Aquela hora do dia


“O homem feliz é que faz coisas inúteis; o homem doente não dispõe de força suficiente para ficar sem fazer nada.”
– G. K. Chesterton

Tem aquela hora do dia, aos finais de semana, de que gosto especialmente. Em geral, são as tardes de sábado ou manhãs de domingo, em que estico no sofá com um livro nas mãos e, ignorando compromissos e tarefas, descanso um pouco. Era assim que eu estava outro dia quando ela chegou lá de fora. Ela nunca pede licença, nem pra ocupar um lugar, nem para atravessar nossa zona de conforto. Empurrou o livro que eu lia e sentou sobre minha barriga (sim, certo, há maciez e espaço de sobra ali para uma garotinha de sete anos).

– Pai, vamos conversar.

– Vamos, né. Do que você quer falar?

– Pai, por que a maldade existe?

Sete anos. As perguntas não apenas não diminuíram como começaram a ficar complexas. Se em algum momento os “porquês” eram saias justas que me faziam exercitar a capacidade de inventar respostas aleatórias agora as coisas ganharam um caráter mais existencialista.

Na milionésima fração de segundo que eu tinha entre começar a balbuciar algo e continuar sendo um sábio ou ficar em silêncio e perder de forma precoce e definitiva a moral com minha filha, me ocorreu que eu jamais conseguiria responder essa questão para uma criança porque simplesmente sou incapaz de responde-la para qualquer pessoa.

Mas partindo do pressuposto de que o silêncio não era uma opção e ela me encarava com aqueles olhinhos da mãe dela, recorri a uma saída pela esquerda e inventei uma historinha, com uma longuíííssima e detalhada introdução, até que ela se desse por satisfeita, se desse por cansada, me desse uma folga ou que eu tivesse uma epifania e pudesse ilustrar algum conceito real a respeito.

Depois, anotei a questão no bloco de notas do meu telefone celular. Às vezes, abro o aplicativo para escrever algum lembrete de conta para pagar e a interrogação me salta à tela. Por quê?

Eu poderia – talvez devesse – dizer para a Nina que eu não sabia. Geralmente, não tenho problema em admitir que não tenho respostas para as perguntas que ela me faz e aí proponho que procuremos juntos por uma definição. Mas, essa… essa eu não queria não saber. Essa certamente era uma dúvida que fazia eco em meu peito e para a qual nunca me dei o trabalho de ir a fundo numa busca.

Esqueça os conceitos, esqueça o que diz o dicionário, esqueça a definição bíblica da queda, esqueça os usuários ociosos do Yahoo! Respostas, a dualidade do ser humano e o livre arbítrio. Sei que temos explicações psicológicas, sei que temos escolhas, acredito em Deus e na redenção da alma. “Ame seu Deus. Ame seu próximo. Ame a si mesmo”, entendo o que Jesus disse, tento viver de acordo com essa lei e não conheço alguém que, cristão ou não, discorde disso como princípio elementar. Mas de alguma forma, isso ainda parece soar mais uma resposta do tipo “como” do que uma do tipo “por quê”. Porque a Nina não me perguntou sobre as pessoas que fazem o mal, os criminosos que julgamos por seus atos. Sem saber, ela me confrontou de algum jeito, com a maldade que nós praticamos. Apesar dos princípios morais que guiam nossas intenções, por que ainda agimos como agimos?

Nas grandes e nas pequenas coisas, qual é o nosso limite? Queremos menos corrupção no país, mas pagamos pelo gato na TV a cabo. Exigimos mais qualidade no transporte, mas furamos a fila do trânsito andando pelo acostamento. Temos medo da violência, mas achamos bonito pagar na mesma moeda e dizer que bandido bom é bandido morto. Reclamamos da qualidade da educação, mas não lemos.

O que é o bem, afinal?

* * *

Não muito tempo depois, numa manhã de sábado, eu estava na cozinha terminando o café, enquanto ela e a mãe brincavam com a Lucy, nossa cadela, lá na varanda. Então ela entrou, passou por mim, foi até a sala e voltou. Ao invés de voltar para a brincadeira, puxou uma cadeira e sentou à minha frente.

– Pai.

– Diga, filha – eu mastigava um pedaço de pão com manteiga.

– O que é o amor?

E como eu sou um idiota, fiz tudo errado. Teorizei.

Recorri a uma leitura antiga de um livro do C. S. Lewis guardado lá na estante e num canto obscuro da memória para ilustrar os três ou quatro tipos de sentimentos que traduzimos como amor. Julguei – acredite, julguei – ter tido algum sucesso e senti – acredite, senti – uma ponta de orgulho enquanto ela olhava atenta enquanto eu explicava.

No final, sentada na cadeira, os pés balançando sem tocar o chão, as mãos cruzadas entre as pernas, o olhar vago mirando algo lá fora, ela perguntou:

– Pai, amor é quando a gente coloca as necessidades dos outros antes das nossas necessidades, não é?

Talvez eu devesse ter ficado quieto, talvez o C. S. Lewis não precisasse ter escrito aquele livro todo – um tuíte funcionaria bem -, talvez exista muito mais a se aprender com as crianças do que julgamos.

* * *

E aí, chega aquela outra hora do dia de que gosto especialmente. É quando já dei por feitas quase todas as atividades rotineiras e a curva do dia começa a descer para seu desfecho. Chego do trabalho, deixo a mochila sobre uma cadeira, beijo a bochecha da filha, beijo a boca da esposa, faço um cafuné atrás da orelha da Lucy. O dia se encerra com o jantar, um banho (há um mês eu diria “longo e relaxante”, mas com o Sistema Cantareira clamando por economia, já não posso) e o passeio com a Lucy, nossa cadela, no gramado lá embaixo. É só então, quando viro a chave na porta finalmente, que as luzes diminuem e, uma a uma, se apagam. Aqui dentro e lá fora. Coloco a Nina para dormir, coloco a mãe da Nina para dormir e mando a Lucy ficar quieta e ir fazer o mesmo na varanda – cinco vezes, até ela obedecer. O silêncio toma seu espaço pouco a pouco. Os sons diminuem, só o que escuto é o ruído da rua, a sirene na moto do guarda noturno, os quero-queros cantando no parque ao fundo e uma torneira pingando no banheiro e que me esqueci de arrumar (Cantareira…).

Essa é a hora. O momento em que o mundo é meu. Leio um pouco, tomo notas, faço nada, faço uma prece. Faço a ronda pelos cômodos, vigio as meninas dormindo e me encho de gratidão.

O amor que sentimos, a Nina já sabe, não vive em nós. E isso basta para que eu queira ser uma pessoa melhor.

Então me dou conta de que talvez eu jamais consiga compreender o que é o mal e porque ele existe, mas me deito com a certeza de que, sob esse teto, está o maior bem com o qual eu jamais poderia sonhar.

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