Criminoso confesso


por Luiz Henrique Matos

Por um instante, imagine-se há 1.971 anos em Jerusalém. Você está em meio a uma multidão de homens, mulheres e crianças, judeus e curiosos, moradores e turistas. Tudo acontece durante o período da festa da Páscoa e a cidade está cheia de gente, vindos de todas as partes do país. Há poucos minutos você viu um tumulto e entrou para ver do que se tratava.

Veja então Jesus. Ele está ali, no topo daquela escadaria, diante de Pôncio Pilatos. Depois de passar a madrugada sendo espancado e julgado pelos líderes judeus Ele volta até Pilatos, o então governador romano em Jerusalém. Só os romanos tinham autoridade para condenar alguém à morte e caberia àquele homem dar seu ultimato a respeito do líder rebelde que se dizia Filho de Deus, sobre quem os judeus pediam tal pena. Em uma tentativa frustrada, pediu ao povo que escolhesse por libertar entre Jesus e Barrabás, um famoso criminoso, e o povo optou pelo segundo. Noutro momento, espancou a Cristo como manda a tradição romana para ver se isso era suficiente para saciar aquela sede de sangue, mas ainda assim não os satisfez. Agora aquele homem não tinha opções. Em seu apelo derradeiro perguntava: “O que eu faço com esse, que se diz Rei dos Judeus?”

E você está ali, no meio daquele povo. Vendo aquele homem que se diz Deus sangrar como um cordeiro sacrificado diante de um altar. Nenhum milagre aparente, nenhum trovejar nos céus, nada sobrenatural que pudesse testificar aquele judeu como o Senhor. Afinal, como poderia Deus cambalear dessa forma? Como poderia o Messias nascer em um lugar miserável como a Galiléia? Como poderia o Cordeiro ser filho do carpinteiro? Ele só pode estar blasfemando.

Pilatos então faz sua pergunta, ao que você, envolvido pela multidão exclama: “Crucifica-o! Crucifica-o!”

Você ainda pode ver o governador romano consentir aos seus soldados que conduzam Jesus ao sacrifício. Eles colocam aquela cruz sobre Suas costas e Ele caminha até o Gólgota, onde é pregado naquele madeiro e exposto a todos até que morra.

Qual é a sua reação ao assistir a carnificina? Naquele tempo, talvez nenhuma. Esse tipo de morte era comum à época. Era de fato, divertido, ver um bandido ser morto. Cuspir nele, atirar pedras e rir de sua humilhação durante a “via crucis” fazia parte do espetáculo. Mas Ele era um bandido?

Você não tem mesmo dúvidas, Ele não pode ser Deus. Se é mesmo o Messias, porque não desce da cruz e salva a si mesmo e a todos? Porque então ao invés de nascer naquela manjedoura em Belém, não rasgou os céus e desceu montado em um cavalo branco? Seria muito mais nítido compreender dessa forma. Ao contrário, Ele apareceu na cidade dias atrás, montado sim, mas sobre um jumento!

Em pé, parado, aos pés da cruz, você contempla o sangue jorrar do corpo deformado daquele homem que há alguns dias pregava com ousadia no templo e tempos atrás foi aclamado por curar cegos, paralíticos e até ressuscitar mortos. Sua cruz está no centro, à direita há um ladrão gritando esbravejante, à esquerda um outro que Lhe fala algumas palavras e ouve Seu sussurrar como resposta. O que Ele diz? Porque não grita xingando àqueles que o chamavam de mestre e seguiam como discípulos?

Mas você só assiste. Assiste até que vê Sua cabeça erguer-se com dificuldade, Seus olhos abrirem-se com tanto esforço e focarem nos seus. Sim, Ele está olhando para você. Um calor toma conta do seu corpo, parece que você não tem mais controle sobre si, há um sentimento de medo mas imediatamente é substituído pela segurança de uma mão que te sustenta.

Ele te vê e você não consegue desviar. Não há ódio, mágoa ou rancor em Seu olhar. Ao contrário, há um amor inexplicável. Você então sente-se como se não tivesse controle algum, começa a chorar e ver os pregos que O sustentam na cruz, as marcas da tortura, os cravos fincados em Sua cabeça, a dificuldade em respirar. Você já não tem mais dúvidas, todos erraram. Foi você. Sim, foi você quem há algumas horas duvidou e gritou: “Crucifica-o!”

* * *

Por sorte – você pensa agora – eu não estava ali há tantos séculos. Nasci há algumas décadas e nada sei sobre o que aconteceu naquele dia. Sei que Jesus me salvou e ponto.

Mas o que as Escrituras dizem é um tanto diferente. Jesus entregou-se voluntariamente, é fato. Ele nasceu com o propósito de morrer, ressuscitar e com isso, lhe dar a salvação sobre os pecados e a vida eterna ao Seu lado. Mas… porquê Ele precisou morrer?

Porque você o matou.

Não exatamente com suas mãos, armas ou com seu grito, mas esse crime foi cometido em seu coração. Tão pouco o fez com ódio ou raiva intencionais, mas por negligência e teimosia em achar que sozinho, veja só, seria capaz de conduzir sua vida.

Quando sonha em ser independente do Pai, quando os desejos são maiores do que a obediência, a razão maior do que a fé, o egoísmo maior do que o amor, o pecado maior do que a santidade. É nesses momentos que uma voz interior exclama: “Crucifica-o!”

Não foram judeus, não foram romanos, não foram homens. Não foi a carne, sangue ou qualquer obra material, foi o pecado, o mal uso do livre-arbítrio, a rebeldia humana que afastaram Deus.

Sente-se culpado? Algum remorso? Pois Ele não quer que Lhe sejam pedidas desculpas, mas ao contrário, Ele anseia por um convite. Ele não quer ter razão, quer derramar amor. Ele não quer um trono para ser rei, quer reinar em Sua casa, o lugar que escolheu: o seu coração.

O fruto do ódio humano foi o amor paternal. O resultado de Sua prisão, foi a sua liberdade. O peso da cruz sobre Seus ombros, foi para aliviar o fardo sobre os seus. A razão de Sua morte, era gerar vida.

“Pai, perdoa-lhes”, foi Seu pedido enquanto sofria. Assim é Deus, Misericordioso e Soberano. Não há atitude humana, que mude Seu amor, seja para menos ou para mais. Ele te ama de forma igual e eterna. E Ele mesmo consola o que chama de Seu quando esse coloca-se aos Seus pés clamando:

– Pai, me perdoe, eu pequei contra Ti.

“Espírito Santo Consolador, desça sobre ele”, é Sua promessa sendo cumprida, para que mesmo não podendo vê-Lo, você possa senti-Lo habitando dentro de seu coração para todo o sempre.

É verdade, segui-Lo vale qualquer preço e ama-Lo deve ser seu maior esforço. É preciso então prosseguir na certeza de que, por mais distante que você esteja, Ele nunca se afasta. Por mais longe você vá ou fundo que venha a cair, o caminho de volta é sempre perto e instantâneo, porque Sua mão está estendida para te resgatar. Agarre-a.

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