Vestindo a camisa


Por Henrique Matos

Dia desses foi meu aniversário. Teve festa, família, bolo, amigos e tantas dessas coisas que só acontecem uma vez no ano e que, particularmente, aprecio muito. De minha esposa – a quem pedi que não me desse nada (ainda que sempre esperando receber algo) – ganhei um presentão que me alegrou demais: a camisa oficial do time para o qual eu torço.

Estávamos os dois na cozinha de casa quando tive a surpresa. “Uma prova do meu amor”, disse-me ela, que de fato, gosta tanto de futebol quanto eu gosto de brócolis (ou brócolos, como aprendi outro dia) e, sendo assim, posso imaginar o seu tormento, pobrezinha.

É certo que ela me imaginou um tanto mais magro quando fez a compra (talvez pelo antigo manequim da solteirice). Experimentei a camisa apertada e tive o desagrado de ver o seu tecido modelando minha circunférica silhueta. Mais triste então, foi notar no espelho o brasão do time ser distorcido pela minha barriga.

Mas sim, seu gesto prova uma boa dose de seu amor, capaz de superar essa minha tão típica, masculina e inexplicável mania. Pois é o futebol essa “caixinha de surpresas” (por favor entenda, eu precisava usar o jargão), até mesmo para um par de pernas quase nada habilidosas como as minhas (e o “quase” ainda é muito).

“Só não saia comigo vestindo ela, pode ser?”. Eu disse um “não” animado, eufórico com o presente novo, mas agora, passados alguns dias (e feita a devida troca por um modelo maior), percebo que seu pedido talvez não seja tão desafiador. Ao contrário, admito que tenho uma boa dose de vergonha em usar aquela camisa em público, achando que ostenta-la – além de um perigo iminente na violência da cidade grande – seria um gesto exposto por demais. Me olharão na rua com algum preconceito, deboche ou julgamento.

Mas, ora bolas, eu não posso ter vergonha daquilo em que acredito! Por que sou eu, mais um desses que só assume a escolha quando o time vence? Por que festejo apenas quando estou com outros torcedores como eu, nas horas em que eu canto hinos, dou brados, faço junto o corinho do “com mu-ito orguuulho, com mu-ito amooor”. Mas em público, bem, aí a minha história é outra, em meio às atenções é preciso ser discreto, passar incólume pelo olhar dos algozes.

Está certo, penso aqui, vencerei minha vergonha, tentarei criar coragem. Provarei que gosto mesmo desse símbolo a ponto de assumi-lo sem ter medo dos estranhos, da torcida alheia e do desdém dos “sem-clube” que julgam a nós, torcedores, como um bando de ignorantes manipulados.

E foi que, pensando nisso, lembrei de uma outra ocasião não relacionada com esses fatos, mas muito adequada à dita circunstância. Estando um dia os doze jogadores em um campo, disse a eles o capitão do time:

“Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderia dar em troca de sua alma? Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.” (Marcos 8: 36-38).

Esse “defensor” não teve vergonha de mim. Pelo contrário, passou ele mesmo a vergonha no meu lugar, sofreu a derrota, exposto à multidão, à torcida adversária que o condenou por erros que não eram seus. E fez isso por mim, triunfando vencedor, para que eu não precisasse, nunca mais, passar por tal julgamento.

Merece um hino, um brado, corinhos, fanatismo até. Merece que eu diga: em qualquer circunstância, sim, eu vestirei a camisa. Estampando em meu peito o orgulho e amor de ter um novo… coração.

2 comentários sobre “Vestindo a camisa

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