Sob este teto


Sob este teto circula o perfume das estações que se confundem nesses trópicos, das refeições, dos vapores dos banhos recém tomados, da cadela com banho atrasado, das meninas que se perfumam e preenchem o ar com sua graça, suas idades, nosso humor.

Sob este teto circulam as meninas, em suas idades e tempos, suas roupas do sono, de escola, de festa, de banho. Em seus humores de infância, adolescência e maturidade, em humores de filme, de fome, a consciência de que já tivemos dias melhores mas que ainda nos sobram mais, amanhã, quem sabe, quando tudo finalmente passar.

Sob este teto passa tanto. O microcosmo da nossa pequena existência, a história minúscula que é todo nosso universo, a eternidade de quatro nomes. Passamos tempo, passamos em branco, passamos a limpo, passam filmes e filmes na tv nas noites que passamos juntos. Teimamos em sonhar com nossos olhos mirando este teto.

Sob este teto, os dias começam e terminam. E a rotina cíclica se impõe, na rigidez ditatorial do relógio, do tempo, paradoxal tempo que não controlamos mas do qual somos senhores, brigando para domar esse animal selvagem. Dias de sol e dias nublados que sob este teto observamos pelas janelas que abrimos na alvorada.

Sob este teto reside tudo tudo tudo de que se faz necessária a vida, a minha. Mora aqui a história, as pessoas, habitam lembranças, sob este teto há dúvidas ruminantes e certezas claras. Há, aqui, portas rangendo e o consolo perene do que podemos chamar de lar.

Sob este teto, com bonecos espalhados pelo chão, com livros emoldurando paredes, retratos gastos colocados pelos cantos e cada vez mais plantas crescendo verdes em canteiros. Há roupas no varal, café esfriando nas xícaras, pernilongos zumbindo rebeldes seu terrorismo, risos infantis na paisagem sonora, há fragmentos da vida ordinária em cada gaveta que se abre.

Sob este teto o extraordinário se manifesta, o amor se move em brisas pelos corredores, na parede sólida da fidelidade, na existência que dança ao ritmo dos ponteiros do relógio. Sob este teto o sagrado se manifesta, eu tiro as sandálias e piso descalço em solo santo, grato e certo de que tudo de que preciso repousa em lençóis brancos e num altar erguido à vida que se eterniza aqui.

(Publicado originalmente no Estadão)

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