Cartas do Theo – Faça seu pedido


por Luiz Henrique Matos e Emmanuelle Burci

Oi vô, tudo bem aí?

A mãe mandou eu enviar esse e-mail para mostrar que eu já estou escrevendo direitinho. Não é muito verdade porque depois que eu termino ela vem e corrige tudo, mas aí ela falou que era bonitinho e você vai gostar. Eu falei que não sabia o que escrever e ela falou para pôr qualquer coisa aí porque você ia achar uma graça de qualquer jeito. Eu não consegui pensar em nada e comecei a chorar, daí ela falou que tudo bem e pediu para contar como foi a viagem no feriado com a tia e o tio.

O feriado foi muito legal, viajamos para a cidade da tia que é longe pra caramba e fez um sol de rachar. Lá é diferente aqui da nossa cidade, as pessoas andam mais devagar e não ficam correndo e coçando a cabeça de nervoso que nem o pai. Não tem muito prédio, nem muito ônibus e nem fumaça. Tudo é pertinho, dá para ir de carro sem dormir no caminho e a gente pode brincar na rua sem ter um monte de adultos por perto.

A gente saiu e brincou e jogou bola e foi no sítio e tomou sorvete e tomou sorvete e tomou sorvete (é vô, três vezes) e brincamos de escolinha, onde eu aprendi para o que servem as vírgulas. Eu até queria ir nadar no clube com os primos da tia mas não deu, a tia falou que eu não parava de espirrar por causa de tanto sorvete e que se nadasse na água gelada ia ficar espirrando mais ainda e a mãe ia dar bronca e eu não ia poder nadar por um tempão.

Mas em compensação a gente tinha que ir na igreja toda noite e ficava lá cantando. Depois um homem de gravata abria um livro bem grosso (que eu achei que ele ia ler inteiro e eu ia dormir) e contava uma história para todo mundo e eles choravam e depois se abraçavam e então a gente ia embora bem tarde para comer lanche e tomar refrigerante na praça.

Por falar em comer, um dia eu tava com muita fome e o tio também. Já era hora do almoço e ele ficava enchendo a paciência da tia falando: “Vaaaai nêga, eu tô com fome!”. Daí chamaram as tias da tia, os tios da tia, os primos da tia e mais um monte de gente e falaram que a gente ia em um restaurante bem legal.

Combinaram que a gente ia em uma cantina, mas não era igual a que tem na escola, porque lá não vende salgadinho e chiclete, só massa. Mas a massa também não é aquela de brincar de fazer bonecos, é uma diferente que é de comer com garfo e faca e tem um molho daqueles vermelhos que sujam toda a camiseta.

Olha vô, eu sei que o senhor não parece adulto porque brinca com a gente que nem criança, mas vou dizer que adulto é mesmo tudo estranho (a mãe vai ler isso e vai me dar uma bronca depois). Mas parece que quanto mais gente tem, mais demora para escolher o que fazer, o que comer, onde ir… e eu e o tio só ficando com mais fome. Se fosse lá na escola a gente via quem foi que falou primeiro e aí já tava decidido.

Então, aí a gente entrou na cantina e aí eu sentei naqueles bancos super legais que são bem altos e cabem no canto da mesa. Eu fiquei do lado do tio. Puxa, como ele reclamava! O tio é bem paciente e bonzinho, mas a tia fala que tem duas coisas que deixam ele chato pra caramba: uma é ficar com fome e a outra, bem, a outra eu conto outro dia vô.

– O que vocês vão querer para beber? – perguntou uma garçonete bem legal, que me deu um pirulito na saída e ficava apertando minha bochecha.

Nessa hora foi um fuzuê só, um queria suco, outro queria refrigerante, outro pediu água e até todo mundo decidir demorou mó tempão. Eu queria um refrigerante só pra mim mas o tio falou que não podia porque ia ficar sem gás e sem gelo no copo, então eu ia beber com ele.

Rapidinho a bebida chegou, cada um pegou o seu (alguém pediu mais gelo) e a moça fez uma pergunta que parecia mais difícil ainda:

– Já escolheram a comida?

Silêncio total. Mas não por muito tempo, só até todo mundo pegar os cardápios e começar a vasculhar e falar ao mesmo tempo. Aí a moça foi embora e todo mundo ficou escolhendo, menos eu que ia ter que comer junto com o tio porque eu não agüento um prato inteiro (é grande de verdade). Depois de um tempo eles decidiram e voltaram a conversar alto enquanto o tio falava que queria comer. Ele fica chato mesmo.

Passou um tempão, eu não sei quanto porque ainda não consigo ver no relógio, mas demorou muito e a comida não chegava nunca.

Aí chegou o irmão da tia com a namorada dele e tiveram que sentar em outra mesa, de tão cheia que tava a nossa. Escolheram a bebida e a comida que queriam e já pediram tudo para a moça (uma outra, mas que também gostava de apertar minha bochecha. Acho que faz parte do serviço deles).

Só que aí, a comida dos dois chegou bem rápido e a nossa ainda não tinha vindo. Aí o tio, que já estava chato, quer dizer, super chato mesmo, começou a fazer bico e queria reclamar com um tal de Responsável que não tinha aparecido ainda (mas se viesse eu acho que ia apertar minha bochecha também). A mesa toda ficou naquele fuzuê de novo e aí chegou a moça que atendeu a gente primeiro.

– Moça, nós já chegamos há mais de uma hora e nossa comida não chega. Eles dois chegaram depois e já receberam os pratos – foi o que disse uma tia da tia, super simpática, porque se o tio falasse ele seria mal educado (enquanto isso eu comia as batatinhas dos outros dois, porque também estava com muita fome, mas eu sou legal e não reclamo tanto né?)

– Me dá só um segundo que eu vou verificar.

– Talquêi! – falaram todos ao mesmo tempo, menos o tio que estava azedo e eu com a boca cheia.

Depois de uns segundos (não foi um só) voltou uma outra mulher, sem uniforme e com cara de chefe. Era a Responsável, mas nem veio apertar minha bochecha porque se apertasse eu ia derramar toda a batatinha. Aí ela disse uma coisa que deixou todo mundo assustado:

– Olha, eu verifiquei lá atrás e não foi registrado nenhum pedido.

– Como não? Escolhemos duas lasanhas grandes, uma média, três filés à parmeggiana, um nhoque e blá blá blá!

– Mas vocês pediram?

Fizeram o terceiro sururu daquela tarde (é o mesmo que fuzuê vô, mas eu quis falar diferente) e perceberam, sei lá como, que tinham demorado tanto para decidir os pratos que aí a moça foi embora e acabou que ninguém pediu nada. Ficaram só na vontade. Aí fizeram uma baita cara de sem graça, igual a minha quando a mãe me vê fazendo coisa errada, e junto com isso uma outra cara, de muita fome. E o tio tava quase desmaiando em cima de mim.

Que gente estranha né vô? Queriam comida, precisavam comer, mas ficavam reclamando e reclamando ao invés de pedir. Parecia uma história que o homem de gravata contou lá na igreja um dia. Ele falou que um amigo de Jesus deu uma bronca em uns outros amigos dele.

Eu soube que Jesus fazia um monte de coisas legais e boas (muito massa mesmo vô, vou falar dele lá na escola pro pessoal), só que esse amigo dele estava achando estranho porque todos de uma certa igreja lá, sabiam que Jesus podia ajudar em tudo o que eles precisassem, mas o povo só reclamava e contava pra todo mundo, mas para Jesus mesmo, que ia resolver, ninguém pedia nada e quando pedia, fazia tudo errado, pedindo coisa que não prestava.

O cara da gravata leu no livro bem grande uma carta (não vô, ainda não tinha e-mail) que o amigo de Jesus que chamava Tiago escreveu: “Vocês cobiçam e não alcançam; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras. Não têm, porque não pedem. Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres”. Eu demorei para entender essas palavras de gente culta, mas também né, o cara era amigo de Deus!

O pastor (nome do cara da gravata… é, pastor, igual a raça do Micci, meu cachorro), falava de oração e disse que isso é a nossa conversa com Jesus, quando contamos tudo para nosso melhor amigo, mais amigo até do que o Fausto lá do 1º B. No fim da reunião na igreja, o pastor, que também apertou minha bochecha, me disse que Jesus até tinha uns amigos da minha idade (massa!).

Eu aprendi que eu tenho que pedir as coisas pra Ele (com êzão assim). Acho que vou pedir para que o tio não fique mais tão bicudo quando tem fome e quando passar por aquela outra coisa que deixa ele irritado, que é… é… xi, agora esqueci.

Vô, agora eu vou parar de escrever e mandar logo o e-mail porque a mãe tá falando que eu aprendi a digitar no teclado e fico enrolando e não paro mais de falar, ops, teclar e quase não durmo (dói menos a mão, acho que vou levar um desse aqui para a escola. Me dá um de aniversário?).

Fique com Jesus e um beijo na careca.

Do seu neto, Theo M.

PS. Ah, anotei uma coisa que o homem da gravata falou. Foi um outro amigo de Jesus que escreveu para os camaradas dele. Achei bem legal para usar quando for fazer oração ou quando for no restaurante de novo e tiver que pedir comida. Olha aí:

“Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente. Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos, de acordo com a vontade de Deus” (Romanos 8:25-27). He he he (isso é risada vô) esse Deus é legal!

(*Obrigado à Manú, minha esposa, que me lembrou desse “causo”)

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