O Moleza


No campinho da rua de baixo tinha o Moleza. Quase todo bairro, naqueles tempos, tinha seu campo de futebol empoeirado. A grama, em vez de preencher o campo, o cercava e o espaço de jogo, que deveria ser verde, era aquele terrão vermelho que, nos dias de chuva, se tornava uma piscina de lama e nos dias secos, encardia as meias, cuecas e a sola branca do tênis.

Mas no campinho do nosso bairro, além de tudo isso aí, tinha o Moleza. Um sujeito alto, forte, negro, bigode curto contornando os lábios e que às seis da tarde se punha ali na lateral com um apito pendurado no pescoço, uma bola cheia sob o braço e organizava um treino para os meninos que chegavam e se postavam em círculo ao seu redor.

Ele morava na rua logo em frente, em um pequeno cortiço onde viviam outras quatro ou cinco famílias. Prestava esse serviço à comunidade de garotos que se aglomeravam, acotovelavam e sangravam as canelas para tentar jogar futebol. Vinte entre dez meninos naquele tempo sonhavam em atuar profissionalmente pelo seu time do coração. Mas ali, a gente só queria chutar bola e fazer gols. Ele, no entanto, queria formar homens.

Quando você passava pela primeira experiência de treino naquele time entendia finalmente o motivo do sarcástico apelido do Moleza. Ele era uma versão da periferia paulistana do Telê Santana. E entre seis e oito da noite, diariamente, meninos de 10 a 16 anos colocavam os pulmões pra fora naquele campinho poeirento, na esperança de que o treino intenso garantisse meia horinha de futebol no final e que, de algum jeito, fossem escalados como titulares do glorioso time Amigos da Vila Yara nos jogos com times de outros bairros que ele organizava nos fins de semana. Íamos, crianças e pais, a clubes e várzeas em outros cantos da cidade – quase sempre todos na caçamba aberta de algum caminhão – disputar glória ou fracasso nas manhãs de sábado.

Anos depois, entendi a que se dispunha aquele sujeito. Nunca soube seu verdadeiro nome, nem o que ele fazia da vida durante do dia antes dos treinos – havia um boato entre os garotos de que ele era jogador de basquete. Mas era louvável o esforço cotidiano para atrair algumas dezenas de crianças ansiosas para jogar bola, submetê-los ao esgotamento físico e promover a ideia de que poderiam ter uma vida melhor se tivessem o esporte como apoio. Quem treinava no campinho, seguia uma rotina fora do perigo das ruas e, se em algum momento começasse a faltar nos treinos, era inquirido por um Moleza no auge da contradição do nome que ostentava no canto do campo. “Vem cá! Quer ficar rodando na rua, é? Vai entrar pra malandragem? Já começou a fumar também?”. Era possível escutar o interrogatório que ele fazia com os pródigos quando regressavam cabisbaixos.

Cresci. Sem ter certeza sobre o momento exato, deixei de frequentar os treinos e, com novos amigos e horários, perdi o contato com o grupo. Perdi também a vontade quando a realidade dos fatos se impôs sobre meu sonho: mais do outras prioridades na vida, me dei conta de que futebol não seria o esporte em que eu conseguiria conquistar qualquer centímetro de auto-estima ou algum respeito dos outros garotos na dura vida daquelas ruas. Quem, afinal, dá o mínimo de atenção para o zagueiro perna de pau? Quem se orgulha – ou se conforma – em ser zagueiro aos doze anos? Mas devo ao Moleza e seus métodos o fato de, a despeito da explícita ausência de talento, eu ter conseguido me firmar como titular do time graças à dura disciplina dos treinos.

Quando me casei, fomos morar em outro bairro. Voltava aos finais de semana para visitar meus pais, mas já em outro ritmo, sem notar aquelas ruas com o olhar pedestre do menino, mas os do motorista desatento. Anos depois, porém, voltei a morar naquela vizinhança e hoje, todos os dias, passo em frente ao lugar onde era nosso campinho, que agora é só um terreno vazio, murado, incrustado no meio do bairro e cercado pelo mato não cuidado. Um desperdício. Às vezes, a lembrança da maratona extenuante de exercícios que fiz naquela poeira me vem à mente e penso no Moleza, cujo destino desconheço.

Passo o olhar pelo campinho vazio e não tem crianças brincando por ali, correndo pelo campo chutando uma bola, doutrinadas por apitos, sonhando em conquistar medalhas de latão nos sábados de manhã na categoria Dentinho e trazer a glória da vitória para o Amigos da Vila Yara ao menos por um dia. Glória que é, sobretudo, a alegria de encontrar um oásis de dignidade na crueldade da cidade. Aquilo era um resgate. O Moleza sabia.

As crianças da vila já não tem um professor, um herói discreto que sacrifique seu tempo, que empenhe suas noites depois de um dia cheio no trabalho para salvá-las do risco de estarem vulneráveis nas ruas, livres da pobreza em que ele mesmo vivia, para vender-lhes, com um discurso disciplinador, o sonho de dias bons, para empurrá-las para além das fronteiras do bairro, para longe do que ele sabia, mais do que qualquer um ali, que poderia ser um risco, um desvio na rota da inocência, uma antecipação do fim da pureza, a abreviação na construção da história brilhante, não necessariamente entre linhas e gols, que cada criança merece.

(Publicado originalmente em meu blog no Estadão)

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