Questões de chuveiro


A Manú reclama que eu demoro muito no banho. “Meia hora, Henrique! Você precisa de tudo isso?”. Eu retruco, argumento que tenho pêlos no corpo e lavo os cabelos todos os dias e que por isso, só no processo todo, acabo demorando mais do que ela. É claro que não cola. Ela tem fios de cabelos cinquenta vezes maiores do que os meus e mesmo quando se submete a um tratamento capilar completo, não fica mais do que quinze minutos com o chuveiro ligado.

A verdade, cá entre nós, é que eu fico ali sem fazer nada. E não é de propósito, nada de fugas. É um estado de letargia, em que esticar o braço para pegar o sabonete pode levar uns cinco minutos. Eu já falei disso, tomar banho é o tipo de coisa que classifico como ócio involuntário. Um ritual em que lavo o corpo, a cabeça e a alma. E desde que o nível do Sistema Cantareira deixou de ser uma preocupação urgente, fico um certo tempo ali, entre devaneios, ideias e soluções para os problemas mais complexos do meu dia.

Ideias e soluções que, diga-se, são geralmente incríveis, mas das quais nunca me lembro depois que desligo o registro. E aí me pego gastando alguns banhos pensando que poderia ficar multimilionário se inventasse uma caneta mágica capaz de escrever em vidros de box e azulejos molhados para registrar esses pensamentos. Mas também não lembro da tal caneta depois que saio do banho. E já tentei escrever algumas coisas no box usando a pontinha de um sabonete novo, mas o vapor derreteu tudo e no final aquilo virou uma mancha branca esquisita e ilegível.

Ficaria milionário também (às minhas custas) o sujeito que criasse o sabonete três em um. Uma única barrinha, me ocorre, deveria ser capaz de ser sabonete, shampoo e condicionador. Não tem muito sentido precisarmos usar três produtos diferentes para funções tão semelhantes. E com frequência, entre um devaneio e outro, eu me distraio e esqueço se já lavei os cabelos ou usei sabonete e acabo fazendo a mesma coisa duas vezes para não correr o risco de negligenciar uma etapa importante da higiene.

Melhor ainda seria se a própria ducha tivesse um recipiente ou refil acoplado que liberasse, durante o banho e junto com a água, uma pequena dose de um líquido tudo-em-um que cumprisse o papel de nos deixar limpos. Há de existir tecnologia para isso, não é possível. E tenho certeza que eu tomaria banhos mais objetivos e eficientes e minha Manú ficaria mais contente.

Mas, não. Os gênios da indústria dedicam seus neurônios a outros fins. Os caras inventam uma ducha mais larga e que libera um maior volume de água, a batizam de Gorducha (Gor-ducha!), mas não melhoram o processo. Inventam um sabonete Dove misturado com pepino, lançam o Natura Ekos com sementes de maracujá no meio (sim, sementinhas secas de maracujá rasgando sua delicada pele durante o banho), inventam um sabonete com um bocado de areia no meio, que arranha o corpo inteiro, chamam o tijolo de barra esfoliante e a gente ainda paga quinze vezes mais por isso. Mas, não, não inventam um banho otimizado para salvar casamentos e represas.

Nessas horas, sou obrigado a cair na vala-comum do pensamento preguiçoso e culpar meus comparsas publicitários. Eu balbucio em câmera lenta (meu banho é slow motion, acho): “é tudo culpa do marketing”. Venderiam menos produtos se tivéssemos um tudo-em-um. A prova está um metro à minha frente.

Olho para a prateleira de vidro dentro do nosso box e vejo ali uma fila de recipientes. Se na minha infância o desafio era entender a diferença entre o sabonete e o shampoo, o passar dos anos introduziu nos lares e banheiros brasileiros a figura do condicionador. E eu passei a precisar lavar os cabelos três vezes, ao invés de duas.

Depois que me casei, um recipiente menor começou a disputar espaço com os outros dois. Intrigado, um dia eu parei para ler o rótulo. “Máscara”, dizia a embalagem. É um creme para usar antes do condicionador, me disse a Manú, e que você passa para hidratar o cabelo depois da… hidratação. Engodo puro, pensei então. Mas, eis que de uns meses para cá, um quarto vasilhame surgiu para compor o conjunto. Curioso, agarrei o dito-cujo outro dia e li o texto em destaque: “Pré-Shampoo”. Isso, pré. Porque não bastasse ter as madeixas besuntadas pelo creme no pós-banho, agora fazem o pobre consumidor acreditar que é preciso lavar o cabelo antes de lavar para poder hidratar e então hidratar. Contando o sabonete, são cinco coisas no processo todo. E minha doce esposa usa tudo isso naquele cabelão e demora menos tempo do que eu no banho.

Mas a Gorducha-Mágica-Tudo-Em-Um com refil que seria, essa sim, revolucionária, o sr. Lorenzetti não se atreve a fabricar.

Penso nisso enquanto me lavo com um novo sabonete refrescante maravilhoso à base de pitanga. Penso também na caneta à prova d’água (que descobri depois, para desespero da minha conta-corrente, já existe), lamento a coisa toda de como somos vítimas dessa opressão comercial que tenta nos manipular como massa desorientada e no momento em que enxaguo o Pré-Shampoo e meus problemas de oleosidade capilar escorrem pelo ralo, ouço uma uma voz distante, lá fundo, chamando: “Henrique, poxa vida, ainda vai demorar aí!?”

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