Procurando a visão


por Luiz Henrique Matos

Eu revirava na cama e procurava no meu travesseiro o descanso para passar mais uma noite. Queria eu que fosse só mais uma, como outra qualquer. Mas não seria assim tão fácil, algo me incomodava profundamente e aquilo parecia estar plantado dentro de mim. E eu nem podia dizer que passaria a madrugada de olhos abertos porque era justamente um deles (peraí, qual mesmo?) que insistia em coçar, e coçar, e coçar desesperadamente.

Lavei, esfreguei, tentei enfiar o dedo indicador lá dentro para tirar o que quer que estivesse ali, fosse um cisco, fosse um tronco. Mas nada parecia resolver. Depois de um tempo insistindo em não levantar ou ceder àquele sagaz inimigo da paz humana, resolvi tentar o óbvio: fui – caolho – à caixinha de remédios, peguei o frasco de colírio e depois de molhar toda a testa e a bochecha, deixei que duas daquelas pequenas gotas inundassem aquele território.

Ah-ahh! Regozijo, paz, conforto, o alívio da pureza. Foram apenas dois breves minutos para que meu olho sentisse novamente o prazer do não sentir, se fechasse exausto (e inchado) e eu gozasse o repouso tranqüilo dum sono profundo.

Mas, ora bolas… por que razão eu não recorri ao colírio antes? Tão óbvio. Como se eu não soubesse o que estava escrito naquela bula. Logo eu, que leio até o verso da embalagem do creme de barbear (em português e español – coisas do Mercosul).

Aproveitando a circunstância, pensei depois, sobre o que falou Jesus, naquela história de apontar o cisco no olho do próximo sem reparar na trave que está no nosso (Mateus 7:3-4). E nessa hora, sinceramente, eu questiono: “Como alguém pode enxergar o cisco do outro com a vista coçando desse jeito?!”

* * *

E não é que ultimamente eu vinha reclamando muito de uma outra coceira, um cisco num olho que não é exatamente meu, mas que eu insistia em apontar e querer ver curado. Citava até, veja só, a receita de um bom remédio para aqueles que eu julgava estarem momentaneamente cegos.

Protestei, intercedi e me cerquei da certeza de que não estava sozinho nesse sentimento. São muitos os que ouvi partilharem a mesma visão de que precisamos de uma igreja mais simples, apaixonada, vivendo um relacionamento de amor verdadeiro entre irmãos e plena nos princípios do cristianismo. Uma igreja refletida em sua forma mais pura na igreja primitiva, liderada pelos primeiros discípulos de Jesus Cristo. E me achava cansado até de reclamar, saudoso de momentos outros, indignado com “aqueles” que andam a desonrar a obra do Pai.

Um sonho nobre, de fato.

Mas, foi assim, de então, senão de outro jeito do que pela própria Palavra, que aprendi a diferença e o grande buraco existente entre meu sonho e a realidade. E essa realidade não era a imagem por mim condenada, mas justamente aquela que eu mesmo julgava correta.

Clamava em favor da visão de outros quando foi, me percebi, cego. Um palmo sequer eu via e portanto, não notei também que a dita “mudança” deveria, em primeira instância, ocorrer num lugar mais íntimo: meu próprio coração.

E o tratamento necessário era simples, tão óbvio, eu não percebera: precisava de um pouco do colírio criado naquela lama cuspida em Betsaida, precisava olhar para dentro do que eu era, carecia do toque de Jesus sobre meus olhos (Marcos 8:25).

Voltei a enxergar. Percebi que o sonho era sim possível e próximo, mas ao contrário do que eu acreditava, era preciso muito menos do que uma revolução mundial. Percebi que o grande desafio a ser vencido está bem ali dentro, ficou por tempos guardado ao lado do pecado, escondido perto do já empoeirado perdão não liberado, arquivado com as memórias e fotografias amareladas daqueles primeiros dias de amor. O amor, primeiro amor, ele estava de volta!

Aí que, há poucos dias li também o texto de meu grande amigo, Sérgio Dantas, com um pensamento certeiro a respeito, dizendo: “A igreja da pós-modernidade busca encontrar-se. Ela há muito que busca uma identidade, um método de atuação, tentando copiar a cultura da igreja primitiva, esquecendo que é a essência que deve permanecer”. Na mosca.

E o que é a essência da igreja cristã senão – vai parecer óbvio de novo – o próprio Cristo? Não é também a igreja em si a morada de Deus? E não é Deus, afinal, quem habita nos homens que nele crêem? Logo, somos nós, homens, a própria igreja, habitação do Deus altíssimo.

Como posso então sonhar com uma igreja santa sem antes viver a santificação? Se quero um ambiente com irmãos como eram Pedro, Estevão, João, Paulo ou Filipe, devo antes ser eu mesmo, um conciliador, um encorajador, quem sabe um Barnabé?

Belíssimo (e oportuno) é também o testemunho de C. S. Lewis ao narrar um dos momentos de sua conversão: “Pela primeira vez examinei-me a mim mesmo com um propósito seriamente prático e ali, encontrei o que me assustou; um bestiário de luxúrias, um hospício de ameaças, um canteiro de medos, um harém de ódios mimados. Meu nome era legião” (no livro Surpreendido pela Alegria, página 230).

Se nosso compromisso com esse sonho for realmente sincero e não apenas um critica vã ou desculpa tola, saberemos que a grande obra começa e termina, exclusivamente, em nós. A grande revolução da igreja não trará divisões ou novas reformas, mas um arrependimento profundo, uma grande paixão pelas pessoas, compromisso com a Palavra de Deus e um coração quebrantado e cheio de amor pelo nosso Senhor.

Então a mudança virá e um a um, os tijolos da estrutura rígida serão removidos e não existirão barreiras na casa de Deus. O Corpo de Cristo viverá sem divisões, os homens partilharão o amor verdadeiro e serão chamados santos, porque aprenderam, afinal, que são eles mesmos a habitação do Santíssimo.

Alguém por aí tem um colírio?

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