A arte de dizer não


Cecília, minha filha, diz não com a facilidade de quem solta um bocejo. Não interessa se estamos mandando que vá para a cama ou se estamos oferecendo um pote inteiro de sorvete de morango (seu favorito), se naquele momento não lhe parece conveniente, ela nega sem peso na consciência.

Estou convencido de que só existem dois tipos de pessoas quando o assunto em questão é a propriedade para responder convites ou propostas: pessoas como Cecília e pessoas como eu. Em posição diametralmente oposta à da minha filha caçula, estou no grupo de indivíduos que à luz de uma pergunta contraditória se coloca a… bem, entenda, ficamos assim, você sabe, talvez um pouco, só um pouco… titubeantes?

Tenho dificuldade em dizer não.

Como boa parte das crianças de três anos, Cecília gosta de se divertir em posições não ortodoxas: assiste tv deitada no sofá com as pernas pro alto e de cabeça para baixo, desenha em uma folha de papel apoiada no chão enquanto o corpo está em cima da cadeira, brinca com suas bonecas embaixo da mesa de jantar. E nessas condições, concentrada em algo que a capture ou entretida com qualquer outra coisa, é que um convite nosso lhe atravessa os ouvidos: “Cici, filhinha, venha comer”, “Cici, quer um suco?”, “Cecília, você precisa vestir uma roupa para sair, não dá para ir só de galochas e camiseta na rua”, “Filha, vamos no parquinho?”, “Cecília-Matos-agora-é-hora-de-ir-pra-cama-e-eu-quero-você-deitada-e-eu-não-quero-ouvir-nem-mais-um-pio!”

Ela não se abala, não move os olhos, não pensa duas vezes. Ela respira suave, abre levemente os lábios e diz apenas um sereno e seguro:

– Não.

E se um dia você passar aqui em casa e conhecê-la, vai testemunhar que diferente do que as respostas diretas talvez sugiram, Cecília é um doce. Sorridente, amorosa, preocupada e intensa em suas emoções. Ela é pura festa, uma pequena tempestade de cabelos vermelhos que sopra seu vento forte enquanto se move saltitante por todo lado. Costumamos dizer por aqui que ela não adormece, ela desliga, porque desde o abrir dos olhos até o último minuto enquanto resiste acordada, ela opera a pleno vapor. Cecília não tem meios-termos. O negócio, é que ela tem, naqueles 80 centímetros, a abundância de segurança sobre seus interesses que eu, com o dobro e mais uns tantos da sua estatura, não desenvolvi até hoje.

(… continua no site do Estadão).

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