Está tudo ficando velho


img_1877

Está tudo ficando velho. Cada vez mais cedo, tudo fica obsoleto.

Já percebeu? O DVD, que tanto celebramos e comprávamos em caixas bacanas para dar de presente ou assistir em nossos home theaters, já ficou velho (“home-o-quê?” pergunta minha filha enquanto me embanano em pronunciar “theater” apropriadamente). O CD também ninguém usa mais. Fitas cassete são objetos de análise em vídeos na internet em que se mostram coisas para crianças que elas nunca viram na vida. O vinil sempre foi velho e continua sendo velho hoje. E o Blu-Ray, já viu? Tenho pena do Blu-Ray, porque, no fundo, nunca foi novo. O Blu-Ray é o Benjamin Button das mídias e pode até ser que um dia, de tão velho, fique novo.

Eu estou ficando velho. Quando comecei a escrever o primeiro rascunho deste texto, uma ideia solta num papel, lá em 2015, eu tinha feito aniversário há dois dias. Estava ficando mais velho e essa questão me ocorria então. Hoje, estou mais. As costas doem se não durmo na posição certa e com um travesseiro entre os joelhos, minha barba tem vários fios prateados, voltei a usar óculos em tempo integral e pessoas de 18 anos, que durante a minha infância eram o ponto alto da vida adulta antes de alguém se tornar definitivamente velho, agora me chamam de tio.

O leite de hoje é longa vida mas dura cada vez menos, um centroavante se aposenta com menos anos do que eu tenho de idade, os aparelhos de TV só duram o intervalo entre uma Copa do Mundo e outra (antes, eram vendidos com garantia estendida por três edições), nossos celulares cheios de recursos que adoramos ostentar mas nem chegamos a usar ficam ultrapassados em poucos meses, o pãozinho já sai da padaria vencido, nossas amizades duram a eternidade de um clique, uma curtida e acabam ao primeiro comentário mal interpretado.

A verdade é que nada mais é feito para durar. Fabricamos produtos para que fiquem velhos o quanto antes. E fazemos isso de propósito. Estamos em uma sociedade de consumo. Nunca falamos tanto em sustentabilidade e em salvar o planeta, mas na contramão dessa discussão, nunca produzimos tanto lixo. Tudo é materialista e imediato.

A Cinira, que trabalhou aqui em casa por alguns meses, quando me via descartando um produto com prazo de validade vencido, costumava dizer: “Sêo Henrique, joga fora isso não. O que vence é a embalagem, não o produto”. Mas infelizmente a gente vive numa sociedade em que a embalagem vale mais do que a essência.

Vivemos a era da obsolescência.

Tudo precisa ficar velho logo para que possamos nos preocupar em consumir o item de série mais novo. Porque vendemos a juventude como ideal. Note que essa é a única época na história da humanidade em que envelhecer é ruim. Até pouquíssimo tempo, velhice era sinônimo de sabedoria e maturidade. Pessoas viviam menos anos do que hoje, mas compreendiam e desfrutavam das etapas e ciclos que a vida lhes impunha. Objetos e itens de alto valor eram os que duravam muitos anos. Geladeiras, carros, calças jeans, relógios… o que tinha valor era o que se mantinha funcionando por 20 ou 30 anos.

Há coisa de dois anos, enquanto acompanhava a Manú em uma consulta durante a gestação da Cecília, sua médica comentou que, com frequência cada vez maior, ela atendia mulheres de 50 anos pedindo por algum tratamento que as ajudasse a engravidar. E não o fazem porque sonham em formar mais um ser humano em nosso mundo, mas porque desejam reviver (ou prolongar) um período da vida em que já não estão. Elas têm tido filhos mais novos do que seus netos.

Pela primeira vez, os jovens têm mais conhecimento do que os velhos. Em média, um garoto de 25 anos já recebeu durante seu período escolar e a universidade mais informação do que um homem de 65 anos consumiu durante toda sua vida. E o mundo todo tem na juventude – e em sua inquietude – um ideal de vida a seguir.

Nossa sociedade tem se definido pela efemeridade, nada mais é feito para durar. O problema não é o novo ser legal (porque inovar e repensar as coisas é algo bom), o problema é o velho se tornar lixo automaticamente tão logo algo diferente apareça. Nos tornamos viciados em novidades e em viver novas experiências e sensações.

Meu medo é porque isso está extrapolando o consumo. Temo que estejamos sendo consumidos por esse ideal e transferindo o obsoletismo para outras esferas de nossas vidas. Nossas relações já não são tão duráveis, nossas crenças são superficiais, nossa antiga confiança em sistemas, pessoas e instituições agora são frágeis conexões e os elos tão sólidos que tínhamos estão se tornando cada vez mais relativos.

Nossas vidas agora passam como timelines e tão fácil quanto estabelecer novas conexões também é desfazê-las. E relacionamentos acabam com um clique. Em uma cultura em que nada mais é para sempre e tudo é “para ontem”, vem a reboque a falta de paciência, a intolerância, a ansiedade e o lance todo vira um ciclo vicioso, porque sabemos o que não queremos mais, rompemos e deixamos de curtir o que nos atraiu na semana passada porque o que vale é o agora, mas ainda não sabemos ao certo o que queremos colocar no lugar.

Sem essas bases, também nos questionamos, nos sentimos frágeis, obsoletos e perdidos. Há um efeito bumerangue na forma como tratamos o mundo, porque passamos a ser vistos – e também a nos ver – com o mesmo espírito de intolerância e obsoletismo. A embalagem tem valido mais do que o produto.

“Você é uma coisa que todo o universo está fazendo no mesmo sentido em que uma onda é algo que todo o oceano está fazendo”, disse Alan Watts certa vez. Há raízes que precisam ser preservadas, há elos que devem ser reforçados, há princípios sobre os quais erguemos nossas bandeiras e valores que devem ser mantidos. Estou longe de ser conservador, mas me apego a ideia de que a vida precisa de certas bases para crescer e se sustentar, de que há ciclos que precisam ser respeitados, de que é preciso lançar sementes hoje para se colher frutos na próxima estação, de que o tempo, por mais que nos esforcemos, não muda seu ritmo. E quando os elos que nos unem se tornam frágeis e se rompem, perdemos algo fundamental em nossa identidade: o sentido de pertencimento.

Acredito mesmo nisso, na ideia de que só compreendemos quem somos de fato quando entendemos que pertencemos a uma comunidade, a uma família, a uma raça e sobretudo a um Deus que nos sustenta, nos ama e nos criou à sua imagem. Um Deus que se define como amor. E o elo fundamental que nos une é o amor.

E amar não é possuir, amar é pertencer. O amor não é efêmero, ele é paciente. O amor não é fugaz, ele é um velho maduro e sábio que se fortalece em sua capacidade de atravessar inabalável o tempo.

– Amor?

A Manú me interrompeu há pouco, enquanto escrevia alguns parágrafos acima.

– Oi.
– O que você está escrevendo?
– Um texto sobre obsolescência, o fato de as coisas estarem ficando velhas cada vez mais cedo e como isso afeta as…
– Lê pra mim?
– Tá bom.

Eu leio até a palavra “timelines”, onde parei.

– Gostei. Posta?
– Ainda preciso terminar, acho que ainda estou só na metade.
– Termina então. E poste logo. Poste hoje.
– Haha, tá bom.
– Antes que fique velho.

Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s