O Evangelho do Desencapetamento e uma dúvida cruel


por Luiz Henrique Matos

Uma dúvida me tomou nas últimas semanas e sem ter com quem partilhar – além dos já cansados ouvidos de minha amada e paciente esposa – “arresolvi” trazê-los para esse espaço.

Pois é que, diante dos atentados que aterrorizam o mundo nos últimos anos, leio que alguns estudiosos alertam para o perigo do preconceito por parte do ocidente contra as comunidades árabes ao redor do planeta e principalmente, uma generalização de sentimentos discriminatórios para com os muçulmanos.

Sabe-se que os aderentes dessas seitas e grupos terroristas são uma parte menor no total de 1,5 bilhões de muçulmanos no mundo todo, mas que de toda forma, essa reação global defensiva atinge e dificulta a vida de outros milhares de inocentes que acabam por carregar a culpa sobre as atrocidades de outros. E nesse cenário, o que se recomenda aos líderes religiosos é que se defendam, expondo seu sentimento de repúdio aos ataques, mobilizando suas comunidades e combatendo a pregação criminosa da “jihad” (guerra santa) que motiva os atentados e tornando claro que esses criminosos não representam o verdadeiro sentimento islâmico.

Só a título de curiosidade (e ironia), Alá, a referência dos muçulmanos para Deus (inclusive os terroristas), é traduzida como “O Misericordioso”.

Outro ponto, aqui mais próximo de nosso nariz: na última semana, vivi uma alegria infantil ao ver meu time ser campeão (pela terceira vez, é importante dizer) do principal campeonato de futebol do nosso continente. Mas também tive o desgosto de saber que alguns torcedores, uns poucos diante dos milhares que vestem a camisa tricolor paulistana, agiram como vândalos e destruíram parte do patrimônio público e privado na capital paulista, saqueando lojas e entrando em confronto com a polícia. Mas, como dizer que aqueles irresponsáveis, não representam a totalidade dos entusiasmados torcedores do São Paulo Futebol Clube que sequer pensariam em “comemorar” um título com tal atitude?

Igualmente, no raciocínio (?) de que muçulmanos são terroristas e de que são-paulinos são vândalos, notamos que essa repetitiva veiculação de fatos na mídia, nos leva a outras tantas conclusões generalistas e preconceituosas, como acreditar que políticos são todos corruptos ou que moradores de favela são criminosos. Na mesma visão comum, achamos que os judeus são avarentos, negros são pobres, policiais são excessivamente violentos e os padres estão entre homossexuais e pedófilos.

Há também, já não ia me esquecendo, um sentimento comum e cada dia mais intenso, de que pastores são corruptos, manipuladores e que os cristãos são desonestos, falsários e coniventes com esse “escândalo” que se tornou a igreja protestante no Brasil.

E justamente no cenário que cabe à minha dúvida e a reflexão de meus botões, me assola e incomoda a questão de como são vistos hoje os cristãos em nosso país. Perguntando a uma meia dúzia de colegas, todos estão de acordo senão com todos, ao menos com um dos adjetivos que descrevi no parágrafo acima.

Não sem certa razão, admito, pois assisti há poucos dias um bispo-deputado declarar (com um sorriso nos lábios, também é importante dizer): “Não, a igreja não gosta de doar nada viu. A igreja gosta mais é de receber (o dinheiro)”.

E outra cena ridícula, me permita, foi a faixa pendurada diante de uma igreja em algum lugar desse país, com as seguintes e exatas palavras: “DESENCAPETAMENTO TOTAL. Se você é vítima de: olho gordo, inveja, doenças incuráveis, vícios, dívidas, miséria, solidão, é infeliz no amor, cisma que foi vítima de trabalhos feito na macumba, bruxaria, feitiçaria e nada dá certo. VENHA RECEBER A PRECE VIOLENTA e seja liberto de toda opressão”.

Me escandalizo ao pensar que toda a transformação de vida pela qual passei desde que Cristo faz parte de mim, todo aprendizado deixando por Jesus aos homens, toda construção e fundamento de nossos irmãos na Igreja Primitiva, toda santidade de caráter pregada e desejada na essência do cristianismo, ou seja, tudo o que realmente traduz a nossa fé, está escondido sob uma casca de imoralidade e perversão, que impede as pessoas de verem o verdadeiro plano de Deus por trás do título “Igreja”, que Ele mesmo chamou por “corpo de Cristo”.

Me entristeço ainda mais, por saber que essa “casca” não foi construída por outros, senão por parte da própria instituição que se denomina “Igreja de Cristo” nesses nossos dias. E atrás da instituição estão homens, como eu e você, mascarados, engravatados e devidamente intitulados “crentes”.

Me decepciono ao descobrir que há tempos minha inocência foi perdida. Lembro dos meus primeiros tempos de conversão, quando cheguei a acreditar que todo o que se dizia “cristão” partilhava e vivia as maravilhas que me surpreenderam nas Escrituras. E pensar que estranhei a expressão “primeiro amor” porque julgava que aquele sentimento aquecedor de êxtase não poderia esfriar jamais.

E volto afinal à pergunta que motivou esse pensamento: devemos nos calar? Ficaremos parados ao ver a fé pura e imaculada de Jesus Cristo sendo transvertida em sujo interesse pecaminoso?

Ouvimos muitos desses homens justificar seus atos, martelando versículos e expressões como “submissão à autoridade” e “obediência à liderança”, usando isso como forma de calar seus fiéis-financiadores (ou seriam clientes?).

Mas eles estão errados! Eles não estão pregando o evangelho de Jesus Cristo! Não estão vivendo o mandamento do amor.

Sei e confesso que o que me permeiam são dúvidas, mas sinto-me impelido a pensar que não podemos permitir que criminosos carreguem uma bandeira cristã e com isso, manchem a imagem inocente de milhares e verdadeiros fiéis.

Chego até a alimentar a dúvida de que, veja só, alguns de nós se calam diante da expansão dessas empresas pela satisfação incoerente de “ver o reino crescer” ou pelo orgulho estúpido de sonhar com “uma nação evangélica”. E pergunto ainda: Que reino? Que evangelho? O que de fato cresce nessa ocasião além do saldo bancário desses bandidos? Eles vestem a máscara do cristianismo para justificar seus atos e consequentemente, uma nação de desinformados, manipulados pelo seu discurso de “prosperidade”. Como li há alguns dias em uma charge: “Templo é dinheiro”.

Volto à minha questão: temos que denunciar ou devemos que nos calar e esperar uma “justiça cair do céu”? Vamos virar a banca dos que comercializam ofertas no templo sagrado do nosso Pai? Vamos ser sal e luz nesta terra? Vamos reclamar, como Paulo, contra os que tentam subverter a verdade cristã do amor e da graça? Ou, vamos deixar que a igreja mais uma vez seja esfriada pela mentira, pelas indulgências, pelo interesse vaidoso do homem, pela opressão diabólica?

Pessoalmente, sei que é utopia, ainda prefiro sonhar com o reino do amor e Evangelho que o Senhor Jesus pregou há dois mil anos. Esse sim, arrebanhava multidões, curava os doentes, crescia em paz e preenchia os corações dos homens com aquilo que mais lhe carecem: Deus.

O que acho – mas perdoe-me, posso estar equivocado e sendo levado pelo impulso passional de um filho comovido – é que se continuarmos nesse silêncio, anularemos o futuro do cristianismo e não só perderemos a verdadeira dignidade da Igreja, como também vestiremos a máscara e nos tornaremos coniventes com o… Evangelho do Desencapetamento e sua “prece violenta”.

Em tempo, ainda hoje, dia 18 de julho de 2005, na Inglaterra, 500 líderes religiosos muçulmanos reuniram-se para redigir um “fatwa” (ditame religioso sobre um assunto específico) condenando o suicídio, além de todo ato de violência e terrorismo. Ao que parece, mesmo eles estão mais avançados do que nós.

3 comentários sobre “O Evangelho do Desencapetamento e uma dúvida cruel

  1. Então…e não é que, agora o medo dos caras lá da terra da rainha se volta contra todos não anglo-saxões e brancos, no caso. O medo cara. Esse é o pior dos sentimentos. Isso é o que move o terror. E, no frigir dos ovos, o medo do diferente. Do novo. O lance de não aceitar o outro. Sua fé. Cultura….enfim…tolerância cara….isso é o que falta…tolerência…
    Abraço…parabéns pelo texto!
    Carlos.

    Curtir

  2. Então…e não é que, agora o medo dos caras lá da terra da rainha se volta contra todos não anglo-saxões e brancos, no caso. O medo cara. Esse é o pior dos sentimentos. Isso é o que move o terror. E, no frigir dos ovos, o medo do diferente. Do novo. O lance de não aceitar o outro. Sua fé. Cultura….enfim…tolerância cara….isso é o que falta…tolerência…
    Abraço…parabéns pelo texto!
    Carlos.

    Curtir

Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s