Adeus às armas


por Luiz Henrique Matos

Nos próximos dias você e eu, cidadãos brasileiros, eleitores, seremos convocados a enfrentar uma grande fila em uma escola de nossa cidade para prestar o voto sobre a pergunta que os parlamentares decidiram julgar como responsabilidade nossa: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”.

Contrariando a vontade própria mas obedecendo ao impulso inevitável, senti-me no dever de expor o assunto sob uma ótica bíblica, visão essa que também busco, como resultado da frustrada tentativa de chegar em uma resposta sobre meu voto. Confesso que pensando de forma racional, me divido entre os argumentos das duas partes. Mas, ao menos agora, que fiquem os dados como base de ponderação e limitados aos comerciais televisivos recheados de celebridades. Não pretendo aqui citar as muitas estatísticas que tentam nos convencer, mas no que me cabe, gostaria de refletir sobre as Escrituras e o que nela se diz a respeito.

Um estudo breve é suficiente para saber que não há no Novo Testamento qualquer expressão ou citação que justifique o porte de armas ou uso de violência (seja como ataque ou defesa). Pelo contrário, aliás, muito pelo contrário, a exortação é outra. Apenas para citar alguns exemplos: João Batista, Estevão, Tiago, Paulo e, obviamente, Jesus, são alguns dos que se submeteram sem reagir às acusações e ataques injustos contra si, alguns deles pagando com a própria vida. Jesus dizia ainda que devemos perdoar e amar os nossos agressores.

Alguém pode dizer que isso refere-se a particularidades da vida religiosa e que de fato, não tem adequação com o que se discute hoje. Digo porém, que existe ainda um outro momento muito apropriado, que acontece na noite em que Jesus é preso. Ele orava no Monte das Oliveiras quando Judas chegou acompanhado do grupo armado que iria prendê-lo. Jesus não foi resistente e diante da investida opressora, entregou-se. Mas na hora, eis que Pedro (sempre ele) sacou uma espada e no ímpeto de defender seu Mestre decepou a orelha de Malco, um dos servos do sumo sacerdote que participava daquela investida judaica. Jesus repreendeu o gesto, ordenou a Pedro que guardasse a espada e curou a ferida do homem.

Pessoalmente, admito que o argumento de ter uma arma em casa como medida de “defesa”, me soa algo tão coerente quanto: “Olha, eu não bebo e não pretendo beber, mas deixo uma garrafa de uísque em casa para caso um dia eu precise”.

Espere aí, pensando bem, há sim uma outra passagem bíblica falando sobre armas. E é Paulo quem escreve aos efésios dizendo que sim, é necessário que tenhamos uma espada. Bem, ele fala em espada, mas sejamos mais modernos e vamos contextualizar o nome desse “instrumento” para… vejamos, uma metralhadora! Nesse aspecto e com a devida substituição, o versículo seria assim: “Usem o capacete da salvação e a metralhadora do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17).

Para todos nós, é muito confortável cobrar esse cristianismo exemplar e santo de nossos irmãos e líderes, mas não podemos ignorar o fato de que é de nós mesmos que deveríamos exigir uma conduta o quanto mais próxima da que nosso Senhor viveria. E mais do que pregar, estudar ou concordar, sei que preciso eu mesmo viver a verdade sendo um espelho dessa fé, agindo como Jesus agiria.

“As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas” (Paulo em 2 Coríntios 10:4).

Também é fácil (e muito justo) exigir que nossos governantes façam sua parte, inibindo a violência e sendo eficientes no combate ao crime. Mas também não somos nós, os cristãos, que dizemos ser herdeiros e parte de um Reino que prega a paz, o amor e a misericórdia como princípios incondicionais? Na vida prática, se quero ver luz, começo então acendendo a lâmpada. E assim igualmente creio que se desejo viver em uma sociedade de paz, preciso fazer a minha parte, declarando que prefiro os meus princípios de vida e de fé aos “remédios” sugeridos por uma indústria bélica.

Como disse, não se trata de razão, mas de fé. Não são os direitos que temos ou os que perderemos, mas uma postura coerente com o que acreditamos. Postura essa que, se me permite encerrar com a citação abaixo, foi pregada e vivida por um homem que nunca professou a Jesus Cristo como seu Deus, mas que buscou nele o exemplo para promover parte das maiores mudanças que a sociedade moderna experimentou. Por seu gesto e liderança, seu país, a Índia, tornou-se livre de uma nação opressora. E enquanto esteve vivo, combateu com medidas pacifistas e desarmadas a violência intolerante entre os povos, o racismo e a injustiça social. Esse homem morreu em 1948, assassinado com três tiros.

“Precisamos ser a mudança que queremos ver” (Mahatma Gandhi).

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