Tempo de fazer amigos


Por Luiz Henrique Matos

Escrevo em meados de junho de 2006. Para os desavisados, estamos em ano e mês de Copa do Mundo, acontecendo agora na Alemanha. São trinta dias a cada quatro anos em que, confesso, a imensa maioria de meus interesses estão dirigidos ao futebol.

A Copa é a época em que exerço um certo domínio sobre o controle remoto da televisão de casa, o estoque de milhos para pipoca é renovado semanalmente e até as desacreditadas habilidades atléticas da Tunísia me soam encantadoras.

E nessa época, fãs de futebol tornam-se tanto ou mais religiosos do que os 99% de muçulmanos da Tunísia – povo que até onde me consta, não se preocupa tanto com sua seleção –, parando três vezes ao dia (horários dos jogos) e voltando-se para a Alemanha, a fim de reverenciar a bola, o gol, o futebol-arte e mesmo as bolhas nos pés do Ronaldinho.

E tanto tempo diante da televisão faz com que reparemos em peculiaridades que nada somam ao nosso acervo intelectual. Detalhes que vão desde os nomes dos patrocinadores nas placas à beira do campo até as letras e melodias dos hinos de cada um dos 32 países participantes. Dentre essas minúcias, uma me chamou atenção e até, vejam só, ajuda-me nessa mensagem. Li em todos os estádios, faixas com a expressão “Tempo de fazer amigos”, que vim a descobrir depois, foi a frase escolhida pelos organizadores para ser o tema do torneio.

Julguei interessante. E nos intervalos, sob influência nítida do clima futebolístico, pus-me a pensar que a dimensão dessa frase é maior do que pode parecer – bem como a filosofia do futebol e as analogias que lhe são possíveis. O fato que se defende é que apesar da competição, aquele é um ambiente para se “fazer amigos”. Mesmo com as diferenças raciais, culturais, lingüísticas ou geográficas, durante um mês aqueles atletas e torcedores esquecem o que os separa e concentram-se em um tema comum: a alegria do esporte.

E a realidade dessa ilustração acaba, de fato, acontecendo. Note a importância histórica de jogos como, por exemplo, Portugal x Angola, que até recentemente viviam na disputa de um regime de colonização, cuja liberdade custou-lhes violentas guerras e tempos de inimizade. Pois, vimos os jogos e a única disputa entre aqueles homens limitava-se às quatro linhas do campo, não de batalha mas de festa. O mesmo acontece em jogos/batalhas entre Alemanha x Polônia, França x Costa do Marfim e em um nível de maior tensão Croácia e Sérvia.

Um outro caso também por aí se conta, de que a delegação da Costa do Marfim, vivendo uma intensa guerra civil, conseguiu negociar um cessar fogo entre as partes, para que a celebração da classificação de sua seleção prosseguisse em paz. Sobre isso, veja abaixo o trecho de um artigo de Paul Laity, editor do London Review of Books para a revista National Geographic.

“Torcedores chegaram a dizer que só o futebol, não a política, poderia contribuir para o fim da guerra civil. Ao longo dos seis anos anteriores, os donos do poder na Costa do Marfim, originários do sul do país, haviam fomentado o ódio aos imigrantes e aos muçulmanos. No entanto, muitos dos melhores jogadores eram de famílias muçulmanas ou imigrantes e, com isso, a seleção de futebol virou um irresistível símbolo de união nacional. Após o desfile da vitória em Abidjan, o diretor da Federação de Futebol da Costa do Marfim lançou um apelo ao presidente Laurent Gbagbo: “Em nome dos jogadores, venho dizer ao senhor que o maior desejo deles é que nosso país acabe com suas divisões. Eles gostariam que essa vitória fosse um estímulo para a pacificação. Que este êxito sirva para nos unir de novo”. E os festejos nas ruas prosseguiram ainda por mais um dia.”

Por trinta dias, aquelas pessoas voltariam a falar a mesma língua, seriam a mesma raça, unida em sua torcida multicolorida nos estádios e nas ruas, na expectativa pura e simples de jogar.

“As diferenças que nos separam limitam-se a um ou dois pontos. Agora, se olharmos bem, nós concordamos em todos os outros aspectos. Então, se somos diferentes em tão pouco e iguais em tantas outras coisas, porque não deixamos de lado essas diferenças e não vivemos em comunhão?”.

Essa é uma frase que admiro e da qual sempre me lembro em certas ocasiões. E como são devidos os créditos, registro que foram ditas por Rui Luís Rodrigues. Rui é um especialista, mas não necessariamente da bola, e sim da Igreja, como pastor, pregador e estudioso.

E é sobre a igreja que essa frase nos fala. A igreja de Jesus Cristo com todas e muitas das suas diferenças, separações e denominações. A igreja que já não é uma rocha mas quase um plural de pedregulhos gastos, tantos são os estilos e características que teimam em defender e rotineiramente se multiplicar.

Costumo pensar: em troca de quê exatamente alimentamos essas rusgas? O que ganhamos com essas divergências tolas? Mas confesso que as questões apenas ecoam, não acham respostas. Acredito que se vivesse o sábio rei Salomão em nossos dias nós o veríamos exclamar seu jargão: “Ah, isso é vaidade! É correr atrás do vento”.

Penso também – e sou de pensar à toa – naquela oração de Jesus. Aquela, a única que ainda hoje não foi respondida e que me fazem desejar saber a razão: “A natureza divina que tu me deste eu reparti com eles a fim de que possam ser um, assim como tu e eu somos um. Eu estou unido com eles, e tu estás unido comigo, para que eles sejam completamente unidos, a fim de que o mundo saiba que me enviaste e que amas os meus seguidores como também me amas.” (João 17: 22-23 NTLH).

É evidente, portanto, que se como igreja desejamos levar o amor para esse mundo, precisamos ter uma única direção para levar as pessoas a Ele! Não, eu não falo de um só modelo ou estilo, nós precisamos respeitar as diferenças. Eu falo sim de uma única forma e visão, um reconhecimento de semelhança e proximidade familiar porque, afinal, nos dizemos todos discípulos de Jesus Cristo.

Se o futebol – como no caso da Costa do Marfim – tem o poder de amenizar guerras, porque não a igreja seria capaz de acabar com diferenças tão pequenas que a divide? Tudo não parece tão simples?

Mas eu reconheço, sou um sonhador… desses que acham possíveis coisas estranhas. E nesses “achismos”, já começo a me entusiasmar em pensar que estamos mesmo começando um novo tempo. Tempo de despertar para a realidade de que podemos ser amigos. Tempo em que poderemos ver a família de Cristo reunida numa mesa posta, sentada a partilhar do mesmo pão, ainda que seus costumes e hábitos sejam diferentes.

Sim, eu sinto e sonho com esses ares. Um novo tempo em que seremos amigos, ou melhor, viveremos essa verdade de que somos, de fato, todos irmãos. Olharemos para as diferenças que nos separam e veremos que elas são por demais pequenas, indignas dessa rivalidade que temos alimentado.

Mas mais do que boa vontade, para se fazer amigos é preciso compreensão. Para se viver como irmãos é condicional que todos entendam a mesma língua, ainda que não se fale nada, porque entre irmãos é assim, não é preciso falar muito, basta que se goste, respeite as opiniões e queira fazer bem ao outro. E preciso dizer: eu acredito nesse tempo, eu oro por ele com fé e esperança de vê-lo edificado.

E ainda que eu esteja errado e esse sonho não tenha começado a se construir, acabo achando que podemos ao menos concordar, aqui entre nós, você e eu, e fazer o esforço para que um novo tempo comece. Um tempo em que a Igreja poderá tirar os olhos de sua religiosidade e os dirija, em amor, para as pessoas. Um tempo de trazer novos irmãos e por que não, espelhados no tema esportivo, fazer bons amigos.

Antes que precisemos clamar ao futebol para salvar também a igreja.

“A religião que Deus nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e manter-se incontaminado pelo mundo.” (Tiago 1:27 NVI).

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