À beira da cratera


por Luiz Henrique Matos

Sexta-feira, 12 de janeiro de 2007. Uma história real.

– Corre! Corre! A gente precisa descer agora!
– Ahn?

Enquanto a gritaria e o pânico reinavam, meu gene mineiro prevaleceu e o sossego costumeiro me fez tirar metodicamente os fones de ouvido, ajeitar os fios sobre a mesa, fechar as telas do computador, afastar a cadeira, levantar devagar, pegar minhas coisas na gaveta e pensar se era realmente necessário tanta urgência e gritaria. “Isso é exagero, coisa de mulher…”, pensei na hora. Mas ainda assim resolvi seguir o fluxo e descer pelas escadas do prédio. Dezessete andares, rapidinho! E lá pelo décimo as minhas panturrilhas já doíam.

No caminho, degrau por degrau, eu tentava entender a razão do alvoroço. Em cada lance de escadas uma nova multidão surgia pelas portas e se juntava ao fluxo gravitacional. Para baixo e avante! Os mais heróicos ajudavam os mancos. Os pacientes estimulavam os retardatários. Os apavorados passavam direto pelas frestas, “não pára, não pára, sai da frente!”. E eu pensando por que raios o alarme de emergência não tocava, “de certo é trote”, foi o que me veio.

Alguém disse que a rua estava cedendo e prestes a desmoronar, que havia um buraco e alguns dos carros no estacionamento já haviam desabado – pensei no meu, lembrei que tenho seguro. Outros falavam em explosão. Era algo nas obras do metrô. Quase todos achavam que o prédio cairia dali há pouco. Tinha gente que não achava nada, só descia. Eu achei que era piada.

Já no térreo, me deu uma tontura, eram muitos andares, aquela descida circular. No fim da linha dei de cara com dois sujeitos recostados na mureta e fumando em paz, nada do pânico de minutos atrás. “Ai minha panturrilha!”. Mas afinal, se a ordem era evacuar, que eu fosse então para fora do prédio, onde vi todo um mundo reunido, quase unânimes a ostentar a mesmíssima expressão.

Procurei um rosto conhecido. Bebi um golezinho d’água – antes de sair, lembrei também de passar a mão na garrafinha descartável – e fui para a rua. Alguém contou uma versão mais convincente dos fatos: aconteceu um desabamento nas obras do metrô, que fica ali na rua ao lado e um buraco gigante se formou, engolindo carros, caminhões, trator e casas. Era bom tomar cuidado porque ainda tinha terra caindo e ninguém sabia ao certo o que poderia acontecer.

Um colega tinha estacionado o carro daquele lado, seguimos na direção do acidente. A poucos metros do local tivemos que voltar porque a polícia começou a isolar a área. Aquelas fitas amarelas nos forçavam a recuar e lá no fundo, mais atrás, só deu tempo de ver um caminhão tombado com as rodas pro ar e, mais na frente, a beirada da cratera, que ali então, eu nem sabia de que tamanho era. O carro do colega, sabe-se lá que fim levara. Minhas panturrilhas eu já quase nem sentia.

Encontrei um outro conhecido, ofegante, todo suado, que confirmou a versão anterior. “Vi tudo da janela”, ele disse, “o asfalto rasgando como papel e engolindo tudo o que tinha na rua. Foi caminhão, carro, muro, tudo”. Olhei para a cara dele e curioso, perguntei “e tinha gente também?”. Respirando cansado ele disse que “tinha sim, no caminhão, o cara que dirigia. Além do povo que trabalhava lá no fundo”.

Então a aventura perdeu a graça.

Ouvi uns dois operários contando da correria dos colegas para escapar da nuvem de poeira atrás deles. Vi uma moça voltando do local, chorando em desespero porque viu o carro dentro do buraco. Escutei um funcionário do metrô gritando para eu sair de baixo da rede elétrica porque corria o risco de os fios caírem. Me dei conta de que aquilo deveria ser maior e mais grave do que eu imaginava e que, afinal de contas, não era nada bacana ir pra casa mais cedo na sexta-feira se fosse por causa disso.

O que são as panturrilhas?

Voltei calado para a frente do prédio e ouvi um sujeito dizer ao megafone que “aparentemente” não corríamos risco. De qualquer forma, ouvi ele falar também em “bom fim de semana a todos” e presumi que, aparentemente, o melhor negócio seria ir para casa.

Dei um tempo. Acalmei os ânimos, comprei um sorvete e fui até meu carro. Antes de sair pela rua deserta interditada, subi até a cobertura do estacionamento para tentar enxergar o cenário lá de cima. Primeiro eu vi barro, vi um guindaste torto, vi uma bagunça nas ruas, vi um monte de helicópteros que zumbiam sobre minha cabeça e vi então a cratera imensa. Caramba, o que era aquilo!?

Caminhõezinhos de brinquedo num buraco feito no barro? Tudo parecia de mentira. Mas não era, as sirenes tornavam a realidade mais densa. Denso também era o ar, cheio de pó, cheio de interrogações, cheio de folhas girando numa ventania que anunciava chuva, mesmo sob sol ardente. Eu nunca havia visto algo como aquilo. Pisquei os olhos, consciente de que aquilo marcaria a história da cidade em que nasci. Deveria marcar, “mas esse povo esquece rápido”, é coisa que só penso agora.

Olhei para o lado e dentre a meia dúzia de embasbacados que observei mirando o acidente, puxei assunto com um sujeito, expressando uma esperança de “tomara Deus que ninguém tenha morrido”. Sem nem me olhar na cara ele concordou, “tomara”. Nem lembro mais o que falamos depois disso.

Peguei o carro, liguei o rádio, tocava uma baladinha, sintonizei a freqüência de notícias e uma chamada falava do acidente. A repórter, a caminho, tentava chegar no local. Eu variava, “de que adianta? Agora já foi, agora eu já sei… é feio demais”.

A cidade calma, mês de férias, sol de verão, transito livre como nunca, como é que pode? Em casa, acessei a internet e vi as primeiras imagens, sob créditos de amigos meus aqui na empresa. Liguei a TV, e já tinham imagens aéreas, ao vivo, lá no canal 7. ”Ahn, os helicópteros…”, captei.

E ali na tela eu vi tudo de novo, eu quase que me vi. Mas, ali já parecia mentira. Não dá para acreditar muito em televisão. Aquela é a tela em que eu vejo o 007, assisto ao Chaves, onde passo, zapeando sem querer querendo, pelo Ronie Von e seus genéricos da Ultrafarma. Na tela tudo parece artificial, uma ficção em que daqui a pouco o mocinho aparece e salva todo mundo. Nessas horas, cadê o Duro de Matar?

Na minha mente sim, meu Deus, aquilo me batia feito estaca. No mesmo ritmo tocava a toda hora o telefone celular, eram os amigos preocupados:

– Caiu no buraco?

Não, não caí. Mas acho que, desde então, caí um pouco mais na realidade. Uma que nem imaginei que existia. De que, com panturrilhas firmes ou não, um passo em falso pode definir muita coisa sobre onde estaremos daqui a pouco. Que vida fugaz, que coisa!, que escolhas ainda posso fazer para fazer o planeta e as pessoas e os relacionamentos e a vida serem um tanto melhores?

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