Sala de espera


Eu tento ficar alheio ao que se passa ao redor mas não consigo. Comprei fones de ouvido novos, desses sem fio e com recurso que cancela o ruído ambiente. Um luxo, uma bolha de isolamento social e de imersão. Mas não consigo. Eu interrompo a música, dou pause no podcast, porque me interessa mesmo é saber o que conversam as duas idosas sentadas no banco à minha frente na sala de espera do consultório.

É uma sala grande, eu conto sete sofás de couro marrom e aquele clima de lugar onde se fumava antigamente. Elas falam sobre a chuva que vai cair daqui a pouco, sobre a última visita à doutora, a médica que também cuidou da irmã de uma delas e sobre a dificuldade de andar pelas calçadas do bairro nesses dias.

Há gente no celular também. É epidêmico. A maioria dos que se espalham nos sete aconchegantes sofás, está submersa nas pequenas telas, passando os dedões pelo vidro.

Mas há um homem, talvez da minha idade, sentado quase à minha frente e ele não usa um celular. Ele não faz nada. Está parado, o olhar vagando pela sala, as vezes se fixando num ponto da parede, em uma pessoa, no chão por longos instantes. E eu me interesso ultimamente por observar pessoas que não usam celulares em salas de espera. Será que o pensamento está ocupado demais com coisas mais interessantes ou a mente está tão vazia que nem se dá ao trabalho de pensar em enfiar a mão no bolso e sacar o aparelhinho? Do que se ocupam as pessoas que não ocupam cada instante de sua existência com algum estímulo digital, que não alimentam o cérebro com a dopamina liberada pela recompensa de clicar, clicar e clicar o dedo em algum link?

Hoje, a caminho da clínica, o carro parou no semáforo e fiquei olhando um sujeito que guardava a porta de um comércio. Sentado numa cadeira virada para a rua, jornal jogado sobre o colo, a cabeça recostada na parede. Ele dormia. Centenas de carros e pessoas, patinetes e ônibus, bicicletas e motos passando logo em frente. E o sujeito dormia como minha filha quando desmaia no sofá da sala. Alguém então buzinou longamente. Era o carro atrás de mim avisando gentilmente que o semáforo estava verde e o carro da frente já estava uns 200 metros adiante.

A recepcionista chama a idosa para sua consulta. “Dona Rosa”, ela anuncia. A senhora não escuta. “Dona Rosa, pode subir”, ela repete. Mas a mulher não se move, continua na conversa truncada com a colega. “Dona Rosa!” outra vez e a amiga escuta. “Te chamou, Rosa”, “Oi? Não, não chamou. Não escutei”, “Chamou, sim, vamos lá”, “Será que chamou?”, “Chamou. Vamos lá ver”. Levantam as duas, com a vagareza de quem se desdobra. “Moça, você chamou?”, ela pergunta para a recepcionista. “Dona Rosa? Chamei, sim. Pode ir”. “Ela chamou mesmo”.

(Continua lá no Estadão)

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