Perucas imperiais


por Luiz Henrique Matos

“A religião está no coração, não nos joelhos” (Jerold Douglas William).

Há poucos dias li uma notícia que me deixou intrigado. Na verdade, eu já era intrigado pelo tema da história em si e as lembranças que me traziam. E por mais bizarro que pareça, acho que merece ser mencionado. Eu não sabia e talvez você também não, mas descobri a origem daquelas perucas brancas e compridas que os nobres usaram por tanto tempo no passado.

Ei-la: Aconteceu que o Rei Luís alguma-coisa-em-números-romanos (desculpe, não lembro qual foi), muito vaidoso, notou que estava ficando calvo. Ordenou então a alguns de seus súditos que lhe providenciassem uma peruca para cobrir a falha e, feito isso, passou a usa-la. Sua corte, notando a diferença e sendo então muito bajuladora, viu no visual do rei uma forma de agrada-lo e gradativamente adotou também as perucas. Com tal gesto, em pouco tempo, o ornamento era utilizado em toda a França.

Mas não bastasse, eis que passado algum tempo, uma comitiva inglesa visitou o reino francês e vendo ali que o uso da tal peruca era bastante difundido entre os nobres, importou o costume para os bretões que também o adotaram na Inglaterra.

Estupidez pura, você há de concordar. E parando muito pouco para pensar, não parece tão diferente do que acontece ainda hoje, temporada após temporada, nos desfiles das novas coleções e vitrines badaladas da moda.

Honestamente, não gasto muito do meu tempo pensando a respeito, prefiro acreditar que essa questão faz parte de nós, homens e nossas esquisitices. Também não me preocupo com os modismos de hoje ou outrora, mas preciso dizer porém, que quando esses gestos vagos e temporais transformam-se em costumes, ficamos a um pequeno passo de uma grave conseqüência na história humana: as tradições. Ou pior, as tradições sem fundamento.

A igreja é muito boa nessa (penosa) arte e ostenta ainda hoje suas “perucas francesas”. Foram costumes de determinada época ou cultura que, incorporados na doutrina de um ou outro grupo, transformaram-se em tradições religiosas que acabaram por caracterizar ainda hoje certas comunidades.

Mas o pior realmente aconteceu quando deixaram de ser apenas algumas sutis características e tornaram-se um fator crucial de exclusão no meio desses grupos.

O curioso – e triste – é que repetimos um erro que já vimos exaustivamente antes, refletido nos judeus retratados nos Evangelhos. Na ocasião, os fariseus por exemplo, acreditavam na lei transmitida oralmente, geração após geração, tanto quanto acreditavam na lei mosaica deixada nos rolos. Presos às próprias tradições, não puderam notar a transformação do mundo com a vinda do Messias que tanto esperavam (e ainda hoje esperam).

As denominações cristãs estão cheias, todas elas, de tradições e hábitos que tornam o homem cada vez mais preso às próprias leis e da mesma forma, mais distante da verdade única na plenitude de Deus.

Não cabe aqui (e nem a mim) uma exposição detalhada do que vem ou não a ser esses hábitos, quem os pratica ou como o fazem. O objetivo é, juntos, refletirmos sobre as Escrituras, o contexto dos livros, a base histórica e a realidade por trás de cada texto. E a partir disso, viver a verdade na essência do que ela representa.

Jesus veio ao mundo e durante seu ministério contextualizou sua pregação de acordo com as necessidades do povo naquela época. Os mesmos rolos que os judeus liam e veneravam ao “pé da letra”, foram interpretados por Jesus de forma que todos compreendiam – e diziam ainda que Ele falava “com autoridade”.

Outro bom exemplo são as parábolas que Ele contava. Através delas, Jesus explicava o Reino de Deus ao povo em uma linguagem simples e por meio de situações muito práticas.

Acredito que podemos (e devemos, de fato) fazer o mesmo. Ler a Bíblia para compreende-la em sua essência e significado, viver a vida que Deus pede que tenhamos, praticar o amor verdadeiro. E não nos perder em costumes e interpretações vãs ou interesseiras.

Vivemos complicações demais, o Evangelho é simples.

Existem diversos textos na Bíblia onde lemos exemplos de tradições e costumes humanos que foram quebrados por Davi, Jesus ou Paulo e poderíamos ler alguns deles aqui. Mas isso, imagino, cabe melhor na reflexão particular de cada um, tendo o coração como habitação do Espírito Santo e obtendo Sua doce revelação.

E por falar em coração, é sobre ele mesmo que poderíamos sim tratar e concluir com o princípio do que devemos dedicar tempo e manter como “santa tradição” através das gerações.

Essa tradição que afinal, poderia ser vivida e perpetuada para que um dia todos a pratiquem como algo presente em sua conduta e que, de tão comum, seja uma bela “peruca” ornamentando nosso caráter:

“Ame a Deus acima de todas as coisas e ao seu próximo como a si mesmo” (Jesus Cristo).

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