Confessionário


– Padre, eu pequei.
– Pois não, filho. O que aconteceu?
– Na última semana, eu precisava mandar uma mensagem no WhatsApp para uma pessoa e, mesmo estando livre para digitar, eu mandei um áudio. Perdão, padre.
– Hum. Não estou certo de que isso seja pecado.
– Se não é pecado, deveria. Eu sinto um peso…
– Bom, se você…
– Porque, veja, a pretexto da minha falta de tempo, eu ocupo o tempo do outro, que precisa parar o que está fazendo para me ouvir. Acho um abuso.
– Entendo. Nesse caso, reze um Pai Nosso e uma Ave Maria e fique em paz.
– Só isso? Uma reza de cada já paga um áudio de Zap?
– Só. Não sei que barganha você pretende fazer, mas não é assim que as coisas funcionam.
– É que, nesse caso, acho que o pecado meio que compensa. Eu estava me sentindo tão mal. Vocês não tem um catálogo com número de rezas versus infrações para calibrar melhor isso?
– Veja bem, Rodolfinho…
– Ah, puxa, você lembra de mim, padre?
– Lembro, menino, claro. Quando foi a última vez que você se confessou?
– Foi na primeira comunhão.
– Jesus. Isso tem o quê, uns dez anos?
– Vinte e poucos, padre.
– E desde lá o único pecado que te fez sair de casa para se confessar foi esse?
– É, padre, sinto muito. Mas eu estava com a consciência que não me aguentava. Aliás, esse lugar aqui parecia mais espaçoso antes. Não dói suas costas ficar o dia todo encolhido aí?
– Quando as confissões são mais objetivas, não.
– Perdão, eu não queria…
– Perdoo. Mas por via das dúvidas, reze mais uma Ave Maria.
– Tá, deixa eu anotar aqui pra não esquecer. Você tem uma lanterna aí?
– E a mãe, como está?
– A minha?
– Não, a de Jesus.
– Não sei bem, vou perguntar para ela hoje quando for rezar…
– É claro que é a sua, menino!
– Ah, sim, ela está bem, padre. Na verdade, acho até que ela é que deveria estar aqui. Manda áudios de dois minutos no grupo da família o tempo todo. Ia ter que rezar uma semana pra pagar tanto pecado. E ela manda GIFs com corações explodindo em um iluminado “bom dia”.
– Rodolfinho, meu filho, isso é relativo. Faça suas preces e apareça mais nas missas.
– Tá bom, padre.
– Vá em paz. Em nome do Pai, do Fil…
– Hum, padre?
– O que foi agora, menino?
– Não sei como te dizer. Mas me ocorreu agora que eu… bem, eu esqueci como reza.
– Como é?
– É. Faz tanto tempo. Estava aqui recapitulando e me dei conta de que um Pai Nosso eu acho que até encaro, mas a Ave Maria eu confundo toda e misturo numa música do Roberto Carlos e emendo no Hino Nacional…
– Minha Nossa.
– Pois é, nossa Nossa.
– Volte para as missas, Rodolfinho!
– Eu vou, padre, juro que vou. Digo, não juro porque dizem que jurar também é pecado, mas, você entende, né? Olha, padre, seria muito abuso eu pedir para o senhor me mandar uma colinha com as rezas?
– Agora são cinco Ave Marias e cinco Pai Nosso para você.
– Parece justo. Pode ser por mensagem?
– Seis de cada, rapaz! Me dá o número do seu celular antes que eu me arrependa.
– Eu já te mandei um “oi” aí no Zap, padre. Me adiciona aí.
– Te respondo mais tarde com as rezas. Agora vá.
– Muito obrigado, padre! Eu juro que… quer dizer, não juro. Juro que não juro. Mas eu farei o melhor que puder para vir às… bem, vou tentar lembrar de me esforçar mais para estar aqui aos sábados.
– Aos domingos, menino. Agora vá. A fila do confessionário já está grande. Daqui a pouco quem vai pecar aqui sou eu.
– Sim, sim. Vou indo então.
– Ah, Rodolfinho?
– Senhor.
– Só uma coisa: está uma correria danada aqui na paróquia. Vou te mandar as orações por áudio, está bem?

(Escrito originalmente para o Estadão)

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