Daqueles dias


por Luiz Henrique Matos

Às vezes chego em casa cansado. Um dia duro de trabalho, trânsito na cidade, contas para pagar, preocupações que vêm à mente. E então, ao seu lado, não preciso dizer nada. Sei que ali eu descanso, esqueço e encontro a paz. Com você eu não preciso saber as respostas, não preciso ser herói, não preciso ser um adulto bem resolvido ou dessa gente que inventa qualquer assunto para o clima não ficar sem graça.

Lembro, em alguns desses momentos, de palavras que ouvi em outras horas: “Às vezes, entre dois amigos, o silêncio já diz muita coisa”. É verdade. Eu só preciso dizer que não suporto o silêncio sem a sua presença.

Tem momentos em que minha ansiedade me afoga, minha concentração passa longe e até parece que eu sou incapaz de terminar algo. A mente voa. Tenho dúvidas. Os sonhos ficam distorcidos, as certezas… bem, acho não tão certas assim. Cada passo em frente parece que pesa um pouco mais. E eu me encho das perguntas cujas respostas nunca soube. Mas, o que de mim você já não conhece?

Gosto das horas em que te digo: “Somos só nós dois”. Ali, restabeleço minha aliança de amor, honra e fidelidade. Sou leal a você (apesar de minhas inúmeras falhas). Nunca quis um relacionamento em que não pudéssemos ser totalmente francos um com o outro. E é muito bom ouvir suas verdades.

Sua presença me revela respostas. Seu toque, cura-me as dores e permite que eu deite em minha cama depois de um banho e minha oração, para repousar em tranqüilidade. Tenho sonhos. Tenho planos. Tenho muito a agradecer. E o que tenho, e o que sou, sei que brotaram antes como vontade de seu coração bom e fiel.

Esse amor tem me inspirado canções e poesias. Às vezes faz a mim, um homem grande, chorar como a criança amparada após o tombo. “Calma, foi só um susto” eu ouço o sussurro, abrigado na segurança de seus braços.

Algumas vezes, sozinho, eu me pergunto: por que? Um universo tão extenso, um mundo tão grande, uma criação tão bela e esplendorosa, os mares, as nações… por que isso tudo e tanto, para ser explorado, governado e devastado por corações ingratos? Como o meu.

Não temos segredos, não há mistérios. Existe sim essa sua sabedoria infinita que eu não compreendo, mas me acolhe. Assim, são inescrutáveis esses seus caminhos.

Alguns homens não acreditam nessa verdade. Outros crêem mas te vêem distante e avaliam a sua personalidade como temperamental e rígida, confundem justiça com frieza. Entenda, eu sinto se não me limito a tais leis e regras, mas confesso que gosto dessa intimidade (ainda que eu fuja tantas vezes) e prefiro conhece-lo pessoalmente. Afinal, não é você o próprio Deus? Não é o Senhor? Acaso não é o Rei, Eterno, Santo, digno de glória? Sim, é tudo isso e é único. Mas como tratá-lo com distância, enquanto dia-a-dia me ergue em seu colo como filho e me pede para chama-lo de Pai?

Meu Pai do céu. E quantas não foram as vezes em que eu quase me esqueci do seu amor? Tantas as horas em que me buscou pelas manhãs, perdido, dormindo ao relento, chafurdando na lama, embriagado da droga mundana. Você nunca desistiu de mim. E constrangido, abri meus olhos e os voltei em sua direção… E não vi sombras, e não vi mágoa. Eu vi sua mão estendida, seu sorriso terno, ouvi sua suave voz proclamando festa: “…este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado”.

Eu jamais poderia retribuir tanto amor.

E me fez muito mais, motivado por aquilo que é em essência: amor. Amor fiel, paciente, bondoso. Amor alegre. O amor eterno que esperou a hora, que tudo sofreu, tudo suportou. E resistiu. Se entregou. Perfurado, maltratado, cuspido, espancado. Os que o conduziram ao Reino lhe deram uma coroa, de espinhos. Vestiram uma capa, estando nu. Ergueram ao alto da montanha, crucificado.

E ali morreu no meu lugar. E adiante, depois, ressuscitou para o triunfo da eternidade.

Quando volto a olhar em sua direção, lembro-me daquele dia. O dia em que senti minhas culpas partirem e meu fardo ser removido. Dia em que meus pecados foram perdoados e cada uma de minhas feridas curadas. Dia em que minha mente repousa, minha fé se baseia e minha vida se entrega.

Apesar de mim, você é Deus. E é aquele o seu gesto que nos liga para sempre, na eternidade que viveremos juntos. Nessa cruz que observo, seu Filho morreu eu meu lugar, para que hoje eu pudesse chama-lo Pai, meu Pai.

Que eu nunca me esqueça.

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