Sobre minimalismo, Roberto Carlos e a importância da higiene bucal


por Luiz Henrique Matos

Estava escovando os dentes quando um pensamento antigo voltou: se um dia eu tivesse que viver com o mínimo de coisas possível, uma boa escova de dentes certamente seria fundamental na bagagem. O creme nem tanto, até que dá pra me virar sem, acho. Então olhei para a pia do banheiro e comecei uma faxina mental. Do que realmente preciso? Como eu poderia sobreviver apenas com o estritamente necessário?

Esse tipo de coisa me perturba às vezes. A Manú diz que eu tenho TOC, aquela doença do Roberto Carlos (eu prefiro dizer que é do Jack Nicholson, por causa daquele filme com a Helen Hunt, fica melhor) e talvez eu até concorde, só de brincadeira, mas é um fato que, vez ou outra, eu me pegue organizando coisas, jogando tranqueiras no lixo e doando todo tipo de objeto que julgo desnecessário por hora. Em parte das vezes é altruísmo mesmo, mas em outros casos é pura mania.

Ainda escovava os dentes quando a coisa degringolou e acabei estendendo a pergunta para as outras coisas da vida. Pensando na casa toda, se eu precisasse abandonar nosso agradável apartamento numa emergência, levaria comigo o computador, meus livros (não todos, mas o cuidado com a estante de livros é uma compulsão que merece capítulo à parte), o carregador do celular e uma muda de roupas. A escova, pensando bem, eu não levaria, deixaria para comprar uma melhor no caminho.

Faço isso, vez ou outra. Fico tentando aplicar essa regra para tudo e imaginando como ia ser se desse mesmo para as coisas funcionarem assim. Se não fosse casado e morasse sozinho: colchão, TV, computador, microondas e geladeira. Vestuário: camiseta, calça jeans e tênis, sem meias. Pra sair de casa: carteira, celular e chave do carro (atualmente, ando relutando também com o relógio, que abandonei há um tempo, e com um pen drive que insiste em ser necessário em certas horas). O shopping center ideal: livraria, loja de esportes, loja de eletrônicos e um café. Meu escritório: mesa, cadeira, uma caneta, computador e telefone. E assim vai, eu aspiro uma vida minimalista. Minimalista e impecavelmente organizada por ordem alfabética, cores e/ou gênero (ou as todas as anteriores).

– Amor, o que você tá fazendo?
– Separando umas roupas pra dar.
– Ah é? Preciso fazer isso também, mas depois eu vejo.
– É uma boa, né?
– É… Mas, nossa, tudo isso? O que tem nessas sacolas?
– Só umas coisas que a gente não usa mais.
– A gente?
– …
– Henrique, o que é aquela blusinha… Henrique… você vai dar as MINHAS roupas também!?

Eu aspiro uma vida minimalista e impecavelmente organizada por ordem alfabética, cores e/ou gênero para os outros também.

Talvez eu precise de ajuda.

* * *

O pior de tudo pra mim é que, por mais que eu tente, a mente nunca funciona assim. Eu bem que me esforço mas não consigo reduzir os papéis, compromissos e a lista de pendências que carrego no bolso. A cada ano que passa, as coisas vão acumulando e complicando gradativamente.

Do que eu preciso, de fato, minimamente, para viver? Faço a pergunta e acho que isso traduz um pouco o que, no fim das contas, realmente importa. A resposta que procuro é outra, nada material, e eu já tenho isso, sei que tenho. Deveria investir meu tempo dando atenção ao que vale de verdade, desfrutando do essencial, ao invés de ficar olhando para o que é descartável, criando listas e decidindo se devo arrumar meu dinheiro na carteira com a cara da Princesa Isabel virada para frente ou para trás.

Família, amigos, Deus. Não dá para ser minimalista com pessoas. E nessa hora, devo dizer que a mania toda não se aplica aqui, não tento cortar vínculos para simplificar as coisas e tão pouco classifico meus amigos em categorias, listas e perfis. Acumular bons relacionamentos é um caos agradável e reconfortante.

A mente funciona a mil, as coisas ficam cada vez mais aceleradas, o tempo parece escoar pelo ralo – e pensar que tenho as mesmíssimas 24 horas que meu avô usava para viver, apesar de os dias parecerem ter medidas tão diferentes. E quando a gente pára pra tentar entender que coisas, duas ou três, são totalmente necessárias para a vida toda funcionar, faz sentido procurar por algo, ou alguém, ou Alguém, que nos supra. Não existe o “cada um por si”, existe o Ele por nós, com um par de braços estendidos para nos apascentar.

Quando os olhos finalmente enxergam – e se fixam – naquela imagem nítida, quando o passo toma rumo no caminho certo e algumas peças se encaixam (ou não, agora pouco importa), então, o equilíbrio todo, a questão da dúvida existencial e da angústia, se transformam em quietude, num sorriso franco e uma paz confortável.

Eu cuspo a espuma do creme dental que promete deixar meus dentes brancos agora (isso, agora!, está escrito na embalagem), volto para o quarto, a janela está aberta para refrescar um pouco e minhas meninas dormem tranqüilas. Resolvo abrir o computador para escrever sobre a importância da higiene bucal e decido que hoje, só hoje, vou largar a toalha molhada ali em cima da cômoda e descansar em paz.

Tenho o que preciso.

2 comentários sobre “Sobre minimalismo, Roberto Carlos e a importância da higiene bucal

Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s