Amigos de Judas


por Luiz Henrique Matos

Há muitos dias ele vinha sofrendo. Tudo já não era como antes e doía saber que muito do que lhe ocorria era conseqüência de decisões erradas e imaturas. Mas em meio à confusão já não conseguia encontrar o caminho de volta.

Fazia meses que não nos víamos, a última vez foi um “e aí, como vai?” superficial em um ponto público da cidade grande. Mas a conversa boa e devagar, a comunhão, já não aconteciam há tempos.

Na verdade nunca fomos muito próximos, nem realmente amigos eu diria. Mas sem entender o motivo – acho que são as coisas loucas dessa fé – estranhamente, nesse sentimento cúmplice, eu sempre sinto quando algo errado lhe acontece.

E não foi diferente neste então, quando nos vimos recentemente. Na igreja cheia, as famílias reunidas, os abraços gratuitos de cumprimento, as músicas de celebração, o senta e levanta dos bancos, a ministração pastoral, o momento de reflexão. E a todo momento, no banco atrás de mim eu percebia outra vez que embaixo da fachada sorridente estampada em seu rosto, ele procurava por uma resposta.

Mas ninguém parecia perceber. Há tanto tempo, tanta gente, ninguém notou. Tudo foi devagar demais para ser assim de repente como um susto. Foi a sombra que aos poucos trouxe nuvem, que uma hora se fez noite. E o dia não chegava.

Ora, eu pensei, ele precisa saber que não está sozinho, deveria descobrir que outros tantos também sentem-se perdidos, sujos, indignos. No meu cristianismo, acreditei que ele carecia da mensagem salvadora da cruz, juntar-se uma vez mais ao aprisco e retornar para casa como o filho pródigo regressa para os braços do pai.

Não sei se lhe disse tudo isso, mas lembro que algo eu falei. Ao menos ali, tentei acompanha-lo naquela caminhada escura. E fizemos uma oração juntos. Uma prece dessas redimidas, arrependidas, que vasculham as brechas das trevas até o raiar da luz. E ali, novamente tive a alegria de vê-lo retornar à fonte e abrigar-se conforto da paz.

Quem sabe, eu penso agora – ligando isso tudo a uma reflexão de outros dias –, se Judas, lá nos seus dias, também tivesse ao alcance um ombro… Talvez, se um dos onze que ali estavam percebesse sua angústia, creio que ele poderia ter vivido. Sim, eu sei, as Escrituras desde há muito profetizaram que o Cristo seria traído, mas onde está o trecho dizendo que o traidor deveria morrer? Acaso lemos nalgum dos textos que ele não poderia arrepender-se de seu gesto e confessar seu pecado? Não foi assim afinal com Pedro e todos os outros que fugiram na ocasião prisão de Jesus?

Mas Judas não teve um irmão. Dentre todos os que estiveram ao seu lado diariamente naqueles três anos, não houve um que percebeu sua dor e o chamou, caminhou ao seu lado e o conduziu novamente à verdade. Faltaram amigos para aquele filho pródigo que, talvez por isso, jamais retornou ao lar.

Amigos. Esses que olham nos olhos, enxergam além do superficial para ver em que momento da trilha o passo do outro se perdeu. Esses mesmos que compreendem a dúvida e entregam não uma resposta pronta, mas o mapa do caminho, o amor fraterno e a disposição em caminhar juntos.

Sabemos que são de amigos que carecemos em nossas tribulações. E por isso, podemos também olhar ao lado nesse instante e estender a mão para o pródigo que se distanciou e que desejamos ter de volta em casa, sentado à mesa, repartindo o pão e o vinho da comunhão.

“’Vamos fazer uma festa e comemorar. Pois este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado’. E começaram a festejar.” (Lucas 15: 23b e 24).

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