Ficar como?


Fique em casa. Estamos ouvindo isso insistentemente nos últimos meses (pois é, já são meses). O lar, esse refúgio de prazeres familiares, se tornou também uma tentativa de proteção contra um inimigo invisível e poderoso que rendeu a humanidade e tem nos colocado em ameaça diária e em busca por cura, resposta ou qualquer sentido de direção ou perspectiva. Que não vem.

Mas o lar não foi refúgio para João Pedro, um garoto de 14 anos, negro, que morreu na última semana no Rio de Janeiro, dentro de casa, vitimado por um ataque de 70 tiros. Enquanto brincava.

Enquanto brincava com minhas filhas hoje, em casa, essa notícia me voltou aos olhos. Em meio a avalanche de notícias sobre a pandemia e a delinquência política que assolam nossa sociedade, esse fato, esse trágico, absurdo e chocante fato, passou como outros tantos. O menino virou uma estatística na conta de tantos números de mortos que se acumulam no Brasil.

Estamos ficando anestesiados, torpes com as contas de gente que morre por coronavírus, gente que morre no trânsito, gente que morre vítima da violência urbana. Pessoas, que se vão.

Nina, minha filha mais velha, tem 13 anos. Eu tenho falado muito para ela ficar em casa. E privilegiados que somos, temos no lar uma fortaleza. O João Pedro não tinha. Mas ele pensou que sim. “Estou dentro de casa. Calma”, ele disse para a mãe numa mensagem minutos antes de ser assassinado. Milhões de crianças em nosso país estão na mesma condição. Nós deveríamos protegê-los, não matá-los.

Esse vírus. O que nos inquieta e deixa ansiosos é que não podemos fazer muita coisa para combater um inimigo como esse. Ao menos não por hora. Mas, o que matou essa criança, esse menino, não foi vírus. Foi um mal social, foi uma escolha, foi fruto do tipo de sociedade que permitimos que exista quando promovemos a desigualdade, o racismo, a exclusão de nossos semelhantes do círculo de privilégios que habitamos. João Pedro foi mais uma vítima de um mal evitável. E os pobres e os negros que morrem viram estatística. E crianças assassinadas dentro de casa se tornam uma pequena nota segregada no jornal.

Enquanto brincava. Podia ser minha filha.


(Publicado originalmente no Estadão)

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