O eterno e o passageiro


por Luiz Henrique Matos

Vi agora há pouco um senhor, daqueles bem senhorezinhos mesmo. Já idoso, andava com certa dificuldade, meio curvado, mancando, ajudado por uma bengala em uma das mãos e o casaco grosso de lã apoiado sobre o outro braço dobrado. Embaixo da boina, seu rosto tinha a pele um tanto manchada pelos anos e tanto mais enrugada pelos efeitos da gravidade. Seguíamos nós dois, na plataforma de uma estação de trem, rumo a um ponto comum: a escada de seus trinta e poucos degraus que nos levaria à rua.

Sinto uma compaixão irresistível e desconfortável por idosos que me faz ser gentil de uma forma que normalmente não o sou. Acelerei o passo, cheguei mais perto e ofereci ajuda em sua aventura: “O senhor quer ajuda?”, perguntei. Mas ele não ouviu e ficou me encarando com olhar sério, esperando que eu dissesse algo. Repeti, agora em tom mais alto: “O senhor quer ajuda? Para subir…”, disse apontando para a escada. Então ele ouviu e para minha surpresa respondeu: “Não, pode subir. Eu vou aqui, devagar”.

Subi sozinho, me sentindo apenas metade-escoteiro, vendo frustrada a minha tentativa de boa ação. Mal deu tempo de me concentrar em outra coisa e um pensamento me tomou de assalto: “Um dia eu vou ficar assim”. E aquilo me incomodou.

Incomodou-me não o desgaste natural do tempo sobre o corpo, saber que ao passar dos anos minhas orelhas ficarão mais longas, o nariz mais pontudo e as bochechas caidonas (pelo menos em mim, penso que vai ser assim). Acho até que a idade traz consigo a experiência de uma longa vida e no meu caso, trarão também as aventuras que sei que vou viver, como viajar ao redor do mundo de balão e navio, enfrentar uma viagem ao espaço com escala em algum planeta bacana da via-láctea, ou simplesmente ler histórias infantis para os meus netos sentado na varanda de um sítio.

Fiquei intrigado sim, mas foi com a certeza de que vi naquele homem a lucidez de uma vida plena, que apesar de sua mente ainda ser a mesma de outrora, seu velho corpo já não corresponde ao ritmo com que decidiu viver. Uma mente madura em um corpo passado. A briga de uma lado da vida que cresce até onde ela própria dura, contra outro que se deteriora ao longo dos anos.

E aquele mesmo assalto de raciocínio, leva também à pergunta: “O que vale mais, o passageiro ou o eterno?”.

Assim também, abruptamente, o pensamento cai noutra questão, que não mais sobre a vida terrena, mas agora sobre a eterna: “O que é importante afinal, a Corpo ou o Espírito?”.

E daí afinal, ao fato que nos confronta: todo pecado sobre o qual somos tentados, todo prazer estritamente carnal, alimenta um desejo passageiro e limitado. O corpo, com todos os seus luxos, esvai pelo ralo com o tempo e um dia voltará ao que fora antes: pó. E isso, é tempo que não volta mais, é – como diria Salomão – vaidade, é correr atrás do vento.

Mas, quanto ao espírito, alimentá-lo produz um fruto sempre maduro e saboroso. Ao dedicarmos tempo ao amadurecimento espiritual, plantamos para uma longa e duradoura ceara. Quando investimos na eternidade, colhemos a sabedoria de Deus.

Nessa batalha entre espírito e carne, de certo – como aprendi com um pastor – será mais forte o que estiver mais alimentado.

Sim, também é fato, o corpo vai ficando cansado, as costas começam a curvar, o casaco grosso com a boina já serão parte do nosso cenário e as escadas parecerão cada vez mais íngremes e desafiadoras. Mas, enquanto houver forças, enquanto o espírito for vigoroso e puder ser amadurecido, poderemos responder com serenidade aos convites fugazes que a vida nos faz: “Pode ir. Eu vou aqui, devagar”. E assim nós chegamos lá, não mais voltando ao pó, mas na glória eterna, como realmente importa.

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