A rendição do homem (Dostoievski)


Sua alma, em êxtase incontido, almejava a liberdade e os espaço ilimitado. A arcada do céu, cravejada de estrelas de brilho suave, estendia-se ampla e vasta sobre ele. Do zênite do horizonte, a Via-Láctea estendia os braços indefinidos através do céu. A noite fresca, parada, silenciosa envolvia a terra. As torres brancas e as cúpulas douradas da catedral luziam contra o céu de safira. As esplêndidas flores outonais nos canteiros junto à casa dormiam esperando o amanhecer. O silêncio da terra parecia misturar-se com o silêncio dos céus. O mistério da terra estabeleceu um contato co o mistério das estrelas. Aliocha parou, contemplou e de repente atirou-se ao chão sobre a terra. Ele não sabia por que a abraçava. Não teria sabido explicar para si mesmo por que sentia aquela vontade irresistível de beijá-la toda, mas a beijava chorando, soluçando e encharcando-a de lágrimas e jurou enlouquecido que a amaria, amaria para todo o sempre. “Irriga a terra com as lágrimas de tua alegria e ama essas lágrimas”, a frase ecoava em sua alma. Por que motivo chorava? Ah, chorava em êxtase por causa daquelas estrelas que estavam brilhando para ele das profundezas do espaço, e ele não se envergonhava daquele êxtase. Era como se os fios daqueles inumeráveis mundos de Deus de repente se juntassem em sua alma, e ela tremia toda ao entrar em contato com outros mundos.

Fiodor Dostoievski, em “Os irmãos Karamazov”

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