Sessão nostalgia


por Luiz Henrique Matos

Tarde chuvosa, tempo cinzento, dia sonolento… um momento ideal para relembrar os dias da infância distante, das horas de sessão da tarde deitado no sofá, da nostalgia latente de uma meninice que a vida adulta já encobriu. Ai que vontade! Um chá quente com biscoito água e sal em casa… Mas não posso, é dia de compromisso, hora da responsabilidade. E assim sendo, como é, aproveito a circunstância para ser só um tiquinho mais nostálgico, aqui nesse tempo, numa conversa de compadres sobre fatos distantes do noticiário que reluz em minha tela e borra os meus dedões.

E sobre o passado, nele mesmo é que estive pensando e queria saber se você, por acaso assim, se “alembra” de um desastre natural que aconteceu já há muito tempo. Acho que há tanto que nem sei se ainda tem espaço em nossas remotas lembranças. A mídia eu sei que já esqueceu, mas com um tanto de paciência, posso ao menos lembrar o nome… tsunami. É isso aí, uma onda gigante que assolou alguns países no sul da Ásia. Você lembra disso? Fatos do passado, coisa de longa data. Quem nessa loucura de vida ainda tem tempo para falar em fatos já resolvidos? Mas só por dizer, coisa boba, foram duzentos e cinqüenta mil pessoas mortas naquela tragédia.

Tem também uma outra, um tempão depois, mas que já quase se perdeu. Um dos tais furacões Katrina. No norte dos Estados Unidos ele inundou uma cidade inteira e o povo fugiu para outro estado que depois também quase foi inundado, uma insanidade. Bem, mas e desse, você tem alguma recordação? Soube pelas notícias da época que foram mais de dez mil pessoas que morreram nas tempestades.

E ali juntinho, na mesma semana do furacão, se a memória não me escapa (desculpe, coisas da idade), aconteceu também aquele desastre no Iraque. Não, não estou falando daquela guerra antiiiiga que os norte-americanos travaram contra o ditador, o dito cujo chamado Saddam Hussein. Falo aqui do incidente sobre uma ponte no Rio Tigre em que morreram mais de mil pessoas, pisoteadas, asfixiadas ou afogadas depois de uma suspeita, veja bem, só uma suspeita de ataque suicida.

Pois é. E sabe que agora já tem um outro sendo esquecido, no fim das suas contas, nem rende mais audiência para os telejornais. Foi esse um terremoto, de novo na Ásia. Você lembra? Não? É compreensível, também pudera, já se passou uma semana e isso é tempo por demais. Com certa dificuldade, achei uma matéria e li que até hoje não terminaram de contar as vítimas, mas que os governos do Paquistão, Índia e Afeganistão contabilizam mais de 39 mil mortos, entre corpos encontrados e outros ainda soterrados. E depois de tanto tempo, os jornais já não relatam mais o ocorrido em suas páginas.

É, o tempo passa rápido demais. Para mim, para você, o volume de informações na mídia é tamanho e vindo de tantos meios diferentes que nem percebemos que as elas chegam, ocupam o topo das manchetes e vão diminuindo de tamanho e importância até que alguns dias se passam e ninguém mais se recorda.

Agora, penso aqui outra vez junto com esses meus botões (sorte eu estar de camisa), não é porque os jornais deixam de noticiar que o fato se resolveu. A imprensa e o pensamento imediatistas da nossa cultura ocidental são tão frenéticos que não só nos esquecemos de fatos recentes com tamanha facilidade, como deixamos de nos comover com as situações que acontecem debaixo de nosso próprio nariz.

Ainda hoje, os governos sul-asiáticos trabalham para reerguer as cidades atingidas pelo tsunami e a estimativa inicial da ONU previa ao menos dez anos para a recuperar as áreas devastadas. O furacão Katrina ainda deve consumir cinco anos de investimentos e obras em Nova Orleans. O Iraque, bem o Iraque, não bastasse o desastre sobre a ponte, o povo daquele país ainda sofre com a opressão norte-americana presente em seu país e com os insurgentes rebeldes que explodem a tudo e a si próprios pelas ruas das cidades. E afinal, sobre o terremoto no Paquistão, procuro pelas notícias e pouco ainda se fala a respeito da situação no oriente.

Mas o triste saldo que fica nessa conta não é o das estatísticas sociais, são sim, de fato, as pessoas desabrigadas, as famílias separadas, os enfermos, as crianças sem remédio ou comida. E não é bem assim no plural e no termo coletivo. Está ali um bom punhado de gente, com sentimento, dor, vida, esperança… assim como eu, tal como você, passando por necessidades primárias e a mercê de nossa comoção e, quem sabe, uma caridade.

Em horas dessas, uma condição me incomoda o espírito e não consigo deixar de sentir um tanto de culpa pela minha negligência e mais um outro bocado de dúvidas, que se resumem em uma única que agora me faço: e eu, o que posso fazer?

Ser como Jesus? Amar ao próximo como amo a mim? Orar e interceder? Estender a mão e ajudar? Me conscientizar e prevenir os danos que causo à criação divina? Sim, tudo isso e tanto mais. Mas ainda busco a verdade por detrás dos conceitos e ministrações. Tento desbravar a vida, procurando o exemplo deixado pelo único que foi capaz de trilhar sozinho esse caminho e vencer, sem as muitas indagações de que me cobro.

Me questiono na condição de quem se declara cristão, renascido em Jesus Cristo, preenchido e marcado por sua verdade, amor e misericórdia e desejoso em espelhar o seu caráter. Procuro nas Escrituras a resposta e não preciso ir muito longe, várias me saltam aos olhos e à mente, mas uma delas, só uma breve e simples passagem, me faz parar e entender sobre o caminho, sobre a atitude, sobre a postura que preciso viver:

“Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: ‘Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?’. ‘O que está escrito na Lei?’, respondeu Jesus. ‘Como você a lê?’. Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento’ e ‘Amarás a teu próximo como a ti mesmo’. Disse Jesus: ‘Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá’. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: ‘E quem é o meu próximo?’. Em resposta, disse Jesus: ‘Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Então colocou o homem sobre seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os deu ao hospedeiro. ‘Cuide dele, e, se alguma coisa gastares a mais, eu te indenizarei quando voltar’. Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?’” (Lucas 10:25-35).

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