Com licença, me desculpe


Obrigado, Carlos, por dar voz ao que venho tentando expressar há tanto tempo. Seu artigo Quando a fé cheira a pólvora, publicado na Folha de S. Paulo há alguns dias é leitura fundamental para quem espera analisar a situação sem os clubismos que polarizam tanto as coisas e apequenam o debate.

Sou cristão, meus amigos sabem disso. Alguns porque leem uma coisa ou outra que escrevo aqui, outros porque me perguntam sobre o assunto, mas nunca porque parei, em qualquer momento, para fazer uma defesa da religião. Acredito que religião reflete um ponto de vista e um estilo de vida e não algo impositivo. Por isso, essa é a única vez em que tratarei do assunto sob essa ótica.

Acho que tem alguma coisa muito errada acontecendo quando, para poder explicar uma coisa que você é, você precisa antes explicar o que você não é. Como se fosse preciso se justificar ou pedir desculpa por ter uma opinião destoante e escolher uma outra perspectiva para encarar a vida.

Quando alguém me pergunta se sou mesmo protestante, um “sim” parece não bastar. Preciso acrescentar, infelizmente, o que isso não significa.

Então, vou dizer: não acredito no cristianismo como algo que se imponha para transformar o mundo na tentativa de enquadrar a sociedade em seus preceitos – não acredito e rejeito qualquer tentativa, de qualquer filosofia, partidarismo ou opção futebolística nesse sentido.

Acredito, sim, na fé cristã como instrumento na transformação do ser humano, no aperfeiçoamento do indivíduo ao resgatar sua essência e acredito que a semelhança com Jesus Cristo é o ideal de caráter que podemos perseguir. Em resumo, é pessoal, é íntimo, é de dentro para fora.

Não consigo ver essa semelhança no discurso de ódio e intolerância que uma parte (bem pequena, mas barulhenta e abonada) dos evangélicos tem destilado. Não consigo reconhecer a voz do Jesus doce e compassivo nessa pregação raivosa, cínica e exclusivista de certos líderes (eu poderia citar nomes, mas sabemos que não preciso). Não consigo enxergar a infinita bondade de um Deus que se faz chamar de “pai” nessa interpretação tacanha e limitada que tem sido feita da Bíblia por esses grupos.

Essa “bancada evangélica”, os tele-evangelistas, as marchas, campanhas de fé, o comércio de indulgências, o jogo de poder, a intolerância gratuita contra minorias, o preconceito, o simplismo no discurso… A verdade é que tudo isso é manobra para a defesa de interesses obscuros que passam muito longe da espiritualidade. Mas eles usam a influência que exercem sobre seus rebanhos para manipulá-los no sentido que melhor atuem como peça dos seus jogos.

Se isso aí é ser evangélico, desculpe mas eu não sou – acho que a palavra adquiriu um significado diferente do original com o passar do tempo. Agora, não venham dizer que isso é cristianismo porque, não, definitivamente, não tem qualquer semelhança com Cristo. Estivesse aqui hoje, penso que Jesus viraria outra vez as bancas de comércio, os chamaria de hipócritas e os expulsaria de sua casa.

Em seu artigo na Folha, o Carlos Alberto Bezerra cita nomes como Desmond Tutu, Martin Luther King e Willian Wilberforce para mencionar alguns dos cristãos que expressaram uma fé genuína e dedicaram suas vidas a melhorar o mundo. A transformação de suas vidas os impulsionou a agir em favor das pessoas, não em segregá-las dentro ou fora de seus grupos.

Temos precisado muito desses exemplos nesses dias. Temos precisado de gente que leia passagens como o Sermão da Montanha e aja de acordo com as palavras de seu mestre. Em favor dos mais fracos, dos pobres, dos pequeninos, em busca de justiça, de paz, de amor e com coração servil. Precisamos dessas vozes contrastando com as que aí estão. Como referência positiva para guiar uma igreja sem rumo e, talvez, como forma de limpar nossa barra.

Sou cristão, gente, desculpe aí.

5 comentários sobre “Com licença, me desculpe

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