Firme certeza – a fé que liberta


por Luiz Henrique Matos

Olhei para aquele guindaste montado na areia da praia. Sozinho, era noite, por volta das dez. Me dirigi ao balcão de informações e perguntei:

– Quanto é?

– Quinze real – informou o rapaz

Pensei por algum tempo, não muito, apenas os segundos suficientes para enfiar a mão no bolso da bermuda e pagar minha inscrição. Depois andei até o final da fila, que ficava toda sentada olhando para o alto, me ajeitei na cadeira, respirei fundo e pensei eufórico: Caramba, eu vou saltar de bungee jump!

Depois de uma hora e tantos, subíamos eu e minha coragem pela plataforma do guindaste. Momentos antes eu vira um bêbado saltar todo torto pendurado naquele elástico. Agora era minha vez. A medida que o elevador subia, na mesma proporção iam ao máximo a minha adrenalina e o frio na barriga. Já no alto, dois homens encaixam um equipamento na minha cintura, eu olho para o céu, amarram meus pés, eu vejo o balneário inteiro, me suspendem no ar, eu clamo a Deus, me soltam, eu berro:

– Jeroonimoooooo!

Caio em queda livre por alguns segundos e pipoco no elástico por outros tantos, tudo gira, o frio na barriga já congela o corpo inteiro e inacreditavelmente um sorriso me toma a face de orelha a orelha, sou um bobo. Mas eu consegui. Consegui e estava vivo. Abri os braços e me entreguei, sentindo o vento me tocar e alguma reação da física me balançar naquele pêndulo. Sozinho. Ninguém para me julgar, ninguém também para me elogiar. Nenhum amigo em volta para ver meu feito, ninguém para eu poder mostrar minha coragem, masculinidade viril, minha fé… Calcei meu chinelo e fui para casa dormir.

Nesse tempo eu pensava que “fé” era só uma expressão monossilábica. Tinha meus 16 anos e achava que Jesus era um cabeludo loiro que parecia bastante com aqueles surfistas que eu via nas revistas. E igreja era onde eu ia com meu pai quando pequeno só para poder passar na padaria após a missa e comprar doces.

Anos depois, precisamente hoje, eu gostaria de saber onde foi parar essa minha fé. Não a fé espiritual, da certeza no Deus vivo e da salvação em Cristo. Mas a “fé” crua e corajosa em agir sem pensar nas conseqüências do gesto, sabendo simplesmente que a vida estava do outro lado da corda, ou melhor, lá embaixo, no fim dela, que me sacudia na ponta do elástico. A certeza infantil em mergulhar na parte funda da piscina e confiar que meu pai estaria ali para me resgatar com seu braço forte. A adolescência inconseqüente ao descer sobre meu skate pela ladeira mais alta do bairro sem imaginar o que me aguardava lá no fim: um asfalto cortante como lixa que me consumia os cotovelos e o estoque de ataduras ou a glória da vitória sobre aquela tábua com quatro rodas.

Eu queria saber em que momento ela se foi. Não que eu a tenha apagado de minhas intenções, ainda faço planos – firmemente rejeitados pela minha esposa – de pular de pára-quedas, descer o rio sentando em um bote, mergulhar em águas cristalinas no Pantanal, velejar em alto mar e de estar pendurado em uma corda na boca da caverna.

Mas percebo triste que a fé que eu tinha nesse nada não se repete na minha certeza sobre as promessas de Deus. E me pergunto: Porquê? Porquê sou tão incrédulo? Porquê simplesmente não confio e me lanço na profundidade desse espaço, no porto seguro de meu Criador? Porquê, afinal de contas, teimo em achar que os meus braços são mais fortes que o de Deus e que Ele, soberano, pode não ser tão pontual quanto eu quero?

O profeta Jeremias falou: “Assim diz o Senhor: Maldito o varão que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jeremias 17:5). Quem sou eu para dizer o contrário? Quem sou eu para não fazer disso a minha oração?

Quero poder confiar, não nas alturas, nas grandezas ou na precisão de um elástico radical, mas voltar meus olhos para um pequeno ponto, um minúsculo grão, uma semente de mostarda (Mateus 17:20) e através dele depositar minha esperança em Jesus. A esperança das coisas que não se podem ver, mas através das quais todo o visível foi criado (Hebreus 11:1-3).

O pequeno grão que é plantado em meu coração e cresce, e cresce, e cresce, me levando a voar tão alto como águia. E a medida que essa certeza me eleva em fé, na mesma proporção vai ao máximo a minha alegria e o frio na barriga continua. Lá em cima, o Filho do homem me guarda em Suas mãos, eu olho para o céu, firma meus pés na Rocha, eu vejo meu futuro inteiro, me suspende no sopro da vida, eu louvo a Deus, me solta para a eternidade, eu confesso livre:

– Eu creio Senhor, eu creio! Glória a Deus nas alturas.

“Mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; andarão, e não se fatigarão” (Isaías 40:31).

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