Velhas memórias, novos olhares


“O Henrique”, minha esposa diz, “lembra até a cor das meias que estava usando no aniversário de seis anos”. Não é verdade. Mas eu nunca a corrijo. Porque não lembro das meias, mas lembro da festa, dos presentes que ganhei, da disposição da mesa, o bolo e cada uma das pessoas que estavam na cozinha de casa cantando parabéns enquanto eu era surpreendido pelo desfecho da trama sutilmente articulada por meu irmão e minha mãe. Isso é mais do que a cor das minhas meias (que provavelmente eu não lembro da cor porque não as usava).

Tenho uma memória muito boa. Mas, não é nada de que possa me orgulhar ou que tenha me rendido alguma vantagem, já que não se trata do tipo de memória que poderia me ajudar a decorar fórmulas matemáticas, a tabela periódica ou a função das mitocôndrias – três clássicos motivos de notas baixas no meu currículo escolar e disso eu me lembro bem.

Se me permite uma correção aqui, vou recomeçar o parágrafo: sou um sujeito carregado de lembranças. Cenas particulares, fotografias do passado e detalhes minuciosos povoam minha mente. Diria, quem sabe, que se trata de uma memória seletiva expandida.

A mais remota, da qual lembro das cenas e sensações é de quando eu tinha três anos. Três anos e dois meses para ser exato. E sei a data porque foi quando a Fê, minha irmã caçula, nasceu.

Lembro de estar em casa, mas minha mãe não estava em casa. Estava minha avó (que nunca estava lá em casa) e meu pai é quem preparava o jantar (e ele nunca preparava). E numa terça-feira bem cedo – o dia da semana, evidentemente, eu busquei na internet – saímos de casa para buscá-las no hospital.

Lembro-me de estar sentado no banco traseiro do carro, no lado direito, atrás do passageiro. Aos três anos, minha cabeça mal dava na altura da base do vidro, de forma que eu só conseguia enxergar, através da janela acima de mim, as coisas que estavam no alto e não a rua.

Meu pai nos deixou esperando no estacionamento da maternidade e foi buscá-las. Era fevereiro, um dia quente de verão. Com a cabeça encostada na lateral do carro, eu olhava lá fora o céu azul, a fachada do prédio do hospital, as centenas de janelas enfileiradas, e tentava descobrir em qual delas minha mãe estava.

Aquele era o mundo que eu via, era meu universo particular. E nem vi direito quando eles chegaram, minha mãe acomodou-se no banco da frente com uma trouxinha de panos onde estava minha irmã (pois é, senhoras e senhores, banco da frente, nada de bebês-conforto, nada de cinto de segurança, estávamos na década de 80 e vivíamos perigosamente) e não me lembro o que aconteceu depois.

Cecília, minha filha caçula, tem três anos e dois meses agora.

(… continua no site do Estadão)

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