Isso aqui vai acabar


Um dia isso vai acabar. Quando digo, não me refiro ao todo, ao conjunto da obra, falo disso aqui, agora, eu deitado na cama de barriga pra cima e minha esposa grávida ao meu lado, e a Nina, a Lucy, o apartamento, tudo. A vida vai seguindo.

Isso aqui. Um lampejo de consciência sobre a brevidade da vida e o ineditismo de cada minuto, a finitude escancarada do tempo. Precisamos aproveitar.

Não falo de curtir a vida de forma inconsequente como se tudo pudesse terminar hoje. Falo de curtir, falo da vida, da consciência de que o tempo esvai. Que amanhã vamos olhar para trás e ter desejado fazer diferente.

Outro dia, o Dr. Pedro disse numa consulta: “Tudo o que um velho mais quer, Luiz Henrique — ele é uma das três pessoas que me chamam pelo nome composto — é ter os pés bons para poder andar por aí”.

Dois pés, funcionando. Não é pedir muito. Falamos tanto da busca pelo significado da vida, mas às vezes é só uma questão de ter uma vida para preencher de significado.

Semana passada eu lia sobre longevidade e o aumento da idade média da população e fazia contas pensando que seria muito bacana se eu pudesse — se tivesse condições financeiras — de me aposentar aos 50 anos.

Aos 50, ainda teria tempo de viajar e conhecer o mundo, pensei. Daria ainda para ter os dias livres para ler tantos livros quanto anoto para ler depois, escrever histórias novas e, quem sabe, aprender a tocar um instrumento. Eu poderia ser um cinquentão saudável se malhasse. Passearia com a Manú em parques e museus num dia de semana à tarde. E teríamos tempo, aí sim, finalmente, para curtir os filhos, nossas crianças…

…Que estarão com 24 e 17 anos de idade, respectivamente (e passear com os pais pelas ruas de São Paulo certamente não constará em suas listas de programas favoritos).

E terei trabalhado mais 17 anos cega e arduamente e juntado recursos e capital suficientes para lhes dar tudo aquilo que eles jamais me pediram, que jamais precisaram que lhes deixássemos como legado. Porque o que eles precisavam – e nós também – nós deixamos para depois.

A Manú me mandou um email há algum tempo com uma carta de Charles Bukowski para John Martin, seu primeiro editor, que certo dia lhe ofereceu 100 dólares por mês até o fim de sua vida se ele abandonasse seu emprego numa agência dos correios para se dedicar à escrita. Já com mais de 60 anos, ele escreve num dos trechos:

“Você conhece meu ditado antigo, ‘A escravidão nunca foi abolida, ela apenas foi estendida para incluir todas as cores’” (…) “Eles nunca pagam os escravos o suficiente para serem livres, apenas o suficiente para ficarem vivos e voltarem para o trabalho.”

E em outra parte: “E, o que machuca é a consistente diminuição de humanidade daqueles que lutam para manter seus trabalhos que não querem mas tem medo que as alternativas sejam piores. As pessoas simplesmente se esvaziam.” (…) “Seus filhos vão fazer o mesmo que eles fizeram?”

A gente tem esses lapsos de vez em quando. Tropeços da consciência, acho. O coração que se abre reverente a Deus e sua criação tão delicadamente bela por um instante e queremos respirar isso, contemplar, construir um altar para não esquecer jamais. Mas passa logo. Passa, sim. É só distrair, só ligar a TV, abrir um e-mail do trabalho e checar a lista de tarefas do dia seguinte.

Mas até lá, encaro o teto iluminado por uma nesga de luz que invade a persiana entreaberta. Procuro dormir. Quero sonhar. Um dia isso aqui vai acabar.

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