Vamos ao zoológico!


por Luiz Henrique Matos

“Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes” (1 Coríntios 1:27).

Nove feridos e seis mortos, esse é o saldo de mendigos agredidos em São Paulo, brutalmente atacados com pancadas na cabeça. Os atos aconteceram durante a madrugada e, segundo depoimentos de testemunhas, um indivíduo trajando roupas pretas fora o responsável pelos ataques a moradores de rua no centro da capital.

A polícia investiga, a população se indigna e os moradores de rua protestam. Já há anos eles protestam, mas nada se ouve, eles são mudos, nada se vê, eles são os seres invisíveis que “deletamos” em nossa rotina cotidiana da grande metrópole.

Agora sim, porque foram agredidos, as autoridades se interessam em abriga-los em albergues que sempre existiram, mas de portas fechadas aos “seres invisíveis”. Agora sim, a imprensa se comove em mostrar o rosto daqueles que por vergonha, medo e frio escondiam-se embaixo de papelões e jornais.

Acontece que tiramos a responsabilidade de nossas costas, com esse falso moralismo e encontramos um (possível) neonazista para incriminar. Ah sim, não somos todos nós os culpados, os corruptos e sonegadores, é ele, o skinhead maldito.

O curioso – e não menos trágico – dessa barbárie é que “morador de rua” na percepção da população e da imprensa, deixou de ser uma condição sub-humana de vida e passou a categoria social.

E nesses dias têm sido diferente, mendigos ganham quinze minutos de fama e são a nova atração de nosso zoológico de aberrações imundas e intocáveis. São os leprosos separados como resto, são a escória, a maldade inimiga que só ousamos enxergar através de um vidro: o que cobre nossos aparelhos televisores. Vidro que tal qual jornais e papelões, servem a nós como instrumento para encobrir a vergonha, o medo e o nojo em pensar que aquilo pode ser real. É real.

Mas agora… bem, agora eles são celebridades. Os “moradores de rua” se reúnem para fazer protesto, dão depoimentos na TV com direito a legenda informando: “Fulano de Tal, morador de rua”. Como se isso fosse uma preferência pessoal de habitat e não um sinal brutal de desigualdade.

Não impressionaria se em breve, miseráveis brasileiros que sobrevivem de forma precária em outras regiões de nosso país, abandonassem seus humildes barracos e passassem a migrar para São Paulo afim de tornarem-se “moradores de rua” na grande metrópole. Afinal, aqui sua voz ecoa com mais força, têm destaque nacional e a chance de aparecer na primeira página do jornal, página central de revista semanal e horário nobre da TV.

Será que realmente algo será feito? Certamente encontraremos um Zé Ninguém para culpar (nisso somos muito bons) mas, quando a onda passar, esses mendigos poderão um dia abandonar suas “casas” (sic!) e enfim fazerem parte de uma condição mais digna denominada apenas “moradores”?

“Estando Jesus em casa, foram comer com Jesus e seus discípulos muitos publicanos e pecadores. Vendo isto, os fariseus perguntaram aos discípulos dele: ‘Por que o mestre de vocês come com publicanos e pecadores?’ Ouvindo isso, Jesus disse: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Vão e aprendam o que significa isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores’”. (Mateus 9: 10-13).

“Eles também responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos?’ Ele responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo’. E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mateus 25:44-46).

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