Quantos pães?


por Luiz Henrique Matos

– Trinta moedas de prata!

– Trinta? É muito pouco, quero mais.

– Bah! Não me faça perder tempo, Iscariotes, são trinta moedas que te ofereço, nada mais! Não entendo essa sua incerteza, se o tal Jesus é mesmo o Cristo que você segue há tempos, capaz de “salvar o mundo e nos libertar do mal” – esnobou com ironia – porque afinal o receio em aceitar minha oferta? Só vai lucrar com isso.

– Bem, na verdade eu seguia um salvador que viria nos libertar dos romanos e fazer nosso povo livre, mas ele só fala em perdão, amor, salvação, tudo uma grande bobagem. Certos estão os rebeldes, precisamos lutar! Só que ao mesmo tempo, ele fez tantos milagres…

– Milagres! Milagres! Parece doença, esse povo só sabe falar disso agora. Quanta blasfêmia! Imagine, um carpinteiro galileu se dizer o Messias!

– Todo o povo crê. Os outros onze também. Eu só cuido das finanças…

– Não vou perder meu tempo com você, traidor imundo! Quer ou não a prata?

– Tudo bem, eu aceito – disse após olhar para baixo sondando os próprios pés, coçar a cabeça acima da nuca, pensar por alguns instantes e se entregar constrangido.

– Hahahahah – gargalhou sarcasticamente sacerdote – idiota, fez um bom negócio. Agora suma daqui. Logo meus homens o acompanharão para caçar o criminoso.

Trinta moedas de prata. Hoje isso equivaleria a três meses de salário de um trabalhador médio, algo na faixa dos dois mil reais. O que se compra, ou melhor, o que se vende por esse valor? Lembro-me de um conhecido, ex-padeiro, que costumava calcular o dinheiro que ganhava no trabalho baseando-se na quantidade de pãezinhos que era possível comprar ou vender com o tal valor. Tomando sua matemática como parâmetro, as trinta moedas de prata seriam suficientes para se vender oito mil pães.

– Ei! Sabe mesmo onde está nos levando? – perguntou intrigado o guarda ao discípulo que caminhava ofegante.

– Sim, eu sei. Estivemos juntos hoje. É por aqui, no alto daquele monte. Ele foi até lá para orar.

– A essa hora da noite… é bom ficarmos atentos. Esse traidor pode estar nos levando para uma emboscada.

– Já o vejo, ali está. Junto com mais três – disse ignorando a opinião do soldado.

– Vamos nos aproximar. Aponta-nos quem é o Jesus e nós o prenderemos.

Ele se aproximou. Ao que o Mestre observava, junto de Pedro, João e Tiago intrigados. Caminhou na direção de Cristo e beijou-lhe a face.

– Salve, Mestre!

– Judas, com um beijo você está traindo o Filho do homem? – Judas nada disse e afastou-se cabisbaixo.

– Prendam-no! – gritou o chefe dos guardas enquanto avançava como um cão na direção do Deus vivo.

Hoje, com as trinta moedas, meu amigo venderia milhares de pães em seu comércio. Judas, com a mesma quantia vendeu um só, o Pão da Vida. Mas no dia seguinte, ao contrário dos últimos três anos, não houve Pão na manhã do Iscariotes. Houve sim um vazio amargo, houve fome e ausência da única coisa que de alguma forma o alimentava. Houve remorso. Remorso que o fez notar a estupidez de seu gesto e correr, ainda ofegante, ao templo para falar com os líderes que o pagaram.

– O que quer? – perguntou o principal ao vê-lo se aproximando.

– Parem essa barbárie, estão o machucando.

– Do que está falando traidor?

– Pequei, pois traí sangue inocente.

Suas palavras, ditas àqueles homens determinados, soaram como ironia.

– Que nos importa? – disseram – a responsabilidade é sua.

– Mas não…

– Saia!

– Não podem mata-lo!

– Saia daqui, já lhe disse!

Então, Judas pegou o dinheiro que recebeu e lançou contra o templo e os que estavam ali. E fugiu. Serpenteou angustiado pelas vielas e ruas estreitas de Jerusalém, sentia-se preso aos sentimentos que, como fogo, ardiam em seu peito e atordoado pelas acusações que, como estaca, os demônios fincavam em sua mente. Em sua batalha pessoal podia ouvir a voz de seu Mestre ecoando nas pregações, ao longo daqueles três anos juntos.

– Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo – lembrava as palavras do profeta João Batista que pouco antes sinalizava a vinda do Messias.

– Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo – era então o próprio Messias iniciando Seu ministério.

– Segue-me – ouviu pessoalmente o seu chamado.

– Tenha bom ânimo, filho; os seus pecados estão perdoados – disse Cristo a um paralítico antes de cura-lo e a tantos outros quanto vinham a Ele.

– Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.

– Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.

– Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.

– Nem eu tão pouco te condeno. Agora vá e abandone a sua vida de pecado.

E assim Judas conhecia cada mensagem, ouviu de perto, seguiu ao lado daquEle que traiu e que, de forma irônica, naquele instante era o único capaz de livra-lo do mal que o assolava. A lembrança recente vinha-lhe à memória.

– Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá.

– Senhor, sou eu? – ele perguntou, já pensando em seu gesto.

– Tu o disses – e dessa hora em diante viu sua vida pacata transformando.

– Agora é tarde, ele já está sendo julgado – dizia Judas para si mesmo enquanto corria – porque não compreendi tudo isso antes? Me lembro dessas palavras, me lembro de sua mensagem. Eu sei, sabia desde a ceia, seria eu o traidor. Mas e agora, onde está a resposta que me foge diante desse tormento insuportável? Onde está minha luz?

Era tarde para corrigir seu gesto inconseqüente, mas não para obedecer ao mandamento. Viu Jesus proclamar arrependimento e conceder o perdão por tantas vezes ao tipo mais imundo de gente, que se entregavam a Ele todos os dias, mas esqueceu-se de que ele mesmo precisava se entregar. Então lembrou, sentia-se sujo. E degladiava com os demônios que, sedentos, lançavam-se contra sua vida.

Esfregava a face procurando enxergar o que deveria estar tão nítido. Estava cego, não viu a clareira que brilhou em sua escuridão. A vista lhe ficava turva, a Verdade cada vez mais distante. O medo tomou-lhe de ímpeto, a angústia, a dor, o frio. Seu mundo agora era de trevas, seu destino desviou-se do propósito, Judas tinha uma chance, mas só encontrou uma mentira. “E, saindo, foi e enforcou-se”.

* * *

Judas conheceu a pessoa de Jesus, mas não vislumbrou o Deus que havia n’Ele. Esteve com o Pão que vendeu, mas não provou de Seu sustento. Viu Jesus multiplicar os cinco pãezinhos do garoto em tantos quantos suas moedas de prata não poderiam comprar. Vendeu-se por tão pouco. Ainda na última noite, antes da traição, partilhou com Cristo e os outros onze um outro pão, na ceia, símbolo eterno de Seu corpo que seria dado em sacrifício dali a pouco.

Ele conhecia bem suas opções. As duas únicas dadas a todo homem que peca: a vida ou a morte. Podia arrepender-se, pedir perdão ao seu Senhor e viver a eternidade livre de seu erro. Mas também podia achar seu erro grande demais, pensar que para ele não haveria salvação, entregar-se à mentira diabólica e ser consumido pela morte.

Judas Iscariotes trilhou pelo segundo caminho. Escolheu a morte e não aprendeu que em Cristo o arrependimento por si só não é suficiente, é necessária a confissão.

E como foi dado a Judas em conseqüência do pecado, diante dos filhos de Deus também estão dois caminhos, apenas dois, que o Senhor de toda forma tentou ensinar-lhe antes que fosse tarde.

Para Judas foi tarde demais, mas para os outros, bem, aos outros resta a opção.

“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (Marcos 7:13-14).

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