Pessoas mudam, o mundo muda (Manifesto)


por Luiz Henrique Matos

‘Evangelho’, do grego euaggélion, ‘boa notícia’ (Houaiss).

Um ônibus lotado, hora do rush. Gente impaciente, apertada, sonolenta, cansada da rotina. Uma voz se destaca entre os grunhidos dos passageiros. É um evangélico pregando sobre sua crença, falando do fim do mundo, do inferno, de Jesus, das “bênças”, e de mais um monte de coisas que não dá para entender direito.

E a mesma cena se repete nas praças, nos panfletos que distribuem nas ruas, no jovem que bate na porta de casa, no rádio, no horário nobre e por toda a madrugada na TV. Por todo lado tem alguém querendo falar sobre Deus e mudar a maneira como vemos as coisas, para que as vejamos do jeito que ele vê – mesmo que o próprio pregador tantas vezes nem saiba bem que ponto de vista é esse que defende.

São as tais das “estratégias de evangelização”. Eu chamaria de “as cruzadas do século XXI”. As igrejas incentivam seus fiéis a anunciarem seu credo às massas, fazem campanhas afirmando que seguem o mandamento divino, que querem “alcançar as nações” para o Senhor Jesus. Será que querem mesmo?

Aqui, eu confesso: acho difícil entender o objetivo disso tudo. Querem um mundo convertido ao cristianismo, mas com que propósito? Tenho a impressão de que o centro está invertido.

Bom, preciso dizer outra coisa: eu também sonho com um mundo transformado pelo cristianismo. Mas, por favor, me entenda e tenha paciência, não um mundo cheio da religião cristã. Isso seria voltar ao erro da inquisição, dos séculos cegos de poder da igreja, da omissão frente às tantas barbáries que se sucederam.

Se for pra ser assim, tô fora, também não quero esse mundo “evangélico” que ao invés de esperança, bota é medo na gente. Se for pra ser assim, estou com Karl Marx e trombeteio que a religião é “ópio” e não salvação.

Um mundo cristão, o do meu sonho, não é o de um povo devoto às tradições da instituição religiosa, homens de gravata, mulheres subjugadas pelos maridos, com hábitos ocidentais e cultura enlatada.

Um mundo rendido a Cristo precisa ser um mundo semelhante ao próprio Jesus. O mundo cristão será lindo. Será povoado de pessoas de caráter irrepreensível, de gente pacífica, bondosa e justa. Será de gente mansa, inteligente, alegre e generosa. De pessoas preocupadas umas com as outras tanto quanto consigo mesmas.

Um mundo convertido a Jesus Cristão não é o que tanto temem os ateus e seguidores de outras crenças. Ao contrário, esse é o mesmo com que sonham todos os justos, é o mundo com que sonha toda a gente que sonha – porque, convenhamos, gente ruim não deve sonhar com nada, tem é pesadelo dos brabos.

O mundo de Jesus é o de gente que vive como ele viveu. Não a vida do personagem inventado pela tradição romana, mas a do Deus que abriu mão de sua condição divina para nascer bebê, crescer como criança e viver como um homem, entre os homens, e a eles mostrar que é possível ser justo em meio à injustiça, ser puro num ambiente corrupto, ser luz num ambiente de trevas. É possível não se contaminar mesmo em meio à sujeira.

Porque Jesus não viveu como um monge. Não, ele não andava em marcha lenta, com olhar distante, fala devagar, intocável, sendo protegido por guarda-costas-discípulos e flutuando a um palmo do chão. Não, ele não foi assim e não há nada em sua biografia que aponte isso. O que sabemos, do pouco que se pode, é que Jesus andava em meio à multidão. E gostava. Espremido em meio ao anseio dos que o buscavam, feliz em estar junto de seu povo, ele tinha “cheiro de gente”. Era homem comum e simples, eras desses caras, tão “gente boa”, que dava vontade de ficar perto o tempo todo. Sentava no chão, sorria, brincava com crianças. Comia tanto o peixe pescado ali na hora e assado numa fogueira, como o banquete na casa do próspero coletor de impostos.

Jesus era um homem sem preconceitos, que conversava e entrava na casa de todos que o procurassem. Ele tinha amigos a quem era fiel. Chorava com sua dor, sorria por suas conquistas, andava ao seu lado. Ele tinha família, tinha a mãe que cuidou de proteger mesmo em seus instantes finais de vida, os irmãos que ajudaram a perpetuar sua história depois que morreu e ressuscitou, o pai que o sustentou e lhe ensinou a profissão de sua vida, na rude condição que tinham em Nazaré.

Jesus tocou, deu atenção, questionou, aprendeu e ensinou. Viveu em paz. E morreu porque o amor é a sua própria condição. Mas viveu, porque nem mesmo a morte pode vencer o amor. A morte não pode vencer o autor da vida (e da própria morte). E sua conquista, ele não guardou para si, mas, como sempre, repartiu. E o que ele deixou não foi dor, foi saudade.

Amor. Um mundo cristão deve ser um mundo de amor. De seres humanos tratando uns aos outros como iguais, com famílias unidas e buscando sua felicidade de mãos dadas, de relacionamentos restaurados, doentes curados, pessoas vivendo com dignidade, com a justiça e a moral prevalecendo em nossa consciência e refletindo em nossas atitudes.

É utopia? Talvez. É, acho que é sim. O mundo perfeito e puro, de fato, eu creio que só veremos lá no “céu”. Mas, se ao menos tivéssemos consciência de que esse é o nosso papel… Se ao menos aqueles que se dizem cristãos tomassem como verdade a missão que tem a cumprir e buscassem viver como seu mestre, então as coisas poderiam mudar. Quando pessoas mudam, seu mundo muda.

A igreja deixaria de olhar para o umbigo em sua barriga obesa e passaria a enxergar a barriga inchada, desnutrida e miserável dos que tem fome, de comida, de amor e de justiça.

Jesus falou que as coisas mudam de dentro para fora. É a vida dele em nós que gera essa consciência. E é só assim mesmo que pode funcionar. Eu mudo, minha família muda, amigos, a comunidade, a região, o país, o planeta… Parece até venda de Herbalife, Avon e Tuppeware e, pensando bem, se alguns caras chegaram tão longe vendendo pílulas para emagrecer, batons e potes de plástico, porque as pessoas não “comprariam”, afinal, a idéia daquilo que tanto anseiam?

É impossível de se fazer sozinho – Jesus mesmo não fez –, mas se os que se dizem imitadores de Cristo forem realmente diferentes, então uma grande rede ser formará e o amor será nossa epidemia, nossa “pílula mágica”, nosso tuppeware. Então a luz será acesa, dissipando essa escuridão que cobre nossa sociedade.

Evangelização, a Grande Comissão, o Chamado de Vida… gostamos tanto de usar esses termos para designar o papel da igreja. Mas no fundo, isso se resume, de verdade, em poucas palavras do que Jesus falou: “sejam como eu”, “amem como eu amo” e “façam isso o tempo todo, no mundo todo”.

Podemos ter um mundo diferente e isso depende de nós. Isso, isso sim, é uma “boa notícia”.

“Um bom exemplo é o melhor sermão” (Benjamin Franklin).

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