Tudo se cria


por Luiz Henrique Matos

(7º e último texto da série “Plantar e Colher – Princípios Bíblicos”)

O ser humano é um espécime engraçado. Somos os únicos dotados da capacidade de raciocinar, um privilégio dado por Deus, mas de certa forma – como tudo o que é de graça – desprezamos essa bênção com um escape um tanto esquisito. Alguns estudos revelam que o cérebro humano é capaz de adaptar-se facilmente a algo que chamamos de “rotina”. Ele é auto-suficiente para não nos fazer pensar muitas vezes na mesma coisa. Aquela sensação de que a cada ano os dias passam mais depressa ou a impressão estranha ao chegar em casa do trabalho e nem perceber o percurso que fizemos, trata-se de uma reação cerebral para não gastarmos novamente a mesma força, ou seja, se já fizemos algo outras tantas vezes, nosso cérebro otimiza suas funções e faz parecer que não as temos vivido.

Pois existe uma má notícia nisso: se cada vez mais os dias parecem “voar”, isso é sinal de que temos feito todos os dias a mesma coisa, sem repetição, sem novidades. Daí o fato de nossas férias parecerem ter dias mais longos do que o normal, nesse período temos experiências diferentes.

Em um artigo para o jornal O Estado de São Paulo, Airton Luiz Mendonça escreve sobre o assunto: “Não me entenda mal. A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos” … “Felizmente há um antídoto: Mude e Marque. Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos” … “Seja diferente”.

* * *

Infelizmente, isso não afeta somente nossa experiência individual. Nota-se também o mesmo “efeito” na vida a dois. Quando iniciamos um relacionamento afetivo, tudo parece novo, os filmes no cinema, os jantares, almoços, passeios, os primeiros gestos de carinho que um casal nunca esquece e se recorda eternamente, guardando cartas e recados amorosos. O momento em que se conhecem e interagem, a excitação do primeiro amor.

Mas temos em nós essa tendência e tal qual o cérebro, os relacionamentos começam a cair nessa “rotina” e o que no começo foram os momentos marcantes da vida a dois, agora tornam-se parte da mesmice diária, sem graça e cansativa. Por conta disso, muitos casais reclamam e discutem sem saber o que de fato mudou, ou melhor, não mudou. Por essa razão, as conversas cessam e os jantares cheios de descobertas e som de música clássica passam a ser silenciosos e acompanhados pela trilha sonora do telejornal. O aroma de perfume, o penteado impecável e a roupa nova dão lugar ao desodorante Avanço spray, barba mal feita e camiseta velha do time de futebol com autógrafo do ponta-esquerda.

* * *

Ainda falando em relacionamento. Você se lembra de sua última oração? Lembra-se das últimas palavras que trocou em sua conversa com Deus? Não se trata do “quando” mas “o quê” foi que você disse ao seu Pai.

No nosso relacionamento com Deus, passamos invariavelmente pelo impacto do “primeiro amor”, o arder da descoberta do Espírito Santo habitando em nós, o quebrantar pela Sua presença e pelo arrependimento, a emoção e ansiedade em conhecer mais de perto o nosso Jesus Salvador.

Mas o tempo passa e a rotina aparece. Acordar, orar, tomar café, trabalhar, comer, trabalhar, ver TV, orar e dormir. Dia após dia, domingo após domingo, transformamos esse relacionamento precioso em algo distante e frio. Armazenamos Deus em um pote fechado ao qual recorremos quando isso nos convém.

Um relacionamento entre duas pessoas que se amam. Não tenha dúvida de que assim como marido e esposa, pai e filho, irmão e irmão, o Pai e Seus filhos também compartilham esse sentimento, mas precisamos voltar ao primeiro amor. Ouvir a dura disciplina que nos alerta: “Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor” (Apocalipse 2.4).

O Pai quer ouvir Seu filho chegar, deitar em Seu colo e ali abrir o coração sobre as coisas que lhe afligem, as que alegram, os pedidos de desculpa, os agradecimentos pelo presente da vida. Ele quer que ele reconheça Sua grandeza e poder, mas antes disso quer que eles O olhem e sintam o Seu carinho, Seu toque e o quanto Ele tem Se dedicado a mostrar o Seu amor. Ele quer nos ouvir falar, trabalhar em nossa causa e então responder: “Não tema, pois eu o resgatei; eu o chamei pelo nome; você é meu” (Isaías 43.1b).

A leitura das Escrituras unida a uma vida de oração e amor a Deus e ao próximo, nisso traduz-se a nossa essência. Não precisamos das regras, precisamos de amor, simples e verdadeiro amor. E a cada dia Ele se preocupa em nos mostrar esse amor, surpreendendo-nos com a providência do pão, com a misericórdia no perdão e a sustento de Sua proteção. Bênçãos, abundância e toque renovador, cada item da natureza terrena e celestial reflete a maravilhosa capacidade do Pai em criar e operar para o nosso bem.

Precisamos ser criativos e com dedicação e todo o coração, oferecer a Ele algo novo. Desejar verdadeiramente agrada-Lo, obedecendo aos Seus mandamentos e tendo compromisso com Sua palavra. Buscar a Deus pelo que Ele é e não pelo que faz. Seguir a afirmação de Lutero, que dizia: “Ser cristão para mim é olhar para Jesus Cristo e dizer: esse homem para mim é Deus”. Então começaremos a aprender o que de fato é adoração.

* Sementes para uma vida de criatividade em nosso relacionamento com o Pai – Suas orações têm sido fruto de momentos de intimidade com o Pai ou resumem-se a um gesto religioso? Inove em seu relacionamento com Ele, pense e dedique-se a fazer coisas novas para agrada-Lo. Ele certamente merece. Procure agradar a Deus com algo diferente, fugindo da rotina da religiosidade, dos dogmas, doutrinas e tradições que vivemos em nossas igrejas.

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