Vinte centímetros e o tamanho do mundo todo


Quando a Manú engravidou da Nina, oito anos atrás, comprei um livro de presente para ela. Pode me chamar de insensível, mas quando estou inseguro sobre qualquer coisa vou a uma livraria dar uma volta e procuro um manual de instruções. E dei para ela um manual de instruções da gravidez.

Basicamente, cada capítulo tratava sobre um mês da gestação. Se alguém me contasse isso antes de ter filhos, deduziria que o livro deveria ser um panfleto com nove páginas. Mas surpreendentemente há espaço para se escrever sobre isso em quase 700. Especialistas falavam sobre como o bebê estava, seu tamanho, evolução, se já ouvia, já sentia e também sobre as mudanças que aconteciam no corpo e nas emoções da mulher ao longo daquelas 40 semanas (lição básica sobre gravidez, caso você não tenha filhos: não se calcula uma gestação em meses, conta-se as semanas. E não adianta tentar converter na proporção de 4 por 1 porque nunca dá certo).

Um dia, ela comentou sobre um assunto interessante do livro. No outro, leu um trecho muito esclarecedor. No terceiro, eu o carregava escondido para a sala depois que ela dormia. Descobri naquelas páginas os segredos do que se passava com minha esposa e, melhor, do que viria a acontecer dali para frente. Era um tipo de futurologia. Eu lia o mês seguinte antes e, quando sintomas chatos apareciam, eu tirava de letra. Quando incômodos aqui ou ali surgiam, eu podia ajudar. Quando as alterações de humor que… que… não, absolutamente, n-u-n-c-a aconteceram (amor, você está lendo?) foram relatadas naquelas páginas… bem, eu descobri que minha amada esposa é um ser superior iluminado alheio a essas previsões tolas (querida, um beijo).

Por um lado, saber de antemão o que viria pela frente e conhecer como nossa filha se desenvolvia e crescia, trazia certo conforto. Mas por outro, assustava ainda mais. A insegurança, as dúvidas, o medo de não ser capaz de trazer um ser humano para o mundo eram sombras que nos perseguiam a cada capítulo. Até que a Nina nasceu. E cada pingo de dúvida virou certeza.

Não estávamos prontos. Mas, ao nosso jeito, com manuais, tropeços, conselhos dos mais velhos, acertos involuntários, palpites alheios, documentários em DVD e observando ela crescer sob nosso teto, fomos nos descobrindo pais e aprendendo que, apesar da insegurança nunca passar, a Nina está aqui, perfeita, seguindo bem e começando a aprender com suas próprias escolhas. E a gente se realiza vendo o fruto disso na forma como ela enxerga e vivencia o mundo à sua volta e o quanto nos ensina com seu olhar.

Cinco meses atrás, quando a Manú descobriu que estava grávida novamente, começamos a imaginar se o sentimento seria igual. Parecia que a avalanche de incertezas e aquelas sensações todas nos invadiriam outra vez. Foi então que notamos que grande parte desses sentimentos nunca foram embora. Ter filhos envolve ter medos e dúvidas sobre tudo e perguntas que se renovam a cada festa de aniversário, mas também faz com que nos sintamos cercados de uma das poucas certezas que poderíamos ter na vida.

Dessa vez eu não comprei um livro, mas por precaução – vai saber quantas coisas não mudaram em termos de gravidez, bebês e esposas nesses oito anos? – baixei um aplicativo no meu celular chamado “Minha gravidez” ou coisa assim. Sim, no meu celular. Preenchi um breve cadastro considerando a data da última menstruação para eles calcularem a idade gestacional e depois passei a receber alertas e e-mails sobre o que está acontecendo, semana a semana, com minha filha e com minha esposa.

Dicas sobre alimentação e cremes para o corpo eu descartava. Tópicos relacionados a alteração de humor, evidentemente, também eram ignorados. Mas questões ligadas a hormônios, libido, saúde da mulher, bem-estar e o desenvolvimento da criança, eu lia assiduamente. Até que começaram a medir e divulgar o tamanho do bebê. Sempre gostei da ideia das medidas, achava legal saber que tinha cinco, dez, vinte centímetros… aquela belezinha crescendo ali.

Certo dia, no entanto, abri o aplicativo e a mensagem era a seguinte: “5 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma semente de gergelim.”

Achei curioso. Até então, gergelim era, para mim, um elemento específico presente na fórmula do Big Mac, feito de um tipo de plástico comestível. Nunca tive ideia se aquilo era um alimento com origem, identidade própria e tão pouco que havia uma padrão de medida.

Na semana seguinte, abri o app na segunda-feira (dia de aniversário gestacional da minha filha) e: “6 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma lentilha.”

Não faço ideia do tamanho de uma lentilha. Só vejo lentilhas servidas numa mesa uma vez por ano, se muito. Sua dimensão tem valor relativo pra mim, que pode se assemelhar a um feijão, milho ou… gergelim.

Mais sete dias e: “7 semanas: seu bebê tem o tamanho de um grão de bico.”

Ok. Idem a semana 6. Grão de bico é igual a feijão que é igual a lentilha que pode ser igual a gergelim. Assumo que minha filha cresceu bem pouco.

“8 semanas: seu bebê tem o tamanho de uma uva moscatel.”

Qual das uvas, entre as cinco opções que vendem na feira, ora raios, é a moscatel? Tive que esperar o sábado para saber e tentava, pela primeira vez na vida, ler as plaquinhas de papel penduradas em varais nas barracas de frutas para identificar a palavra “moscatel” escrita em alguma delas e fazer a bendita associação. Mas aí ela já tinham se passado cinco dias, ela deveria ter crescido ainda mais e estava bem perto da segunda-feira. E na segunda-feira é dia de abrir o aplicativo para checar as novidades e descobrir que:

“9 semanas: seu bebê tem o tamanho de um grão de feijão jalo.”

Jalo? Jalo!? Tá me zoando, né? Tem um jornalista escrevendo isso ou é o estagiário do Ministro da Agricultura? O que é um feijão jalo? Isso é a gestação de um bebê ou treinamento básico de agricultura doméstica para a distribuição de terras da reforma agrária? Tive que ir ao Google pesquisar sobre as diferenças entre os tipos de feijão no Brasil.

E assim, em caráter campestre, a coisa seguiu nas semanas que passaram. A cada vez, minha filha se assemelhava a um item de prateleira do hortifruti: azeitona verde, figo, limão, limão siciliano, pedaço de gengibre, coco seco, pepino, cenoura, manga, alho poró, cebolinha verde, repolho roxo, repolho, abóbora menina. Sim, menina, mas eu prefiro chamá-la de Amora do que de Abóbora. E, finalmente, abóbora – só abóbora – é o tamanho que ela terá lá na semana 40, ao final, quando nascerá.

Apaguei o aplicativo. Desisti de tentar imaginar minha filha, minha segunda princesinha, sendo comparada com uma leguminosa, fruta, tubérculo ou vegetal pelo ex-redator do Globo Rural que resolveu mudar de carreira. Eu lia sobre o tamanho dela e sentia vontade de dirigir até o CEASA para entender do que estavam falando. Pedaço de gengibre? Feijão jalo? Repolho roxo? É orgânico ou transgênico? De safra boa ou ruim? Plantado na terra ou hidropônico?

No fim, não faz falta. Tampouco faz o livro ou qualquer guia que nos instrua, essa é a verdade. Porque, no fundo, ter vivido isso uma vez com a Nina já nos faz encarar essa situação de um jeito diferente. Já sabemos, mais ou menos, como vai ser e como não vai ser. E não ter a incerteza e a tensão que vivemos durante a primeira gestação, de algum jeito, pode beneficia-la. Talvez, até com um peso menor sobre si, com pais menos instáveis, sufocantes e medrosos. Quem sabe até a Nina se sinta mais leve por finalmente não ser o centro de tudo por aqui.

É aquela sensação de que já passamos por essa rua antes, sabe? Parece que estamos viajando de novo para uma cidade que amamos visitar. E agora, ao invés de fixar os olhos no mapa para descobrir em que esquina devemos virar, queremos reparar na paisagem, desfrutar o caminho, prestar atenção aos detalhes.

Tem passado rápido, tem sido maravilhoso. Outro dia nos demos conta de que mais da metade já se foi. Ela começou a se mexer e chutar. E cada hora que faz isso, tem todo um evento aqui em casa e nós três nos mobilizamos e nos reunimos para ficar ali, com a mão posta sobre a barriga da mãe, desfrutando dessa pequena, essa singela, essa tão poderosa interação que podemos ter. Ela ali dentro, a gente aqui fora. Esperando. Mas a verdade é que para nós ela já chegou.

Daqui a pouco seremos quatro, eu penso todo dia. Como ela vai ser? Será que vai gostar da gente? Será que já percebe o quanto é amada? A Nina beija a barriga, pede que a mãe tome cuidado, que sente direito e não aperte a irmã, a chama da “mana”, a barriga cresce, a Manú grávida fica ainda mais linda, nós todos ainda mais animados. E vem toda aquela mágica, aquela ideia que amadurece dentro de nós, tão real, de repente tão grandiosa, como uma certeza de que nada, nunca, em momento algum a nossa história poderia ser tão perfeita. São assim, esses momentos. E aí que a gente transborda de gratidão e a vida, essa vida da qual eu resmungo diariamente, se enche de sentido.

Vamos aprender tudo outra vez, continuaremos seguindo pelo caminho. Porque esse é o lugar onde mais gostamos de estar. Com nosso jeito, com aqueles manuais, tropeços, conselhos, acertos involuntários, palpites de tanta gente e documentários em DVD notaremos que, apesar das nossas imperfeições, nossas meninas crescerão bem. Sob nosso teto, nossos olhares e a boa mão de Deus.

Queremos ver seu rostinho logo e beija-la. Queremos olhar em seus olhos, cheira-la no pescoço, nos apresentar para ela, apresentar o mundo todo e deixar ela acreditar que nasceu para reinar sobre ele sentada num trono cor-de-rosa com glitter ao lado da irmã mais velha. Queremos que ela venha, sim, mas sobretudo desejamos que ela venha na hora certa, no seu tempo e que, do mesmo jeito que Deus escolheu esse momento da história para ela surgir em nossas vidas, que ele também providencie que nasça em perfeita sincronia com seus planos. Do jeito que vier, do tamanho que tiver, a gente nunca mede o que sente. Com 38, 39 ou 40 semanas, não importa, é nossa menina. Não uma abóbora, uma menina.

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