O hospital dos sãos


por Luiz Henrique Matos

“Somos pela religião contra as religiões” (Victor Hugo).

Conto-lhes, por uma vez essa história, que aconteceu em certo ano aqui na capital, onde fora fundado o Hospital dos Sãos. A monumental obra tivera seu início anunciado e em apenas seis meses erguera-se como a construção imponente, que deixava admirado todo o povo do local.

Para a cidade vieram, segundo fontes, os médicos mais bem estabelecidos da nação, diplomados com honras e proprietários de tamanha autoridade em suas teorias clínicas.

Foi então fundada a clinica, famosa por seu corpo médico excelente e deveras por seu propósito singular e inovador: o Hospital dos Sãos empenhava-se em atender apenas os cidadãos de saúde indiscutivelmente impecável.

Ali, eram atendidos aqueles que não careciam de tratamento e gozavam de saúde intacta. Nada de enfermos, coxos, deficientes ou indivíduos carentes, a clinica existia para hospedar os que não possuíam registros em outros estabelecimentos concorrentes e para louvar os Sãos.

Os médicos, igualmente perfeitos, foram treinados e capacitados a doutrinar seus clientes sob a penosa Lei, que condenaria os doentes desobedientes e engrandeceria de forma ímpar os saudáveis “eleitos”. Dizem até, pela surdina, alguns que lá estiveram, que os doutores recitavam a “glória” a seus pacientes em doses clinicas na medida de seu vigor.

Julgando-se a circunstância, um contumaz cumpridor de hábitos saudáveis, mediante a Lei, poderia chegar ao ponto de ser gratificado com um diagnóstico instantâneo e – segundo bula – com a posologia devida. A título de exemplo, seguem aqui algumas: cinco aplicações de Tapi-Nhas NasCostas a serem dadas em uma única vez, um frasco ao dia de Vai Dad, três cartelas de Alti-wez para os mais confiantes e um tubo de creme facial de nome Péh Roba, espalhado pelo rosto antes e após circunstâncias de pressão altíssima.

Os sãos eram celebrados, surgiam como bonecas plastificadas nas colunas sociais do jornal local, patrocinado pelo oculto e discreto proprietário do hospital, que na boca do povo era conhecido vulgar e popularmente pelo trocadilho de “o homem que compra a são-tidade”. Estavam, pois, brincando de deuses e celebrando a si próprios.

Aconteceu que naquela cidade, ainda pouco populosa apesar de tratar-se da capital, todos os cidadãos achavam-se sãos e imunes de toda e qualquer deficiência, logo, dignos do prontuário máximo do aclamado estabelecimento.

Ao que para surpresa de todos, dia a dia os médicos passaram a rejeitar pacientes sob o grave diagnóstico de que sofriam eles, vejam só, de doenças mortais!

E de fato, sabe-se hoje, sofriam. E sofriam delas também os próprios médicos que… bem, nisso falarei mais adiante.

O alvoroço foi tamanho por conta dos pareceres que os “sábios” doutores isolaram-se em suas Leis e consultórios e renegaram os cidadãos, condenando-os ao vazio fatal.

Não fosse isso, o pior. Ouriçado com a boa notícia da fundação do Hospital dos Sãos, meses antes o prefeito decretou que fossem fechadas todas as clinicas que atendiam e recebiam enfermos. Afinal, deveriam prevalecer na cidade apenas os eleitos, segundo sua ordem.

Mas todos estavam tomados pelo desespero e crentes de que, segundo a Lei, morreriam de fato.

E assim viveram muitas gerações. Tantos morreram crendo em seu penoso fim, enquanto outros tantos, descendentes dos médicos, possuíram ano após ano o Hospital e suas imediações, chegando a comercializar a “verdade” de sua Lei, deturpando a própria insanidade.

* * *

Apareceu então, certa feita, um forasteiro. Homem simples e humilde, cabelos longos e barba na face. Túnica impecável e sandálias. Rapaz moço, de fala mansa, sorriso largo e grande carisma. Vinha de uma província não muito distante e sabia-se pelos mensageiros, tinha como capacidade nova o conhecimento da Lei dos Sãos e a ensinava abertamente a todos.

Da Galiléia, d’onde vinha, sabia-se que era carpinteiro. Em seu discurso, palavras fáceis acerca daquilo que tanto sofriam os cidadãos e seus descendentes desde a fundação daquela doutrina, convenhamos, insana.

Não bastasse, sabia-se que o tal carpinteiro, acompanhado de doze amigos, vinha a realizar proezas e milagres pelas terras que seguia, inclusive, pasme, curando enfermos!

Souberam então os médicos da presença do vil invasor. Providenciaram que dentre os seus, alguns fossem observa-lo a fim de avaliar, compreender e disseminar qual afinal era sua enfermidade. Feito tal, pensavam, seria prático o plano de denunciar aos ventos a sua invalidez e condena-lo ao fim mortal, tão comum ao povo reles.

Porém, pobres, investigaram e não acharam nele mal algum. Não havia falha, tampouco doença ou descumprimento da Lei. Tão sábio, tão simples, tão perspicaz… tão perigoso!

Porque não estava então entre os doutores? É de se perguntar. Mas não, ele não poderia. Certamente não estava entre estes o seu convívio, nem para os quais viera de tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Ao contrário disso, caminhava ao lado dos doentes, das prostitutas e dos pobres. Como podia? Aos olhos de seus algozes, deveria ele estar contaminado pelo vírus daquele povo imundo.

Contam os livrinhos que a partir de um dia, passou a defrontar-se com os “doutores da Lei” e a eles expôs sua Verdade. Afinal, dizia, ele era o único caminho, era ele próprio a verdade e também a vida, por meio da qual viria a salvação daquele povo que por anos viveu sob condenação escrava. Na ocasião, imagine só, chamou aos doutores de hipócritas e os colocou na condição de doentes.

Entrou o forasteiro no Hospital dos Sãos e derrubou as mesas de comércio que tomavam aquele lugar. Expulsou dali os que desonraram a pura e real cura e declarou indignado a quem verdadeiramente pertencia aquele local, usado de forma horrível por tantos e tantos anos, um Pai Criador, chamado por ele mesmo dessa forma.

Mas o antigo, misterioso e nesse momento suposto proprietário da clínica continuara ali nos arredores, oprimindo e acusando o povo, colocando seu corpo de profissionais a trabalho da Lei humana e dirigidos em um propósito único e momentâneo: eliminar aquele forasteiro ameaçador.

E o galileu simpático afirmou a todos quantos desejassem ouvir, que seria ele o ponto final na condenação mortal de todos os homens. E revelou o fato de que os doutores, sim, sofriam eles do mesmo mal ao qual condenaram tantos à morte, sendo também portadores do vírus letal, chamado pelo nome verdadeiro: Pecado. E o pecado, impregnado em todo o povo, deveria ser removido.

Durante os três anos de suas idas e vindas pelas bandas da capital, armou-se entre os doutores a tocaia para sua prisão. Eles, como feras famintas e cegas, ansiavam pela morte daquele que julgavam ser blasfemo e enganador, sem saber explicar como lhe era possível tanto conhecimento e poder.

Ao mesmo tempo, crescia de forma incontrolável a sua fama e proporcionalmente a multidão que o seguia. Tantos cegos agora vendo, aleijados andando, surdos ouvindo, leprosos limpos, mortos ressurretos, endemoniados libertos, poder emanando de suas vestes e agindo por meio daquele homem, Filho do homem, são e santo, que amava e curava pecadores.

Já não havia condenação. Eram por meio dele de fato, como o próprio dizia, “feitas novas todas as coisas”.

E por hora, chegamos aqui ao ponto conclusivo dessa narrativa, quando ao fim dos dias, sabe-se que com 33 anos de idade o galileu chamado Jesus reuniu-se com seus discípulos pela vez derradeira e insistiu outro instante na estranha idéia de que morreria em breve. Fato este, sabe-se, incompreensível a qualquer um que o tinha como Messias.

E foi entregue nessa mesma noite, ali na capital, levado pelos braços pesados dos guardas, conduzido à presença dos doutores da Lei, que lambendo o veneno que lhes escorria pelos lábios, mentiram a respeito da vida santa de seu condenado, provando dessa forma, quem eram os pecadores afinal.

Sem doenças, sem pecado, sem máculas, assim estava diante de todos, doutores e povos reunidos, todos sabendo e vendo sua pureza, mas fizeram juntos o coro da falsidade doentia e pecaminosa bradando por sua morte: Crucifica-o!

Morreu na cruz o misericordioso galileu.

Três dias depois, ouviu-se outro alvoroço dentre o povo. Seus seguidores, aqueles doze, o viram novamente. Jesus havia ressuscitado e trazia consigo uma surpresa maravilhosa: com ele, na cruz, morreram todos os pecados e doenças da humanidade e na sua ressurreição, estabelecia-se a prova grandiosa de que era findo o período da morte e vivo, eternamente vivo, todo homem que cresse em seu propósito.

Ressurreição essa que salvou todos os homens, inclusive os médicos doentes que compreenderam seu erro e arrependeram-se. O Cristo, médico dos médicos, enquanto vivo fez perpetuar sua mensagem de cura para os enfermos, receitando dois remédios, de dose diária e perene aos que o reconhecem ainda hoje como seu Senhor redentor: arrependimento e santificação.

Disse um profeta a seu respeito, quatrocentos anos antes de seu nascimento: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças” (Isaías 53:4).

E de forma curiosa viu-se crescer depois disso o grande número de condenados que, crendo em suas palavras, viram-se curados de suas enfermidades. E de certo modo, os que se diziam sãos, foram encontrados perdidos e expostos com suas doenças. O misterioso dono do hospital, agora conhecido pelo seu verdadeiro nome – Satanás – foi revelado como o incompetente perseguidor do Cristo, ao ser derrotado por seu poder e santidade na morte da cruz e na boa nova da ressurreição de Jesus dentre os mortos.

Enfim, lembra-se hoje também, de outros escritos registrados nos livrinhos, que revelam algumas das palavras ditas pelos lábios do próprio Salvador e que nos provam – como se ainda fosse necessário – sua ação por entre aquele povo:

“Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores” (Marcos 2:17). “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11:26). “Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45).

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