um plano muito maior do que qualquer riqueza ou condição mundana. Como filhos do Pai, vivemos com honra, dignidade, amor, alegria, paz.

O semáforo abriu. Os carros andaram, seguiam como em fila, um após o outro, tantos à minha frente, outros mais atrás. Assim também, nessa inércia podemos conduzir as nossas vidas. Enquanto estive parado olhando para aquele homem, via uma realidade, mas a vi pelo vidro, assisti ao momento presente pela janela, sem reagir. Podemos seguir nesse trânsito e por alguns momentos aquele passado recente pode ser visto pelo espelho retrovisor, mas assim como uma avenida, a vida faz curvas, passa por ruelas, paralelepípedos, levamos fechadas… os dias passam e nos esquecemos do que aconteceu, enterramos em alguma esquina o nosso arrependimento, o nosso pecado. Vamos dirigindo, indo e voltando, sem perceber que esse caminho não tem fim.

Não importa se estamos dentro de um carro, com emprego e tranqüilidade financeira, fazendo parte de 2% da população ou se amargamos o frio cortante, a chuva gelada, a fome e a miséria pela qual passam quase todos os outros 98%, a vida verdadeira e pura vem de uma única fonte: Deus.

Ele é o abrigo em meio à tempestade, o copo d’água no deserto, a brisa fresca e suave que sopra em nosso rosto debaixo do sol ardente e escaldante (Isaías 4.6). É o amor que vaza inexplicavelmente de nossos peitos, é a misericórdia que perdoa e se renova (Lamentações 3.22-23), é o Pai que nos ama ainda quando o rejeitamos, que nos escolhe, que nos chama pelo nome, que olha para nós vendo as nossas necessidades, nossas fraquezas, nossa dor. E de toda forma Ele quer nos saciar, nos preencher. Ele está de braços abertos, sorrindo e esperando que corramos em Sua direção.

Há poucos dias li um texto do escritor Max Lucado, no trecho final ele escreve uma frase que me tocou demais, fala sobre Jesus como sendo “Aquele que preferiu morrer a viver sem você”. Ele morreu, para nos ter de volta, a estratégia perfeita de Deus viu que não nos arrependeríamos e sequer nos sacrificaríamos para te-Lo de volta em nossas vidas. Então Ele veio, viveu, sofreu em nosso lugar e morreu pelas nossas dores e pecados. Tudo isso Ele levou consigo naquela cruz e nos libertou da maldição desse mundo. Não chegávamos a Ele, então Ele se chegou a nós.

Não há sofrimento que Jesus não tenha sentido, pelo qual Ele não tenha passado (Hebreus 4.15). Enquanto sentia a tortura de morrer pregado e pendurado naquela madeira, Ele sentia a nossa dor, a dor de todos os nossos pecados e falhas, enfermidades e feridas. Ele nos amou, nos ama. Morreu e nos perdoou e até hoje continua perdoando e apagando nossas transgressões. “E jamais me lembrarei dos seus pecados e das suas iniqüidades”. (Hebreus 10.17).

Pessoalmente, não sei o quanto isso pode custar em meus “valores humanos”, mas antes que meu carro siga por estradas perdidas e eu me esqueça de que sou apenas pó, eu gostaria agora de declarar a Deus que renuncio a mim mesmo para seguir os Seus planos, sejam lá quais forem esses planos, sei que serão sempre perfeitos, maravilhosos, eternos e o melhor dEle para mim. Mesmo que me seja necessário estar do lado de fora do carro, parado na calçada, só peço que eu veja a face de Deus à minha frente enquanto observo um rio. Eu só preciso do meu Pai.

“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo”. (Lucas 14.33).

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