Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)


por Luiz Henrique Matos

Um dos meus passeios preferidos é freqüentar livrarias. A Manú, minha mulher, é quem sofre com esse hábito. Não importa onde estejamos, andando pela rua, passeando num shopping ou viajando, se eu vejo uma livraria, invariavelmente paro e gasto um tempo folheando, lendo as orelhas e levando algum exemplar na bagagem (se vou ler ou não, aí já é outro papo).

Mas, não bastasse, o hábito traz consigo um defeito: decido se vou comprar ou não um livro olhando para a capa. No fim das contas, contrario o velho ditado e a capa é o critério de desempate entre levar um ou outro.

Isso é terrível. Penso que essa é a razão de ainda não ter lido as “Confissões” de Santo Agostinho ou “Sobre a brevidade da vida” de Sêneca, que impressos naquelas capas duras, escuras e mal diagramados pela editora, ficam relegados à eterna possível próxima leitura na minha prateleira. Um pecado.

Mas o pior não pára por aí (bem, esse é um texto bastante previsível, imagino. Eu não gastaria o seu tempo falando sobre capas de livros). A coisa feia mesmo é que eu também classifico as pessoas pelos rótulos que estampam. E acho que sei muito sobre elas e sobre sua “qualidade”, apenas pelo julgamento pessoal.

Nosso mundo, cada vez mais, se fundamenta na divulgação e no consumo de informações superficiais. Já não lemos as notícias, apenas as manchetes e os resumos dos jornais. E somamos a isso a conversa na hora do café, a opinião do cobrador de ônibus e a sabedoria do vizinho que conhece a vida alheia como ninguém. Tudo isso misturado de qualquer jeito e, pronto, opinião formada. Somos influenciáveis. Nossas verdades são muito relativas. E, em grande parte, nossas crenças são baseadas no senso comum do que a maioria concorda como sendo certo ou errado.

Mas, bem, esse defeito tem um nome feio à altura: preconceito. Muito menos grave com os livros do que com pessoas. E o perigo maior do preconceito (ou talvez a sua causa primária) é a generalização. É, no fim das contas, a forma como esse julgamento molda minhas escolhas, opções de vida e a forma como trato meu próximo. Tomo como comparação o passado, os gestos semelhantes de outros que também erraram e, com base nisso, me acho no direito de julgar e condenar alguém. Isso me dá um medo danado de mim mesmo.

E para ficar só no campo das opções religiosas, tomo como base o noticiário da última semana. Eu assisto ao Jornal Nacional e, só por ele, já me sinto no direito de apontar o dedo para a barriga do vizinho que ficou à mostra. Ah, não, esse vizinho não é o fofoqueiro de dois parágrafos acima, esse é o outro, o evangélico com quem tomo o elevador pela manhã, cuja aparência e excesso de simpatia deixam bem claros, para mim, o coitado que é. Bem, não tão coitado assim, penso em seguida, até porque é voluntária a sua escolha em freqüentar um lugar que lhe toma duas noites da semana com seus cultos e lhe garfa 10% do seu salário – dinheiro esse que certamente vai para o bolso do pastor e vira, dali um tempo, uma gravata de seda, um carro zero quilômetro ou sei lá, um jatinho (tem tantos pastores querendo comprar jatinhos ultimamente). Pastor esse, que deve ser um desses caras sem formação acadêmica que, não sabendo mais o que fazer da vida e com boa lábia, se viu entre um emprego vendendo filtros Europa ou a chance de “vencer na vida” tirando dinheiro de gente como o meu vizinho.

E então, depois do meu raciocínio genial, eu penso por não mais do que um minuto: “é, parece fazer sentido… provavelmente é isso mesmo… puxa, é claro que é isso!” E amanhã, quando encontrar o vizinho fofoqueiro no corredor (esse também devidamente rotulado), vou ter assunto para falar do caso dos pastores que roubam dinheiro por aí e citar o exemplo do vizinho evangélico, um coitado, que deve estar alimentando esse tipo de gente corrupta.

Opa, mas peraí, eu sou evangélico!

E, perdido num instante de consciência – porque, afinal, tenho para mim que não sou um “coitado” manipulado –, fico achando que tal como odiaria ser visto da forma com que julgo minha companhia de elevador, talvez não faça sentido eu ficar olhando para as pessoas a partir das suas aparências.

Volto o pensamento para a mensagem essencial do livro que digo ser minha base de vida (e do vizinho também) e lembro-me de algo tão simples como “ame seu próximo como a si mesmo e a Deus acima de todas as coisas” ser o resumo de tudo o que recheia aquele exemplar de capa escura, letras miúdas, mais de mil páginas e nenhuma, nenhuma figurinha!

E eu bato na testa tentando firmar uma verdade para mim mesmo: “amor, Henrique, amor! O seu Deus é amor”. E faço uma regrinha para pregar na porta da geladeira, repetir diariamente e nunca mais cair no mesmo erro:

Nem todo pastor evangélico é desonesto.
Nem todo padre é pedófilo.
Nem todo pai-de-santo é safado.
Nem todo rabino é avarento.
Nem todo muçulmano é terrorista.
Nem todo ateu é insensível.
Nem toda pessoa que tem uma opção religiosa é intelectualmente inferior.

Aproveito ainda esse instante para anotar que eu preciso lembrar que somos todos iguais, que todas as pessoas foram criadas por Deus e moldadas à sua imagem e semelhança. E não, também não posso esquecer que Deus não é religioso, não é católico, evangélico, espírita ou hindu (mas não se animem todos porque ateu, seguramente, ele não é).

E, como iguais, meus vizinhos e eu temos os mesmos direitos (de sermos respeitados por nossas escolhas) e deveres (de respeitar o direito alheio). Talvez, se não cruzássemos essa linha, viveríamos em harmonia e até, quem sabe, a relação entre nós iria além do superficial “bom dia” trocado no elevador e descobriríamos, no fim das contas, que alugamos o mesmo tipo de filme na locadora, que temos a mesma profissão, que nossas crianças brincam juntas no parquinho, que torcemos pelo mesmo time e, porque não, lemos os mesmos livros.

Porque, afinal, para livros e pessoas, independentemente da capa que os envolve, o que tem valor é o seu interior.

“Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” (Mário Quintana – poeta cujos livros não li porque as capas não tinham tanto apelo. Até agora).

3 comentários sobre “Julgando um livro pela capa (e pessoas por sua opção religiosa)

  1. No homem há grande destreza para julgar seu semelhante pelo que os olhos alcançam. É menos trabalhoso que conhecer o íntimo. Parafraseando Exupèry, o essencial é sempre invisível aos olhos – mas esse essencial exige tempo e paciência, nos sendo mais fácil a leviandade.
    Amplexo.

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