O exercício das coisas que não quero


O exercício das coisas que não quero.

Quando acordar na primeira manhã do próximo ano, o novo e sempre aguardado ciclo, também conhecido como daqui a quatro dias, desejo ter a alma abastecida e a mente convicta das coisas que não farei.

Pudesse eu ter a garantia de um desejo atendido, seria a capacidade de declinar solenemente. Declinar apenas.

Se essa derradeira semana do ano serve para recapitulações, retrospectivas e resoluções, eu queria tão somente fechar os olhos para o que se foi por alguns dias. Porque, entre coisas boas e ruins, foi muito. Gostaria de aliviar a bagagem e me empenhar, sem culpa, das não resoluções de ano novo. Deixar fora o supérfluo e abrir espaço.

Dedicar tempo à minha não-lista de desejos (ou seria uma lista de não desejos?) aos planos não feitos, aos compromissos não assumidos, às promessas não prometidas. Doar, negar, andar leve sem a carga das dívidas empilhadas. É necessário saber que poder ser fraco é um poder. Porque também quero (só quero, mas sem compromissos, ok?) poder não ter. Quero o não querer.

Quero habitar um estado de imprevisibilidade, livre das amarras da agenda entupida, de planos mirabolantes, de listas de afazeres e eventos infinitos e abrir janelas para a mente já tão distraída conseguir divagar sem pressa. Devagar.

Porque talvez assim floresça o espaço fértil do desejo.

E quem sabe, venha à tona e o tempo se ocupe do que de essencial se faz cada dia e a vida ordinária se preencha desse punhado tão necessário e visceralmente existencial, tão constituinte do que somos, que é a presença, o toque, a constância transbordante daqueles que amamos. E que nos completam, de fato, do afeto que nos mantém vivos.

A esposa, um par de filhas, nossos familiares, amigos, a criançada correndo pela casa, um cachorro (para quem é de cachorros) nos rodeando as pernas. Essa dança, a sobreposição do que faz os dias terem propósito, faz a vida plena, que faz Deus habitar bem aqui e edifica as lembranças que constroem a memória. Histórias que lemos e compomos. E assim, por elas, o desejo de seguir em frente com esperança, esse raio de esperança, de que o novo ciclo sempre será melhor.


(Publicado originalmente no Estadão. Acompanhe os posts no Instagram e no Twitter)

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