Bola dividida


Alimento pelo futebol o mesmo tipo de amor platônico que tenho pela música. Aquela admiração distante de quem um dia vislumbrou um relacionamento íntimo mas precisou se conformar com a contemplação como forma de contato com o alvo de seu afeto.

Sempre fui ruim de bola. Quer dizer, eu seria feliz se fosse apenas ruim de bola. Talvez seja boa ilustração mencionar que o ápice de minha carreira futebolística foi quando me tornei o zagueiro titular da categoria Dente-de-Leite do time do meu bairro, aos dez anos de idade, época em que ainda alimentava o inocente sonho de um dia me tornar jogador profissional enquanto suava sob o olhar rígido do Moleza, um morador do bairro que nos finais de tarde se propunha a desempenhar o papel de técnico da criançada. A equipe tinha um nome oficial e dois jogos de camisas, mas era mais conhecida como o Time da Rua de Baixo (ainda que muitos garotos de outras ruas que não eram a “de cima” também treinassem ali).

Agora, me diga você: no duro, que menino sonha em ser zagueiro? Em uma década que tínhamos Careca e Romário brilhando em campo com gols memoráveis já era de se compreender que ambicionar o posto do Ronaldão ou do Aldair era um sinal evidente de admissão de fracasso e um certo conformismo disfarçado atrás do sonho. Sinal que só eu não enxergava. Eu e o Moleza, que na ausência de mais voluntários para a posição, me escalava também na categoria Fraldinha (todos os outros garotos, das ruas de cima, ao lado e mais abaixo, queriam ser centroavantes).

Cresci e tornei-me um adulto conformado com o fato de que não teria, na vida, um próspero relacionamento com os gramados. O que não quer dizer que tenha abandonado a torcida eufórica, os jogos do meu time e o prazer contemplativo, quase invejoso quando observo que alguém é capaz de desempenhar o que não fui.

Nick Hornby escreveu no livro Febre de Bola a definição dessa relação platônica do torcedor com seu time:

“Se tem uma coisa de que tenho certeza sobre ser torcedor, é a seguinte: não se trata de um prazer de segunda mão, apesar das aparências, e aqueles que dizem que preferem fazer do que ver não entendem nada. O futebol é um contexto no qual ver se torna fazer — não no sentido aeróbico, porque é bem improvável que ver um jogo fumando que nem um condenado o tempo todo, depois sair pra beber e ainda ir pra casa comendo umas batatinhas fritas possa transformar alguém na Jane Fonda, algo que correr pra cima e pra baixo num campo de futebol é capaz, supostamente, de fazer. Mas, quando acontece um triunfo de algum tipo, o prazer proporcionado não irradia dos jogadores até chegar a nós, no fundão da arquibancada, já como um eco diminuído da sensação original; nossa fruição não é uma versão aguada da que têm os jogadores, embora eles é que marquem os gols e subam os degraus de Wembley pra encontrar a princesa Diana. O júbilo que sentimos em ocasiões assim não é uma celebração da boa fortuna dos outros, mas da nossa; e, quando há uma derrota terrível, o sofrimento que nos envolve é, na verdade, autopiedade, e qualquer pessoa que queira entender como o futebol é consumido deve entender isso, acima de tudo. Os jogadores são meramente nossos representantes, escolhidos pelo técnico em vez de eleitos por nós, mas ainda assim estão lá nos representando (…)”.

A cada quatro anos, durante a Copa do Mundo, volto a ser menino. O moleque plantado na beira do campinho de terra, a bola esfolada sob o braço, esperando para jogar e levar o Time da Rua de Baixo a mais uma vitória gloriosa (sim, como zagueiro e, não, não era comum vencermos).

(… continua no site do jornal)

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