Pega ladrão


por Luiz Henrique Matos

(4º texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

O centrovante avança pelo campo de ataque com a bola dominada nos pés. Toda raça e habilidade nos minutos finais do jogo e fazer um gol nesse momento seria a consagração da vitória. Enquanto avança, toda a defesa do time adversário recua rapidamente e se posiciona na entrada da grande área. Sem opções de ataque, o jogador pára, segura a bola e procura ao seu redor alguma opção de tabela entre seus companheiros. Enquanto espera, é surpreendido por um volante do time rival que chega por trás e rouba-lhe a bola dos pés.

Onze horas da noite no centro da cidade de São Paulo. O rapaz sai do trabalho e caminha cerca de dois quilômetros até o ponto de ônibus onde toma a condução que o leva para casa. O chefe lhe pediu que fizesse hora extra e o segurou no escritório até tarde. No ombro esquerdo, o peso da mochila com os cadernos e livros da escola e lá no fundo o envelope com o pagamento do mês: dois salários mínimos e alguns passes de ônibus. Cansado, ele caminha pelas ruas escuras do centro abandonado da capital, pensativo nas atividades do dia seguinte e frustrado com o trabalho que já não o motiva mais. Não percebe quando um garoto vindo em direção contrária se joga sobre ele, fazendo com que, na trombada, perca o equilíbrio, enquanto outro moço aparece por trás, puxa de seu ombro a mochila e saem, ambos, correndo ruelas a dentro.

“Olha o ladrão!” é o que deveria gritar o companheiro de time do pobre centrovante que agora vê perdida a antes dominada bola nos pés e a chance do gol decisivo. Nunca fui um exímio boleiro, mas como um bom espectador aprendi que no futebol é assim, não adianta ter a bola nos pés, é necessário estar atento às movimentações no adversário para não ser pego de surpresa pelo combatente inimigo que chega com os pés e os cravos da chuteiras apontados para a canela alheia.

“Olha o ladrão!” é o grito vazio do trabalhador que vê sua mochila e salário sendo levados pelo oportunismo dos trombadinhas na cidade grande. Viver em uma grande metrópole é isso, não se pode caminhar sozinho no escuro, mas um passo após o outro deve ser dado, observando as movimentações ao redor e qualquer sinal de perigo prevenido.

“O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10).

É preciso tomar cuidado, o ladrão está a solta. Com sua chuteira cheia de cravos pontiagudos, ele mira nossa carne afim de roubar a bola de bênçãos e preferivelmente quebrar uma de nossas pernas (vida) com seu ataque voraz. Ele chega na espreita, ataca em bando os que lhe parecem fracos, não suporta ver o salário da providência sendo recebido dignamente com o suor do rosto humano. Com seus comparsas malignos ele planeja a tocaia para deixar desamparado o pobre trabalhador e roubar seu sustento, destruir sua família e matar sua esperança.

Imprescindível é também vigiar. O ladrão está a solta e tem seus objetivos muito claros, mas o bom guerreiro sabe como combatê-lo. Somos filhos escolhidos e temos por herança a salvação por Cristo, mas Ele nos alerta para não deixar a retaguarda desprotegida, nos posicionar como a sentinela e estar prontos para nos defender dos ataques. “Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26:41 nvi).

Satanás não perde tempo investindo em áreas em que estamos fortalecidos. Ao contrário, ele lança seus dardos na direção da carne sensível, nas dificuldades, nas tentações, nos pecados em que tanto teimamos e onde sabe que já caímos. Ele chuta a perna de apoio do atacante, ele empurra o desatento andarilho, ele é a astuta serpente maquinando contra a inocente ambição de Eva (Gênesis 3:1).

Paulo sabiamente alertou o centrovante: “Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!” (1 Coríntios 10:12). O gol realmente parecia fácil naquele contra-ataque. O salário suado parecia ganho naquele exausto final de dia.

Vigiar: olhar para cada ponto do campo e saber a posição do adversário, seguir à noite pelas ruas procurando pontos iluminados onde se possa ver a movimentação das sombras. Orar: ter sobre si a cobertura do manto de Deus, que nos reveste de Sua paz e segurança na medida que nos dispomos a seguir o seu caminho.

E então, cada passo é certeiro em direção ao gol de placa, para a alegria da torcida celestial que canta: “Santo! Santo! Santo! É o Senhor!” (Isaías 6:3). E no final, cada dia de trabalho e aflição (João 16:33) será vencido e recompensado com a tranqüilidade de se chegar na morada preparada (João 14:2), receber um abraço quente e aconchegante do Pai e deitar na cama da eternidade com a sensação de dever cumprido.

“Eu lhes disse estas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (João 16:33).

Sementes – Olhe para cada área de sua vida, ore a Deus pedindo a revelação de suas fraquezas e que Ele lhe cure e fortaleça nos momentos de luta e tribulação. Vigie em cada gesto, cada falsa oportunidade, cada emboscada que possa estar mascarada pela tentação maligna. Vigiar e orar é o seu papel, o dEle é edificar esse santuário precioso que é a sua vida. Veja: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Salmo 127:1).

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