Retratos e semelhanças


por Luiz Henrique Matos

“A glória de Deus é um ser humano em plenitude de vida” (Ireneu).

Fico a pensar por quais ruas ele andou, que caminhos trilhou, que vida levou desde aquele dia, sentado no banco da praça, com seus vinte e poucos anos, protegendo sob sua guarda a noiva que ostenta nos braços. Sei, tão pura e simplesmente, que hoje aquele jovem transformou-se em um pequeno senhor de poucos cabelos brancos que chamo por “meu vô” desde que me entendo por gente. Mas vê-lo no retrato com possivelmente a minha idade, abraçado à minha avó e juntos, sentados no banco da praça no interior, remete a imaginação a tempos em que eu não vivia, tempos sem os dezessete filhos que ele viria a ter.

Hoje, conheço e admiro – ainda que à distância fria e desgarrada de um neto adulto – sua bondade simples sem interesses ou jogos. Um homem que separa um tanto do alimento em seu prato para satisfazer a fome curiosa dos pássaros no quintal, que toca todo e qualquer inseto porta a fora a fim de poupa-los da morte iminente de um pisotear inimigo. Incapaz de maltratar, matar, enganar, seu único esforço é lutar contra a regra que o obriga a tomar pontualmente os remédios para o coração. Coração tão bom em espírito e essência, mas doente em seu aspecto físico e na aparência.

O homem muda na medida que os anos passam. Diz a piada que na velhice, voltamos a ser como quando bebês: carecas e banguelas. Mas assim como os anos transformam nossa aparência, também interferem em nossas emoções, pontos de vista e caráter. Mudamos não apenas fisicamente, mas também em nosso interior.

Vendo a foto do jovem na parede eu não diria que aquele é o vô e tampouco poderia concluir algo a respeito de sua personalidade. O retrato na parede mostra a imagem, o exterior, a aparência. Mas o convívio da vida revela o coração, o interior e a essência.

“Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1:27).

Fomos planejados desde o princípio dos tempos pelo nosso Pai Criador. Antes de nascermos nesse mundo, fomos concebidos em Seu coração. Ali, Ele pensou em nossa aparência, nossa personalidade, nossos talentos, fez planos para nosso futuro e procurou neste planeta o casal com o código genético ideal para que pudéssemos existir.

Não tivemos escolha quanto isso, o maior e mais claro sinal de nossa insignificância global e dependência. Somos “apenas” Criação de Deus, formados para Sua glória e louvor. O nosso exterior Ele fez, entalhou como obra de arte, tomando como inspiração Sua própria imagem, fazendo de nós uma amostra refletida de Sua figura. E como estátua de barro esculpida e sem vida, soprou em nossas narinas o espírito e nos permitiu nascer, tal como quis, livres, inteligentes e… homens.

Concebidos à luz em alguma maternidade, viemos a este mundo. Ao longo dos anos aprendemos a falar, andar e pensar sozinhos, independentes de nossos pais e (infelizmente) independentes de nosso Pai.

Cada vez que caminhamos sem a orientação de Deus, seguimos justamente na direção contrária, estamos em pecado (“pecado” que originalmente no grego quer dizer “errar o alvo”) e longe de nosso verdadeiro abrigo que encontramos n’Ele.

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?” (Jeremias 17:9).

Mas também disso Ele – onisciente – já sabia. E triste por nossa rebeldia, nos livrou dessa escravidão, lavando-nos novamente, dessa vez no doloroso derramar do precioso sangue de Seu Filho. E para que voltemos todos para casa, Ele pede: “nasça novamente” (João 3:3).

Nascemos uma primeira vez e à Sua imagem fomos criados, mas precisamos nascer novamente para à Sua semelhança ser moldados. Como o barro foi trabalhado e esculpido para chegar ao padrão de Sua arte prima como homem e receber o espírito da vida, Ele precisa entrar em nosso interior para, de dentro para fora, moldar o nosso coração em um modelo idêntico ao Seu. Temos a aparência de Deus e quando reconhecemos Seu sacrifício, começamos a ser transformados para ter também o Seu caráter, com o Espírito Santo habitando em nós.

Isso é conversão. Isso é uma nova vida em Cristo. Isso é ser… cristão.

Jesus diz: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Apocalipse 3:20). Se você algum dia abriu essa porta, sabe o quão gratificante é ter Deus vivendo dentro de si, mas ao mesmo tempo e sabe também o quão doloroso é quando Seus instrumentos nos entalham por dentro, removendo o que é desnecessário, para que alcancemos a forma madura e perfeita que Ele um dia sonhou. Mas se você nunca permitiu uma fresta para aceitar esse convite, aconselho que faça-o agora e então você viverá dias de consolo, plenitude e sacrifícios, que o conduzirão ao crescimento pleno, à eternidade e ao colo de um Deus que você pode chamar de Papai. A todos nós, um banquete nos aguarda.

Renascidos em Cristo, somos o reflexo de Sua glória. Barros mudados à Sua semelhança e Filhos moldados à Sua essência. Antes criação, agora família.

E nascendo de novo, concebidos à luz da vida, seguiremos para além deste mundo. Ao longo dos anos aprenderemos a falar, andar e pensar em comunhão com Seu Espírito, independentes de nossos interesses e (felizmente) diariamente dependentes de nosso Pai, refletindo a Sua glória.

“E nós, todos os que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito” (2 Coríntios 3:18).

Aos olhos dos homens, dos anjos e do inferno, Seu Sebastião é aquele garoto da fotografia datada, conhecido pela aparência, trajes e traços. Uma imagem a ser julgada, ignorada e esquecida pois de fato, imagens não traduzem o coração. Aos olhos dos insetos e pássaros, é ele o bom velhinho que dá de comer, partilha o pão e protege dos perigosos predadores. O curioso é ver que pequenos seres irracionais o enxergam mais próximos do ponto de vista do Pai eterno do que os homens. Os insetos o vêem como é, pura e unicamente pelo transbordar de suas atitudes. Mas nós precisamos de um certificado eclesiástico, registrado em cartório e protocolado na igreja para só então concedermos o “valioso” título de: bondade.

Pecados? Certamente ele os tem, mas você e eu também temos e cabe ao Juiz eterno, somente a Ele, julgar o seu caminhar. A mim, cabe ama-lo, como neto e como próximo e olhar não para sua foto, mas para o seu coração e ver o exemplo antagônico do que eu sou: um coração regrado, com boa aparência e saudável em suas funções, mas doente em essência, precisando dos cuidados de meu Santo Criador, sentindo as dores de ser apertado, manuseado e refeito para que um dia eu possa ver os sonhos do Pai sendo realizados em mim.

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