Já passamos por isso


Ano passado, li um conto que se passava durante a guerra civil espanhola. Lembro que enquanto mergulhava na história, me distraí pensando sobre o que, afinal, leva uma sociedade ao limite do enfrentamento nesse nível. A despeito dos interesses escusos dos senhores das guerras que lucram com a morte de inocentes, minha dúvida era sobre a gente aqui, o povo, que no fim das contas se permite e se empenha em tomar armas e partir para o combate contra seus semelhantes. E sobre as famílias, as esposas e filhos que ficam em casa e batalham para tentar levar a vida cotidiana enquanto a guerra acontece.

Por coincidência, estava na Espanha com minha família enquanto essa história me caiu nas mãos. Viajávamos em férias e era bonito observar as cores de Barcelona com as pessoas nas ruas, a arquitetura peculiar ornamentando as ramblas, as luzes do verão permitindo que o sol raiasse até dez da noite. A vibrante vida espanhola de hoje não remete em nada ao país que há menos de cem anos viveu uma guerra cruel que colocou em choque seus próprios cidadãos.

Dias depois, na mesma viagem, pegamos um táxi em Lisboa. Sentado no banco da frente, eu conversava com o motorista sobre a história de um monumento que vimos no centro da cidade. “Nada disso aqui é tão antigo”, disse ele, “a maior parte da cidade foi reconstruída depois do último grande terremoto”. Minha esposa quis saber a data. “Foi em 1755”, ele respondeu. Referências e relatividade, pensei na hora. Meu celular tem três anos de uso e eu já o acho pré-histórico e um monumento de quase trezentos é algo moderno na ótica daquele homem. Mas ele emendou uma observação que me trouxe de volta para a conversa: “Pois bem, assim vivemos até que venha o próximo. A verdade é que todos os dias acontecem pequenos tremores cá em Lisboa. Estamos sobre uma placa tectônica bastante instável. Então, pois que a qualquer momento…” ele impôs as reticências numa breve pausa, “…bem, nunca se sabe”.

À noite, no hotel, peguei o celular para me atualizar sobre as notícias do Brasil e passei a ler os jornais do dia. Rodei as redes sociais tempo o bastante para que a discussão política começasse a me deixar ansioso e desliguei tudo. Não é possível que alguém esteja feliz, eu acho. Mesmo quem se sente satisfeito com o resultado das últimas eleições, não me parece usufruir de um sentimento de vitória. Há ainda um clima de embate, as trincheiras ainda estão lá, com escudos levantados, com gente armada e balas na agulha. O clima tenso, o estômago embrulhado. Você também sente isso? A sensação de que alguma coisa ainda mais estranha vai acontecer ali na frente.

A distração momentânea com a leitura sobre a guerra espanhola e a imprevisibilidade iminente da natureza fazendo temer as terras portuguesas me fez olhar para aquelas cidades hoje e pensar que o ser humano, nossa espécie, até que passa bem pela história.

Guerras, pestes, furacões, ditaduras, governantes… há um tempo em que somos vítimas de circunstâncias ou escolhas que fazemos. Mas nos reerguemos, afinal.

Quando o ano de 2019 virou sua última noite, estávamos reunidos com familiares em um sítio no interior do estado e ninguém ali, na China e nem em qualquer canto desse planeta poderia imaginar que três meses depois estaríamos confinados em nossas casas temendo o contágio por um novo vírus. Um inimigo desconhecido, invisível, que nos colocou de joelhos. Diante dos nossos mercados assoberbados, dos objetivos profissionais, dos planos pessoais, do futuro breve que planejamos com nossas notas em bloquinhos de papel e que está agora todo rasurado. Por hora, não somos donos de amanhã nenhum. E acho que essa falta de controle, a imprevisibilidade, a incerteza sobre o futuro é que nos inquieta tanto.

No meio da pandemia (pandemia, nunca imaginei que usaria essa palavra de forma literal) tem sido difícil enxergar o outro lado, quando a vida voltará a seguir sua rotina. Seja lá como for rotina depois disso tudo. Porque certamente seremos pessoas diferentes. Eu espero, sinceramente, que sejamos pessoas melhores.

Há uma frase do arcebispo Desmond Tutu que sempre carrego comigo: “a maior prova de que somos, essencialmente, pessoas boas, é o fato de que o mal ainda nos escandalize tanto”. Tenho lido e assistido aos exemplos de solidariedade e generosidade de pessoas nesse momento. Gente que não se conhece prestando apoio psicológico, fazendo compras no mercado para seus vizinhos idosos, sacrificando o próprio tempo em família para cuidar de enfermos, doando recursos para os que neste momento carecem. Nessas horas, nossos filtros naturais nos fazem olhar para o que é mais importante. Certas atividades e compromissos que ocupavam nosso tempo e rotinas repentinamente deixam de ter importância. E o que mais desejamos é poder ter de volta os familiares e amigos em volta da mesa para um almoço no domingo.

A história nos mostra que em algum momento isso passará. Sim, vai doer, mas passará. Passará como a guerra civil espanhola, passará como o terremoto de Lisboa e talvez – assim faço preces – nos esqueçamos que vivíamos até então numa época em que nos separamos de gente querida porque tínhamos opiniões divergentes sobre, veja só, políticos. Essa fase passará. Olharemos para trás e lembraremos do que fazíamos da vida quando a pandemia passou por aqui e lembraremos com quem estávamos quando o mundo parou por alguns meses.

O salmista, na passagem bíblica que fica exposta no livro aberto na sala de nove entre dez avós católicas, diz que o Criador o acompanha mesmo quando atravessa “o vale da sombra da morte”. Um amigo sempre lembra que crises não são o vale da morte, são apenas a sua sombra. E uma sombra não tem o poder do objeto que a projeta.

Quando voltávamos para casa no avião, pegamos um vôo diurno. Eu tomava notas em meu caderno. Ao meu lado, Cecília assistia ao filme do Touro Ferdinando. É uma história infantil espanhola sobre um touro que não gostava de lutar em arenas. Ele gostava de flores.

No conto do Hemingway que eu lia, ele contava sobre um homem que abandonou o front de batalha. Do alto do monte de onde observava a cena, o personagem principal da história viu um soldado francês ser morto pelo exército pelo qual combatia. Uma morte estúpida de um homem que desistiu de um combate estúpido. “Ele enxergou o que era aquela guerra”, ele disse. Um combate idiota que não valia sua vida.

Vivemos tempos difíceis. Há conflitos, há crises diversas, uma pandemia e uma ansiedade sufocante no ar. Tudo hoje parece ter um jeito de fim iminente. Mas, passará, isso também passará.

Enquanto escrevia em meu caderno, Cecília me interrompeu. Ela subiu a janela do avião e me cutucou:

“Pai, olha lá fora. O pôr do sol!”

Quase me esqueci de que estávamos em um voo. Lá fora, as nuvens passam sob nós como se flutuássemos por cima daqueles algodões brancos. Logo acima, na linha do horizonte, em um risco laranja intenso, o crepúsculo.

Ficamos os dois ali espremendo as cabeças e olhando pelo quadrado transparente até o sol se apagar atrás da curva da Terra. Mais um dia, um de cada vez, assim a história se escreve.

Em um momento como este, o olhar fixo no horizonte talvez seja a única forma de enfrentar o que não podemos controlar.


(Publicado originalmente no Estadão)

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