Conscrito


por Luiz Henrique Matos

(1º texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

“Jovem, ao completar 18 anos, exerça sua cidadania, aliste-se no Serviço Militar Brasileiro”. A locução do comercial não muda, todo rapaz finda sua adolescência, ao mesmo em que treme pela expectativa em tirar sua carta de motorista e pilotar livre seu potente quatro rodas, teme ao pensar na possibilidade de ser convocado a servir o exército.

Alguns (poucos) até gostam. Gostam de dirigir e também do exército. São aqueles malucos que eu via cruzar toda a fila e dizer: “Sou voluntário”. Eu confesso que não entendia um gesto como esse. Entrar para o exército é, segundo o julgamento de muitos, assinar o atestado de humilhação. Armas, disciplina, acordar cedo, obediência, postura, aptidão física, todos esses são pontos com os quais nunca tive muita afinidade.

Ser soldado no quartel é ser um peão nas mãos de grandes jogadores. Eles te manipulam, mandam “pagar dez” flexões (como eu tinha medo disso), judiam, fazem sofrer, te ensinam a ser… ser… servir.

Algum tempo depois de minha liberação por “excesso de contingente” (na verdade eu tinha um grau altíssimo de miopia e uma escoliose que me livraram a barra), ouvi de um vizinho, ex-cabo, que um homem de patente maior nunca manda seu subordinado executar uma tarefa que ele mesmo não possa realizar. Ou seja, para comandar é preciso saber obedecer. Para receber, primeiro é preciso aprender a dar.

Essa foi uma lição que grandes reis como Davi e seu filho Salomão também aprenderam e exerceram. Quando Salomão morreu, seu filho Roboão assumiu o trono e cheio de imaturidade, não soube como agir quando o povo de Israel veio lhe pedir que aliviasse um pouco a carga de trabalho que estava sobre eles e se assim o fizesse, eles o serviriam como fizeram com seu pai. Os sábios que viram Salomão governar o alertaram: “Se hoje fores um servo deste povo e servi-lo, dando-lhe uma resposta favorável, eles sempre serão teus servos” (1 Reis 12:7). O mimado Roboão não ouviu às autoridades, antes, atendeu seus também imaturos amigos de infância e oprimiu aquele gente. O povo não gostou, revoltou-se contra ele e isso provocou a divisão do reino de Israel.

É a regra do quartel, que eu não fiz, mas hoje aprendo: para ser servido é necessário primeiro aprender a servir. Para ser um rei, é necessário antes, saber ser plebeu. Ninguém pode conduzir uma pessoa por um caminho que não conheça. Ou já se viu alguma vez, alguém primeiro ser contratado como presidente de uma empresa e depois de alguns anos ser “promovido” a assistente? Ou no exército, um general aos 18 anos de idade ir descendo em sua patente até que, aos 60 anos, torna-se enfim um soldado?

“Como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20:28).

Jesus serviu ao povo. Preocupava-Se com suas necessidades, dores e dificuldades. O Senhor por mais que fosse o alvo daquela multidão que O seguia, cuidava de servi-los. Transformou água em vinho para que não ficassem sem o que beber durante uma festa de casamento, multiplicou pães para uma multidão de cinco mil homens, repartiu o pão e o vinho com os doze que o seguiam depois de lavar-lhes os pés, curou muitos enfermos, ressuscitou um morto e morreu para que os que já estavam mortos tivessem vida.

E serviu também quando já não estava mais aqui, tendo como primeira providencia ao chegar em casa ressurreto, (creio eu) dar um beijo e um abraço apertado em Seu Pai e em seguida enviar sobre Seus filhos o Espírito Santo amado, não nos deixando sós, mas cheios de Sua presença e amor para sempre.

Martinho Lutero declarou: “Este é o mistério da riqueza da divina graça para os pecadores; através de uma maravilhosa troca, nossos pecados não são mais nossos, mas de Cristo, e a integridade de Cristo não é mais dEle, e sim, nossa”. Isso é servir, tomar a dor do outro sobre si e ajuda-lo carregando seu fardo. Isso também se chama misericórdia, ou seja, compaixão pela dor ou sofrimento do próximo. Se ser cristão é seguir a Cristo buscando ser como Ele, então, uma de nossas práticas fundamentais é aprender a servir.

Servir a Deus é servir ao próximo e vice-versa. Servir ao mandamento-mor de Amar a Deus acima de todas as coisas e ao nosso próximo como Ele nos amou. Somos capazes? É óbvio que não. Mas esse é o sonho em Seu coração e deve ser então o nosso alvo.

“Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da natureza pecaminosa; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor” (Gálatas 5:13).

Ajudar aos necessitados não é caridade, é cristianismo. Orar uns pelos outros não boa ação, é cristianismo. Pagar impostos, obedecer às leis, ser submissos aos nossos chefes e superiores, dar exemplo da diferença que é ter Deus vivendo em nós, viver a vida de Cristo. Ser cristão não é tagarelar versículos bíblicos aos ventos, mas viver dia-a-dia cada palavra gravada nas Escrituras (conforme 1 Pedro 2:11-23).

E então, pelo nosso gesto, vendo a luz de Cristo em nós, não existirão patentes ou cargos, tão pouco hierarquias que quebrem o laço. O mais alto comandante, o presidente da multinacional, o empresário, o político, o sacerdote, todos se dobrarão e hão de prostrar-se de diante de um carpinteiro, pobre, galileu, amigo de pescadores e prostitutas que salvou o mundo.

Ao que Ele diz a Seus discípulos: “Mas, vocês não serão assim. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa, como o que serve. Pois quem é maior: o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como quem serve. Vocês são os que têm permanecido ao meu lado durante as minhas provações. E eu lhes designo um Reino, assim como meu Pai o designou a mim, para que vocês possam comer e beber à minha mesa no meu Reino e sentar-se em tronos, julgando as doze tribos de Israel” (Lucas 22:26-30).

As sementes (o que precisamos observar e praticar para cumprir esse chamado e iniciar o plantio – é importante estudar esses fundamentos nas Escrituras): na comunhão para adorar (Sofonias 3:9), na diferença neste mundo (Malaquias 3:18), na rejeição do pecado (Mateus 6:24), no trabalho secular (Efésios 6:5-7), no ministério (Colossenses 3: 23-24) e na certeza da promessa (Apocalipse 22:3-5).

Vale a máxima do padeiro: “Servir bem para servir sempre”.

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