Coração peregrino


por Luiz Henrique Matos

Movido uma vez mais por suas emoções, o Coração saiu em busca dos Sentimentos que há muito lhe eram ausentes. Estava perdido e queria voltar para casa. Sentia falta das coisas que o faziam pleno, cheio de si, dono de tantas das decisões de seu dono. Fraco e sem rumo, o Coração partiu.

Longe de seu eixo, andou por muitas terras antes de se perder. Embrenhou-se pela Razão, enveredou em caminhos de Tristeza, Vazio, Sombras, Altivez e Sequidão. Sem sua força vital, tornou-se o Coração companheiro do Egoísta, da Solidão e aliou-se à Incredulidade. O Coração pródigo era seco sem os Sentimentos vitais.

Mas cansou-se da vida errante e naquele dia saiu em busca do que lhe preenchesse. Peregrino, resistente a sol e chuva, a alegria e dor, em vales e montes, em jornadas distantes. Alheio ao tempo circunstancial e às dificuldades, trilhou confiante seu destino, à procura do Norte, em busca do alvo que errara tantas vezes.

Andou pelo Vale da Dúvida, caminhou só durante as noites. Sentiu fome, sede, frio. Tropeçou em indecisões diante das estradas que se lhe exibiam, abriu trilha na mata já fechada de um caminho quase sem volta. Encarou de frente a morte durante a Escuridão, viu a luz que esforçava-se por raiar entre as nuvens e chegando afinal o sol, seguiu em confiantes passos.

E meses a seguir, venceu enfim o Coração. Chegou numa manhã de outono à sua morada, o Lar da Graça, encontrou o abrigo merecido dos que perseveram, colheu no quintal o bom fruto dos que se arrependeram e semearam justiça. Sorriu uma vez mais e para sempre. Encheu-se novamente dos Sentimentos que buscara, da Salvação que carecia e era agora pleno na presença de Honra, Respeito, Misericórdia, Fé, Bondade e tantos desses irmãos de quem há tanto tempo desgarrara.

Renovado, entrou finalmente o Coração em seus aposentos mais íntimos e encontrou à sua espera a Fidelidade, com quem desfrutou a vida e a quem prometeu e dedicou seu tesouro, o Amor. Estava novamente seguro o Coração, estava em Deus, de uma vez por todas abrigado nas Terras de Paz Eterna.

“Como são felizes os que habitam em tua casa; louvam-te sem cessar. Como são felizes os que em ti encontram a sua força, e os que são peregrinos de coração. Ao passarem pelo vale de lágrimas, fazem dele um lugar de fontes; as chuvas de outono também o enchem de bênçãos, prosseguem o caminho de força em força, até que cada um se apresente a Deus em Sião.” (Salmo 84:4-7).

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