Dentro da gaiola


por Luiz Henrique Matos

Shake e Micci dividem o mesmo quintal há anos. Dois cachorros, uma amizade sincera, um senso de proteção de pai para filho (do primeiro para o segundo). Shake é muito esperto, apesar de vira-lata, é também um cão de guarda legítimo. Quando jovem matava gatos, ratos, pombas e tudo quanto quisesse invadir seu território. Às vezes o soltávamos, saía então pelo bairro por algumas horas e voltava sozinho para casa. Já o Micci… bem o Micci. Um mestiço de Husky Siberiano, bonitinho, meigo, engraçado, mas digamos que tem um QI um tanto baixo. Andei pesquisando, o Husky Siberiano está na 45ª posição no ranking de inteligência das raças caninas.

Ao contrário de Shake, que passeava pelas ruas do bairro e voltava horas depois descansado e feliz, quando abríamos o portão para o Micci dando-lhe enfim a liberdade que reclamara com seus latidos ardidos, ele parava no limite da porta, exatamente na fronteira entre a garagem e a rua, avançava com a cabeça para o lado de fora e latia, só latia. Seu território era sua segurança, ele não ousava avançar, tinha medo. Seria uma versão canina do que os psicólogos chamam de “zona de conforto”. Não adiantava insistir, o portão podia ficar escancarado o dia todo e ele não saía.

Soube que o mesmo fato acontece com as formigas. Lembro-me de um amigo de infância ter contado que se for traçado um circulo ao redor daquelas coisinhas, elas não conseguem sair do espaço delimitado, andando de um limite a outro.

O fato é curioso, porque motivo essas coisas acontecem? De certa forma é natural, são seres irracionais. O estranho é pensar que nós, seres humanos, dotados de inteligência, criatividade e raciocínio passamos boa parte de nossas vidas tal qual o Micci e as formigas do meu vizinho, vivendo livres mas sem saber disso. Passamos anos dentro de uma garagem aberta ou de um círculo ilusório, mas não somos capazes de enxergar que a porta estava destrancada.

“Assim diz o Senhor: ‘No tempo favorável eu lhe responderei, e no dia da salvação eu o ajudarei; eu o guardarei e farei que você seja uma aliança para o povo, para restaurar a terra e distribuir suas propriedades abandonadas, para dizer aos cativos: Saiam, e àqueles que estão nas trevas: Apareçam! Eles se apascentarão junto aos caminhos e acharão pastagem em toda colina estéril’” (Isaías 49:8-9).

Quando morreu, Jesus libertou não um ou dois indivíduos, mas toda a raça humana desde Adão até os o fim dos tempos, sabe-se lá daqui quantos anos. Com seu sacrifício Ele tirou de nós a culpa do crime pelo qual havíamos sido condenados, o pecado. Na ressurreição, Ele abriu as cadeias onde estávamos presos e nos fez livres do inferno. Nosso futuro era claro, quer dizer, muito escuro, eram trevas, cinzas e fogo. Mas quando morreu, o Senhor nos comprou, abriu os cadeados e fechaduras que mantinham a humanidade cativa e no momento em que percebemos isso e reconhecemos então o nosso Salvador, saímos da cela para trilhar o caminho da liberdade em Sua direção.

Mas é triste pensar que passamos tantos anos de nossas vidas lamentando o sofrimento em que vivíamos, sem saber que a porta estava aberta. E igualmente, tantas pessoas nesse planeta ainda vivem sob a mesma cegueira, foram salvas da condenação, mas estão passivas na escravidão mentirosa que Satanás sopra em seus ouvidos e insistem no autoflagelo do sofrimento.

Pois bem, um dia alguém tomou essa iniciativa. Um dia você foi avisado que a porta estava destrancada (seja por um pastor, um amigo, uma música, livro ou a Bíblia). Se você então ama seu próximo como ama a si mesmo, então faça a ele o melhor que foi feito a você até hoje: anuncie-lhe a salvação por Cristo Jesus.

E anunciar o evangelho não é só abrir a boca e tagarelar sobre Jesus ao primeiro coitado que lhe aparecer pela frente. Saiba que Deus já tem um plano. Quando sonhou com sua vida, Ele pensou na sua essência e no dom que tem para você: pregar, tocar um instrumento, ajudar no templo, dar alimento aos pobres, desenhar, escrever. Seja qual for, o objetivo desse “presente” é servi-Lo, adora-Lo alcançando vidas que Ele ama e nós também devemos amar.

Existem pessoas, criadas à semelhança de Deus, sentindo-se presas como animais irracionais e nós estamos aqui, sentados nos bancos de nossas igrejas, cheios de palavras, intenções e idéias, mas efetivamente temos feito o quê? Não somos super-heróis, santos e cheios de poder, Jesus sim, é o Salvador, Santo e Onipotente, que com um gesto nos salvou.

Nós somos dEle, somos a voz no silêncio deprimente, somos os ex-detentos que devem entrar na prisão escura com uma lâmpada, pisar na lama, estender as mãos e ajudar os que estão cegos a enxergar a Verdade exposta à sua frente.

“A prisão foi abalada, e suas portas abertas, mas, a menos que saiamos de nossas celas e sigamos em direção à luz da liberdade, ainda permanecemos sem verdadeira remissão” (Donald Bloesch).

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