A distância que nos separa

– Você viu que essa tv vem com dois pares de óculos de 3D?

– Jura?

– Legal, né? Vai dar pra assistir filmes com coisas saltando da tela para o meio da nossa sala.

E assim começou e terminou a breve história dos óculos 3D aqui em casa. Quase oito anos depois, eles repousam na mesma caixa em que vieram, sem nunca terem sido usados.

Não foi por falta de oportunidades, mas uma escolha conjugal. Afinal, a vida já é essa coisa multidimensional. Entre nós, achamos que aos filmes cabe o papel que se espera deles: uma boa história narrada em duas dimensões, contando e contendo a ficção que lhe compete e que nos tira da realidade por alguns minutos, mas sem nos fazer alheios ao que nos cerca. A tela era um escape.

Semana passada, depois da décima terceira reunião virtual no mesmo dia, de 15 horas consecutivas sentado em frente ao computador e de 13 meses com meu olhar concentrado nessa placa de LED para trabalhar, frequentar aniversários, assistir filmes, aulas e qualquer outra atividade que envolva pessoas que não vivem sob esse teto, bem, eu só queria que todas as telas ao meu redor caíssem estilhaçadas no chão como um vidro de Marinex.

Quando a pandemia começou, acreditei, como muita gente, que passaria logo. De forma ainda mais ingênua, cheguei a pensar que, a despeito da tragédia que se impunha, talvez a situação servisse para mudar o foco, para nos unir como espécie em torno de um adversário comum em busca de sobrevivência e cura, já que desde as manifestações de 2013, vínhamos acumulando bofetadas virtuais (bem, nem sempre só virtuais) nessa disputa política que vem se acentuando desde então e fez com que descobríssemos uma face de nossos semelhantes que parecia oculta.

Infelizmente, mesmo a ciência virou bola de disputa política. A verdade, os fatos (os inegociáveis fatos) passaram a ser questionados.

A besta que emergiu entre nós cavou um abismo que separou de forma dramática relacionamentos até então saudáveis e afetuosos. Descobrimos, pelas redes sociais, que pessoas que amamos podem ser chatas pra caramba. A partir de postagens de memes, discursos de ódio, notícias falsas e manifestações, começamos a rotular amigos e parentes em lados distintos do espectro político – como se, de fato, só existissem dois.

No entanto, até o começo do ano passado, ainda tínhamos as festas familiares, os almoços dominicais e encontros esporádicos traziam de volta a revelação de outros lados dessas pessoas. Ali, entretidos em temas mais complexos e, muitas vezes, mais importantes, éramos conduzidos ao sentimento comum de afeto e carinho que nos unia de forma mais profunda. Nessas horas, a vida, essa coisa 3D e complexa, quando saltavam coisas no meio da sala, impunha suas teias, nos convocava à realidade, trazia à tona as lembranças e memórias.

O encontro nos forçava ao toque, forçava o tempo diante do outro, na experiência que coloca à prova nossa valentia, nossas ideias, nos expunha ao debate e fazia escorrer pelo ralo alguns dos argumentos vazios que nutrimos. Olhos nos olhos, deixávamos de lado por um tempo nossas armas, escudos e máscaras e nos permitíamos ser envolvidos pelo abraço reconciliador e pela lembrança das semelhanças que nos unem.

Hoje, vestimos máscaras. Distantes uns dos outros, reduzimos nosso contato ao ambiente virtual, onde o outro é irritante demais. Durante a pandemia, a vida virou tela e só nos restou do outro o que é ruim. A vida agora não é mais tridimensional, é só tela, tela, tela, sem as histórias, as tramas, encontros ao acaso, sem chance para o toque, sem a possibilidade de estarmos face a face diante do outro para espremer nossas diferenças. A tela é um abismo.

É a distância que nos separa.

Nesses tempos, ligo a tv e só quero assistir comédias e filmes de super-heróis. Em 2D, claro. Sem fé nas autoridades, sem sinal de esperança ou de fumaça, tenho esperado ansioso pela chegada dos Vingadores ou do Flash para nos salvar. Ou do Sheldon. Porque o exercício do perdão, da compaixão e o esforço pela tolerância andam um bocado mais difíceis. Faltam abraços. Encarar o outro através de uma tela, exige uma nova dimensão de relacionamento, implica enxergar o que não queremos, porque pode revelar muito do que… de quem… de nós… A tela é um espelho.

(Publicado originalmente no Estadão)

Universos, ciclos e um arco-íris no final da tarde

“Olhai os lírios do campo.” (Mateus 6:28)

No ano em que a sonda Perseverance fez seu pouso em Marte para uma nova jornada de descobertas e explorações à procura de indícios de vida fora da Terra, eu entro em uma nova trajetória de descobertas e explorações neste pequeno mas inescrutável universo que chamamos de lar.

Nina, nossa filha mais velha, completou 14 anos há duas semanas, o que a põe, de acordo com estatutos, estatísticas, termos de uso de redes sociais e regras de projetos de Jovem Aprendiz, oficialmente em novo estágio de faixa etária e, por consequência, um passo mais longe das nossas asas. Dez dias depois, como acontece a cada doze meses – ao menos nisso temos alguma previsibilidade garantida nesses tempos – Cecília chegou aos seis anos, o que a põe, de acordo com a tradição das conquistas celebradas na infância, oficialmente no universo de pequenos indivíduos que usam as duas mãos para mostrar a idade (lembro que me senti um sujeito bastante maduro nesse dia). Como consequência, me ocorre que a partir de agora ela vai se recordar com mais nitidez dos eventos que se passam em sua vida e sua memória da infância passará a ser edificada tendo esses dias – esses loucos, insanos, pandêmicos dias – como pedra fundamental.

Os seis anos de Cecília em nada se parecem com os da Nina oito anos atrás, tal como os 14 da Nina em nada se assemelham à adolescência que Manu e eu vivemos nos anos 90. A vida de cada indivíduo é, obviamente, diferente em perspectivas, experiências, histórias e olhares. Mas, se em quase tudo isso é um ponto a ser celebrado, pela ótica da paternidade, preciso dizer, é jogo duro. Elas começam a habitar mundos distintos, insondáveis e novos para elas e para nós também. E a pergunta que mais fazemos nesses dias ao pensar em nossas filhas é: como podemos participar desse universo?

A pandemia que enfrentamos trouxe essa transformação integralmente para debaixo desse teto que habitamos. E se há o benefício de estarmos perto uns dos outros, testemunhando esse processo, há também o constante atravessar de linhas e fronteiras que deveriam ser respeitadas. Porque não tem, por enquanto, o espaço de vida que elas vivem lá fora, na escola, na rua, nas festas e passeios. É tudo aqui, a transição toda e essas mudanças todas, no quarto ao lado, no sofá da sala, aqui perto, em frente a uma tela. Elas, que entram em novas e desconhecidas etapas de suas vidas e nós, que avançamos os limites da individualidade enquanto formos forçados a trazer a vida inteira, toda rotina de nossos dias, para sentar conosco durante as refeições.

Se a existência no planeta nesses últimos meses mais parece essa coisa encapsulada, compacta, atemporal e difícil de navegar, os ciclos da vida, por outro lado, continuam acontecendo no cotidiano de nossa miudeza doméstica, nos gestos familiares, nas pequenas celebrações, no ritmo da rotina onde a mesa de jantar se tornou o epicentro de qualquer debate.

*

Pouco antes da pandemia começar, as coisas ainda eram diferentes. Houve um mês em 2019 – tipo, mil anos atrás – em que Nina me interpelou com um pedido. Ela queria que eu a ajudasse a andar de monociclo. Aconteceria uma apresentação de circo na escola e ela havia decidido, entre outras atividades, que atravessaria a quadra do colégio pedalando sobre aquela roda.

Acho que foi uma das últimas coisas que fizemos, só nós dois, fora de casa. Saímos algumas tardes nos finais de semana para ela treinar e treinar e, por muito tempo, tudo o que ela conseguia era dar duas ou três pedaladas antes de perder o equilíbrio.

Com o tempo, as pedaladas foram aumentando gradualmente e, numa manhã de sábado, ela já conseguia dar a volta no prédio. Confesso, hoje, que não achei que ela seria capaz e acho tanto quanto empolgado, fiquei surpreso – Nina, assim como eu, tem raras habilidades físicas ou esportivas. A certa altura, já confiante em seu treino, enquanto praticava em uma curva, o pneu deslizou e ela despencou no chão áspero. Tentei minimizar, bati palmas, incentivei para que ela levantasse e seguisse em frente, mas depois de alguns segundos ela continuava caída e de cabeça baixa. Eu me aproximei para checar se precisava de ajuda e ela levantou o rosto com os olhos cheios de lágrimas. Aquele olhar me encarando um pedido de ajuda, aquele nariz ficando vermelho, os lábios franzidos contendo um choro, o braço estendido pedindo apoio e eu agarrando aquele bebê de 1,60 no colo e lembrando imediatamente de cada um dos tombos no parquinho que amparei.

Ela mancou o resto do dia. Na manhã seguinte, pegou o monociclo e desceu para treinar. Dias depois, durante a apresentação do circo, assisti, vibrei e aplaudi na plateia enquanto ela atravessava a quadra do colégio vestida de palhaço e pedalando e se equilibrando sobre aquele monociclo. Ela estava radiante com a própria conquista e eu me sentia satisfeito em participar de seu pequeno projeto. No fundo, me dava conta de que minha presença, cada vez mais, seria menor. Em cada nova etapa, ela se torna ainda mais dona do controle, autora das decisões, responsável por escolher que caminhos deseja trilhar e pilota os veículos que bem decidir. São seus ciclos.

*

Cecília adora peixes. E cachorros, gatos, galinhas, pássaros, sapos, adora animais de qualquer espécie que lhe passe diante dos olhos e ao alcance das mãos. Quer apertá-los e trazer para viverem em seu quarto. Ela gosta de pedalar sua bicicleta e flutuar com seus patins e parece que procura explorar suas forças físicas até o limite daquele corpinho de pouco mais de um metro de altura. Não se contenta em não saber qualquer coisa. Então ela não sabe frear. A bicicleta, às vezes, avança até a guia e tomba. Os patins, com frequência, esbarram nos pés das cadeiras, portas, poltronas e no rabo da cadela dentro de casa. Não enxerga limites para o que quer que seja e, paradoxalmente, acabou de celebrar o segundo aniversário trancada em casa. Ela quer ter uma cauda de sereia.

Ela chegou depois. Quando nasceu, Nina tinha oito anos e em casa já existia a presença de uma irmã mais velha. Já éramos uma família, éramos pais e, ainda que cada filho traga consigo uma experiência completamente nova de sentimentos, perspectivas e mereça sua carga própria de afeto, Cecília não sabe, por exemplo, o que é ser filha única. Ela não viveu com a gente enquanto experimentamos a paternidade pela primeira vez. Os primeiros aniversários, primeiras leituras, dentes caídos, mergulhos… por consequência, muitas das primeiras vezes dela já eram a nossa segunda. O deslumbramento natural em seus olhos precisa ser praticado nos nossos. Então, a seu modo, ela passou a preencher um espaço próprio nesse ambiente e, até por isso, sinto que é ainda mais protagonista nessa relação. Vivemos com ela o jeito que é só dela. Enquanto nossa limitação só era capaz de conceber uma única forma de deslumbramento para essas experiências, Cecília cria suas experiências e nos convida para assistir.

Há algumas semanas, enchemos o pneu da sua bicicleta e saímos para dar uma volta. Era fim de tarde e o sol estava forte. Depois de meia hora correndo atrás dela pela rua, percebi que as perninhas já estavam começando a vacilar e as bochechas vermelhas. “Quer descansar um pouco, Cici? Quer um pouco de água?”. Ela nem respondeu, seguiu convicta como se enfrentasse o sprint final do Tour de France. Em certo momento, numa pequena curva em declive, ela perdeu o equilíbrio e o pedal escapou de seus pés. Eu corri para socorrê-la e tentar evitar o tombo, mas tropecei no pneu, rolei por cima dela e despencamos juntos. Por sorte, havia um gramado onde caímos entrelaçados.

Passado o pequeno susto, ela sorriu. Ainda estávamos no chão e ela se aninhou no meu braço e ficou por ali. Ficamos. Sentindo o sol, o cheiro da grama, o perfume do seu cabelo, mirando o céu e vivendo juntos a nossa primeira vez de uma coisa, qualquer uma, alguma lembrança que seja só nossa e que permaneça. Porque a partir de agora, cada vez mais, suas experiências se tornarão as memórias que carregará pela vida. São seus ciclos.

*

A cada nova etapa, aprendemos a ser pai e mãe, de novo e de novo e tentamos habitar no universo que elas habitam. Achando sempre que é cedo demais para qualquer coisa. Sentindo sempre esse medo de que seja tarde demais para alguma coisa. Dedicamos-lhes preces. Nesses dias cansados, já nem me expresso, porque me faltam… só miro um desejo íntimo e profundo, só me empenho em navegar os pensamentos no que espero, no que gostaria e dirijo intenções para um céu alegórico. Deus, é isso, por favor, obrigado, assim seja.

O mundo segue rendido diante de um vírus, paralisado, chorando com os que choram, celebrando a sobrevivência dos que ficam. A humanidade, aos tropeços, seguindo em frente, procurando curas, lançando foguetes e explorando novas fronteiras do espaço à procura de respostas e de vida. A vida, que a seu modo, continua acontecendo aqui, sob nossos tetos, onde residimos, onde resistimos, testemunhamos meninas se tornarem moças e o desabrochar da vida. E seguimos aprendendo a celebrar nossas pequenas conquistas, soprar velas e dançar com a existência que segue em seus ciclos.

Março acabou faz poucos dias. Como em todos os anos, o fim do mês é marcado pelo aniversário de nossas filhas e uma chuva torrencial nos fins de tarde. Em casa, é uma correria desesperada para fechar as janelas e portas para que não batam e a água não molhe o piso e as cortinas. São as águas de março de Tom Jobim que tomei para mim como forma de marcar o tempo, de contar os anos, essa água torrencial que não controlo mas a quem teimo em resistir. O tempo leva tudo, a tempestade lava tudo. Mas os fins de tarde por aqui, depois de a chuva molhar os jardins, têm findado com o sol do outono que se precipita, o cheiro da terra úmida, o canto das maritacas procurando repouso nas árvores, a luz alaranjada atravessando a sala e um arco-íris que às vezes se projeta no céu, deixando Cecília radiante, nossos olhares cativos e a alma finalmente serena com essas poucas certezas que ainda nos restam.

(Publicado originalmente no Estadão)

Vai passar

O tempo vai passar.
A pandemia vai passar.
A ansiedade vai passar.
O luto vai passar.
Mais um dia vai passar.
Um dia a gente vai voltar a passar…
…passar a roupa, passar crachá, passar o dia atrás de uma mesa.
Esse governo vai passar.
A revolta vai passar.
E o bloquinho vai passar na avenida.
Essa chuva vai passar.
A nuvem de azar a passar.
A nossa canção ainda vai passar na rádio.
Nosso casamento, de papel passado,
a história que passa diante dos olhos
e esse amor não passa nunca
A novela das oito vai passar de novo
e de novo vai passar.
Até a uva vai passar.
O cometa Halley já passou faz tempo, mas eu não consegui ver,
é com pesar.
As tardes vão passar.
Nas árvores vão pássaros.
O álcool gel eu vou passar.
Mantenha distância. Nem mais um passo.
Vai, gado, vai pastar!
O carro quebrado na esquina, é um Passat.
Mais um café? Eu passo.
Mais um perrengue pra passar.
O nome daquele livro? Vou te passar.
Essa ressaca vai passar,
mas não em um passe de mágica,
deixa que te passo um chá.
O sonho vai a passárgada.
O ônibus vai Passaredo.
A modelo já não tem passarela.
Meu time este ano passou em branco, errando passes, veio a passeio
e pelo jeito a má fase não vai passar.
Se a gente ficar passando tão perto,
o vírus vai continuar passando
e passando e passando e passando.
Passando.
Já passou da conta.
Mas vai passar.
Esse tempo vai passar.
Esse medo, esse aqui, vai passar.
A comida na geladeira, vai passar.
Os minutos de fama vão passar.
A senhora ali na rua, foi passear.
A noite escura da alma há de passar.
O tempo de um Brasil cheio de esperança é passado.
Mas vai passando,
num passo de cada vez.
Vai passar a década, o século, esse dia.
A história vai passar a limpo.
Sim, a gente vai passar por essa.

(Publicado originalmente no Estadão)

Fiat lux

À noite, quando chovia e acabava a luz em casa era quase como um susto. Todo mundo parava onde estava, todos sabiam o que tinha acontecido, mas ainda assim alguém se prontificava em avisar que ‘acabou a luz!’, quase gritando, como se a falta de energia afetasse também nossa audição. Era um caos, mas era bom. Ao menos era isso que as crianças achavam daquela interrupção momentânea da rotina. Tudo ficava limitado, o chuveiro ficava frio, a tv não funcionava, não tinha luz para ler gibis. A vizinhança inteira, sendo assistida pelas janelas, era aquela escuridão só. E com a escuridão, vinha um silêncio, tão incomum nas cidades. Tudo parecia uma pausa.

O breu reduzia também o ruído, até que, aqui e ali, os pontinhos de luz provocados pelas chamas das velas iam aparecendo. Mas a luz fraca nunca era o bastante para irradiar, eram só pontos amarelos através dos vidros e a certeza de que ao redor daquelas chamas havia gente que, de repente, teve sua noite modificada pela ausência de algo que, tão constante que era, até parecia parte da linha de existência cotidiana. E as miudezas de cada mesa de cada casa sempre distintas no fim do dia, agora eram praticamente iguais.

Abria-se espaço para conversas intimistas ao redor das velas, as historinhas inventadas, os jogos e teatros de sombras na parede, a ida ao banheiro no escuro, a comida fria, o cheiro de fumaça e da parafina queimando, o medo do quarto ao lado que agora parecia um universo desconhecido e a gente ali, juntos, contemplando o silêncio e a escuridão e adquirindo um outro tipo de percepção do tempo, sem saber quando a luz seria restabelecida (poderiam ser minutos ou horas), racionando os tocos de velas dispostas nos pires de café e os adultos regulando as caixas de fósforos que as crianças insistiam em querer riscar para ver a pequena explosão de pólvora brilhar diante dos olhos, fiat fux, que era então só um nome escrito na caixinha.

A incerteza criava esse estado de suspensão, já que a luz nunca voltava em horário programado. Era sempre a surpresa de notar o repentino acender de um cômodo ou dois da casa, onde os interruptores haviam permanecido ligados, como se o brilho de algo novo surgisse, como se o mundo de novo acendesse e a gente fazia ‘oohhh’, sorrindo aliviados, com alguém avisando que ‘a luz voltou!’ mas de um modo, algum modo, meio tristes com a interrupção daquele pequeno silêncio mágico. Porque se a luz abria cores para que pudéssemos enxergar com clareza, sua ausência revelava as paisagens que ficam sempre escondidas atrás daquele brilho todo que ofusca o silêncio.

(Escrito originalmente para o Estadão)

Com que máscara eu vou?

– Oi… Oi. Alô? Você tá me escutando?

– Oi, amor. Tô, sim. E você me ouve?

– Sim. Dá pra ver direitinho a câmera?

– Agora dá. Mas pare de tremer um pouco.

– Pronto. Só queria apoiar o celular aqui, assim, pra te perguntar uma coisa.

– O quê?

– Você acha que essa camisa ficou boa?

– Sim, tá bonita… você fica bem com essa cor. Põe aquela calça que te dei no Natal. Tem reunião?

– É. Coisa rápida. Aquele contrato que te falei.

– Sei.

– Agora, qual máscara combina melhor com essa roupa? Essa com bolinhas ou essa outra lisa, mais neutra?

– Hum, não tem nenhuma xadrez ou listrada? Bolinha fica muito infantil, seu evento é mais formal, é bom parecer mais sóbrio, né?

– Não tenho. Mas tenho aquela que parece um mosaico, sabe? Colorida. Acho que está ali no varal e…

– Não! Aquela não. Parece uma mini colcha de patchwork.

– Eu gosto. Foi minha avó que fez.

– Então.

– Vou com a lisa então.

– Mas essa lisa não está no mesmo tom da sua roupa. Aí fica destacando muito.

– E se eu comprar uma descartável na farmácia?

– Só se for branca… aquela do tipo verde piscina não dá, né?

– Verde Tiffany, ué.

– Não. Aquilo é verde parede de farmácia.

– Tá, esquece. E essa outra aqui? É das primeiras. Tem até um bico de pato na frente.

– Está desbotando. E essa puxa as suas orelhas pra frente.

– Acho que no fim dessa pandemia as minhas orelhas já estarão pra frente.

– E aquela preta com arame?

– Ela tem uma costura na boca e fico parecendo o Hannibal.

– Fica mesmo. E a que você ganhou da empresa? Tem até uma marca estampada.

– A máscara outdoor? Aquela embaça os óculos demais.

– Todas embaçam.

– A de bolinha não.

– Peraí, mas você vai de óculos?

– Vou. Tenho que ler um negócio lá na reunião. Letras miúdas.

– Então não daria para ser xadrez. Seus óculos são redondos.

– Vixe. Tem isso também?

– Me mostra aquela primeira de novo?

– Essa?

– Isso. Acho que, no conjunto, é a que fica melhor.

– É?

– Certeza. Eu acho.

– Então tá bom. Ou não… Obrigado pelas dicas.

– Hum, viu… só uma coisinha.

– Oi.

– A máscara é essa mesmo. Eu só mudaria uma coisa.

– O quê?

– A roupa.

(Publicado originalmente no Estadão)

Como se não houvesse ontem

Estava aqui pensando: e se 2020 não acabar? Vai que, em 31 de dezembro, noite de Réveillon, de repente o ponteiro do relógio vire meia-noite e ainda estejamos em 2020? Um dia 32, ou o primeiro dia de um novo mês ou, pior de tudo, um eterno 31 de dezembro cujo amanhã nunca chega.

Um tempo sem futuro. Tenho pensado sobre isso mais do que minha sanidade deveria permitir. Que sanidade? Afinal, dá para esperar qualquer coisa deste ano. E, tudo bem que, se a gente não ligar a TV ou fizer uma ceia, vai ser uma noite igual a qualquer outra noite de abril, junho ou outubro.

Comentei a respeito com o André, meu colega e ele riu. Mas só para depois confessar que uma outra ideia lhe ocorreu: “A gente poderia resetar esse ano”, ele disse, “tipo, vamos começar 2020 de novo e tentar outra vez? Aí a gente não contaria para os nossos filhos o que aconteceu na primeira tentativa”.

Ele parece mais otimista do que eu. Se no meu pesadelo nossa existência não tem amanhã, na dele só não teria ontem.

Apagar o passado não é ideia nova. Na ficção científica, em dramas com personagens arrependidos ou num cenário hipotético de, sei lá, acontecer uma pandemia (rá! Já pensou? Que absurdo! A humanidade, em pleno século 21, passar por uma pandemia. Isso jamais aconteceria, né?).

Em um ano como este, o que a gente pensa é seguir em frente, virar a página do calendário e criar para si a ideia de que uma virada de noite traz consigo um significado profundo de renovação e o fim repentino dos nossos problemas.

Outro dia – não me pergunte quantos, porque parei de contar os dias em meados de junho – estávamos em nossa bolha-móvel-motorizada-anti-corona passeando pela cidade quando passamos em frente a um restaurante. Havia uma multidão na calçada do lado de fora do estabelecimento. “Ninguém tá de máscara!”, exclamou minha filha de cinco anos num misto de indignação e inveja.

Na sequência daquele estabelecimento, vimos outros tantos nas mesmas condições. E na sequência das semanas, nas excursões exploratórias que fazemos em nosso carro para além dos muros do condomínio em que vivemos, cada dia mais gente nas ruas, nos bares, em lojas. Ignorando as evidências, as recomendações e o fato de que os índices de contágio e mortes por Covid-19 jamais chegaram ao patamar necessário para que esse tipo de flexibilização fosse possível.

“Essa gente festejando nas ruas”, disse minha esposa, “como se não houvesse amanhã”. Eu olhei com cumplicidade e emendei “ou como se não tivéssemos vivido ontem, né?”.

Como se não houvesse ontem.

Pararam os boletins alarmistas com estatísticas diárias no plantão do telejornal. Sumiu o mapa de mortes com estados e cores vermelha, rosa e laranja no topo das capas dos sites de notícias – a verdade é que o número de mortes não pára de subir, mas eles já não significam a mesma coisa para nossos ouvidos. Cansamos. Cansamos dessa tragédia, de empilhar cadáveres, de ouvir que morrem todos os dias no Brasil o equivalente à queda de quatro aviões lotados, que já morreram mais pessoas por Covid nos EUA do que americanos vitimados nos combates da II Guerra Mundial, que o vírus não poupa atletas, crianças e jovens. Cansamos das imagens de valas comuns cheias de corpos, das cenas de hospitais com pessoas entubadas de bruços, das fotografias de caminhões frigoríficos armazenando e transportando mortos. Estamos exaustos de saber que a vacina, mesmo aprovada, ainda deve demorar. Já deu nas ventas essa coisa de usar máscara. Que saco usar máscara! Não queremos ouvir que governo X comprou milhares de ampolas e governo Y garantiu a compra de freezers. Se a vacina é da China, da Alemanha, do Paraguai ou da Papua Nova Guiné. E quantos porcento dizem que vão tomar versus os quantos vírgula tantos porcento que teimam que não vão. A gente cansou, já faz tempo, de tudo isso. Os sobreviventes, os que até agora não foram infectados ou que ficaram doentes e se curaram, esses todos cansaram. Quem tem razão, cansou. E quem nunca ligou à mínima para os fatos, também.

“Survive is the new success”, disse o Seinfeld numa entrevista que escutei outro dia. Em um momento como esse, estar vivo parece mesmo uma grande conquista.

Mas, sobreviver, ainda que reserve a alguns o direito à alienação, não dá a ninguém o direito de minimizar as proporções da tragédia, de minimizar a memória dos que partiram, de desdenhar do sofrimento dos que perderam entes queridos, dos que sofrem confinados e dos que ainda sofrerão as consequências dessa pandemia, seja pelo efeito psicológico, seja pela crise em seus empregos e negócios. Não podemos voltar à rotina como se o amanhã não estivesse à nossa espera. E não podemos, tampouco, agir como se não tivesse havido ontem. Não é possível que a gente não vá aprender nada.

Já li em algum lugar que crises não provam caráter. Elas o revelam.

Estou certo de que no futuro, em algum momento, minhas filhas irão se referir a este ano como história, um ponto no passado. Só não sei ainda que julgamento a história reservará para mencionar a forma como teremos passado por isso. Ainda não acabou. Mas, se 2020 se tornar o epicentro de uma transformação importante na forma como consumidos, como habitamos, como tratamos uns aos outros, poluímos e exploramos o ambiente ao redor, talvez, ainda que dolorosa, a tragédia não terá sido em vão e isso nos ajudará a evoluir.

Faço assim uma prece. Com a esperança de que o amanhã será melhor para nossos filhos e que os próximos anos que virão, como a virada de noite que surge logo ali na esquina, serão o começo de um novo tipo de humanidade.

Por via das dúvidas, faço também uma crônica para nossos filhos, assim de reserva, programada para o dia 1 de janeiro sob título “Reset: bem-vindo a 2020!”.

(Publicado originalmente no Estadão)

Caixa de bonecas

Certo dia, ainda no primeiro ano de casados, a jovem esposa chegou do trabalho e notou três ou quatro sacos grandes de lixo cheios encostados na parede do pequeno corredor de entrada do apartamento.

“Oi. Tudo bem? Hum, o que é isso?”, ela perguntou enquanto se espremia na parede para desviar dos sacos. “Oi. Foi tudo bem no trabalho? Ah, isso? Eu separei umas roupas velhas para doar”, o marido respondeu enquanto diminuía o volume da tv. “Que legal!”, ela disse com um sorriso motivador. “Nossa, eu tô morta hoje. Vou tomar um banho e já volto”.

No trajeto de dois ou três passos que separava o corredor do quarto, ela voltou com o rosto intrigado e começou a abrir um dos sacos.

“Henrique?”

Danou-se. Pensei antes de responder: “Hum… Oi!”. Ela tirou uma calça verde do saco e, sem olhar na minha direção, perguntou: “Por que tem roupas minhas nesses sacos?”. Danou-se mesmo. Tentei me defender: “Ah, amor… são coisas velhas. Eu olhei no armário e o que tá aí você já não usa há mais de seis meses. Tem roupa que eu te dei no começo do nosso namoro. Nem estão na moda.”

Naquela noite, aprendi uma dura e definitiva lição sobre o prazo de validade das roupas. Naquela noite, minha esposa recém-casada passou a desconfiar que seu marido tinha TOC. Quase vinte anos depois, ela descobriu que eu tenho mesmo. Quer dizer, ela já sabia faz tempo. Quem descobriu fui eu.

E nada coloca mais à prova minha mania de organização do que as três doces mulheres com quem divido o teto do recém mobiliado apartamento para o qual nos mudamos há poucos meses.

Não é de propósito, juro com os pés juntos e simetricamente alinhados. Sou um compulsivo contrariado. Outras pessoas que conheço com manias semelhantes, usufruem raro prazer ao ver um armário clamando por ordem, simetria e processo. Eu sofro. Não quero arrumar, eu preciso. Quando me dou conta, já estou entretido dando um jeito de arrumar livros, armários, estantes e prateleiras pela casa. Mas eu reclamo, o que só piora as coisas para elas. No fundo, adoraria ser um bagunceiro, um desordeiro, relapso. Esse tipo de gente rebelde que não dobra as roupas antes de colocar no cesto de roupa suja, esses anarquistas que não compram várias roupas da mesma cor para poder facilitar a organização da gaveta ou esses desleixados que não ordenam os ícones dos aplicativos de seus celulares por ordem alfabética.

Manu já é vacinada contra mim desde aquele fatídico dia (e ela faz questão de me lembrar o caso com boa frequência como medida preventiva). E Nina, nossa filha mais velha, agora que é adolescente, já não tolera minhas intervenções em seu quarto – até porque ela chama aquele protótipo de cenário de reality show de processo criativo para fazer suas lições e artes. Só me resta a Cecília, que aos cinco anos não reage negativamente às investidas sistemáticas que faço em seu guarda-roupas e caixas de brinquedos. Ainda. Por outro lado, é justamente ela, Cecília, o nome da pequena tempestade que atravessa nosso doce lar todas as tardes, fazendo com que brinquedos e roupas e papéis e acessórios e lápis de cor e livros e cabos e fragmentos de comida se espalhem por todos os cômodos e cantos. Outro dia, no café da manhã, eu comi um pedaço de ração canina achando que era uma rosquinha de côco quebrada.

Eu pouco invisto no guarda-roupas. Concentro meus métodos nas caixas de brinquedos. Não basta dizer que aos cinco anos ela já acumulou mais brinquedos do que eu venho ganhando nos meus 39, é importante ressaltar que precisamos procurar um padrão taxonômico. São quatro caixas no total. A maior é dedicada a bonecas e acessórios, a outra para coisas de cozinha, a terceira armazena centenas de peças de Lego e na quarta ficam os jogos e aleatoriedades (coisas inclassificáveis, como um pote vazio de sorvete, uma gaita, massinhas e um carrinho). É claro que depois de algum tempo com tudo organizado – tipo, 30 ou 40 minutos – os brinquedos já estão fora das caixas e espalhados pela casa.

Na semana passada, entre uma reunião virtual e outra no meio da manhã e depois de me irritar com as notícias do dia, peguei um café na cozinha e, enquanto caminhava pela casa, passei em frente a porta do quarto dela e a ouvi brincando sozinha. Ela simulava uma conversa entre os personagens, com duas ou três vozes diferentes. “Oi, professora! Ah, sim, querida. Toma aqui, bebê. Ah, que cachorrinho mais lindo!”.

A boneca estava conversando com uma peça de Lego, enquanto uma folha de papel amassada era lentamente cozida no fogãozinho. Um bloco de massinhas fazia vez de príncipe e um copo d’água exercia um papel qualquer na cena. Havia bolinhas de algodão fazendo as vezes de espuma e um pote de xampu tinha sido derramado em uma panelinha.

Passei os olhos pelas caixas e as conexões que fazia entre cada objeto e seu suposto repositório, certo de que aquilo estava errado e precisava ser corrigido e… bem… fiquei ali observando e me dando conta, finalmente, de que na cabeça da minha filha objetos não são o que suas etiquetas determinam. Qualquer coisa é brinquedo e qualquer brinquedo é o objeto que ela quiser que seja. Sua imaginação infantil não determina a ordem regular que meu olhar impõe ao classificar e remeter cada item em sua devida caixa.

Lego não precisa encaixar com Lego… ela mistura peça de jogo de tabuleiro com boneca, uma pedra trazida do gramado com massinha e um pouco de macarrão crú. Então, uma casa, uma sala de aula, um planeta exótico e um universo todo se constroem na mente dela. Porque ela pensa de outro jeito, diferente dos padrões aos quais nos condicionamos e a “ordem natural das coisas” não é a ordem exata que eu calculei. E só então paro para reconhecer, contrariado, que as coisas não estão erradas só porque não estão do meu jeito.

Sentei ao lado da minha filha e ganhei alguns minutos mergulhando em sua fantasia enquanto brincávamos juntos.

Eu quero organizar o mundo. Para além deste microcosmo doméstico que prefiro acreditar que administro, também alimento a certeza de que outras coisas também seriam melhores se fossem feitas à minha maneira. Ou, ao menos quero acreditar que existe um jeito desse caos político-social-educacional-moral-sanitário-espiritual-ambiental serem geridos com alguma decência e ordem. Deus certamente não tem TOC — e eu apelo bastante para ele. Mas, tão pouco qualquer uma das figuras públicas eleitas para nos servir – alguns ainda se dizem seus porta-vozes ou escolhidos – e que deveriam colocar ordem nessa bagunça, parecem minimamente preparadas para colocar as coisas nas caixas que em deveriam estar.

O agravante é que, na maior parte do tempo, nós somos as coisas, os brinquedos com o quais eles se divertem.

Marionetes. É o título de uma crônica escrita por Rubem Braga que me veio à mente enquanto brincava com Cecília naquela manhã. Lá em 1948, ele escreveu:

“O menino ganhou uma grande caixa vermelha vinda de Praga. Dentro há um teatrinho de marionetes” (…) O menino, então, leva horas, sozinho, a mexer com os bonecos. Puxa-lhes os cordéis, faz com que briguem, se abracem, ou desmaiem. Depois chegam outros meninos e começa a representação. Não escreveu, nem sequer imaginou nenhuma peça. Vai inventando. E assim, ao acaso, lança os personagens no palco, pegando às vezes o que está mais perto, seja capeta, mulher ou guerreiro antigo. Inventa falas, improvisa enredos, cria situações terríveis que resolve muito naturalmente com sua prepotência de pequeno deus. Quando está cansado de um personagem, seja a Morte ou seja o Rei, faz com que outro lhe aplique uma surra e o expulse de cena – ou simplesmente o lança fora, sem explicar por que veio, nem por que se foi. Como tem uma vitrolinha francesa, faz com que tudo isso aconteça ao som de ‘Au clair de la lune’ ou Sur le pont d’Avignon’. E haja o que houver tudo acaba sempre muito bem como bonecos dançando e o dragão a abanar alegremente o rabo.

As crianças fazem demasiado barulho. Fecho a porta do escritório, volto a ler meus jornais. Pacientemente percorro os telegramas das agências, o noticiário da Câmara, as audiências do senhor presidente da República, noticiário de institutos, editoriais sobre a situação de Berlim, sobre o preço do café… E tudo isso é também absurdo; há enredos estranhos, personagens que entram e saem ninguém sabe por que, ministros, bailarinas, moleques…

Tenho vontade de ir lá dentro chamar o menino, entregar-lhe o Brasil e o Mundo, pedir-lhe para organizar, com todos esses bonecos terríveis e gaiatos, uma história mais coerente e mais divertida.”

Se há um jeito para as coisas se ajustarem, não está na forma como têm sido feitas por nós. Cecília – e nossas crianças – talvez tenha a resposta, tenha um caminho, com seu olhar infantil que não enxerga caixas, fronteiras, preconceitos, que não limita coisas aos seus rótulos e personagens às suas funções. E nossa luta deveria ser para que jamais perdessem essa perspectiva e para que pudessem crescer preservando seu direito inegociável de reinventar e narrar suas histórias.

Não creio que elas seriam capazes de salvar o mundo agora, mas certamente ele seria um lugar mais divertido. E bagunça por bagunça, eu ainda prefiro brincar de marionetes do que continuar sendo uma.

(Publicado originalmente no Estadão)

O livro chegou!

Queridos, o livro chegou por aqui :-)

Estou com meu exemplar em mãos, recém saído do forno, as cores vivas e aquele perfume convidativo das páginas ainda não desbravadas. A edição ficou mais bonita do que imaginei.

Já está à venda no site da Livraria Martins Fontes, da Cortez Editora, em pré-venda na Amazon e, a partir de 26/10, estará disponível na sua livraria favorita.

Falando em livrarias, o lançamento oficial será neste sábado. Se você está no grupo de pessoas que já têm se aventurado a frequentar lojas, fica aqui o convite: sábado (24/10), entre 14h e 17h na livraria Martins Fontes da Paulista (Av. Paulista, 509), os livros estarão lá para venda. Flavio Remontti e eu estaremos por lá autografando exemplares e tocando cotovelos com quem aparecer. Na loja, entrarão apenas cinco pessoas por vez e nós dois estaremos devidamente mascarados, distantes e alcoolizados (ops, “alcoolgelizados”), respeitando os protocolos necessários nesse momento que todos enfrentamos. Caso possa comparecer, será um grande prazer conversar e rever pedaços de rostos conhecidos.

Agora, o mais importante: se você comprar o livro e uma criança perto de você ler a história (a criança pode ser você, claro), ficarei muito feliz em saber o que ela achou. Me escrevam :)

Abraços e mugidos,
Henrique 🐮

PS 1: É a segunda vez que publico um livro e a sensação maravilhosa de ver o projeto pronto é a mesma (aquela história: ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Imagine isso tudo duas vezes?). Mas, é evidente que este não é, nunca, um trabalho solo. Eu preciso agradecer a tanta gente que certamente vou incorrer no erro de esquecer alguém importante (tentarei ser justo, mas já peço desculpas de antemão). Obrigado, sempre, à minha Manu (você é quem tem mais que minhas palavras). Obrigado também pela primeira leitura de tudo, pelo incentivo, pelo amor, por aturar minhas dúvidas e inseguranças e ideias e destemperos e ansiedade e por corrigir minhas vírgulas. Às minhas filhas, Nina (que disse que essa história valia a pena ser contada) e Cecília (que disse que o livro é só pra ela) que  que me fazem querer inventar e contar histórias só para ver algo novo brilhando em seus olhos. Aos meus pais e irmãos, por todos os livros, cadernos, lápis e pela infância que me deram. Aos familiares e amigos queridos que leem as bobagens que escrevo e dão grande prova de afeto ao ler, comentar, encorajar, passar adiante, dar espaço para os textos em veículos de mídia e ao enviar os originais para editores. Ao querido Cláudio Fragata, que acendeu a faísca que essa história precisava e a acompanhou até que ficasse pronta (mesmo nas horas extras em cafés da manhã nas padarias da cidade) e aos colegas da oficina que acompanharam a saga. Obrigado, claro, ao Amir Piedade, Elaine Nunes, Miriam Cortez e toda turma da Cortez Editora. E obrigado, Flávio, por topar embarcar nessa história e dar rosto, cores e vida ao Cuca.

PS 2: A Cortez é coisa fina. O livro tem booktrailer também:

https://www.youtube.com/watch?v=IBmtoeYv0Vo&feature=youtu.be 

Primeiras palavras

Estava sentado na cozinha tomando um café e conversando com a Manu quando Cecília, nossa filha mais nova, chegou com um pedaço de papel dobrado nas mãos.

– Pai, olha, eu escrevi uma história.

– Jura, Cici? Que máximo! Quero ver.

– Tó. Lê pra mim?

Olhei o conteúdo com atenção: uma página de caderno pautada cheia de rabiscos e bolinhas cuidadosamente enfileirados por quase 10 linhas. Tentei me esquivar.

– Filha, leia você. Foi você que escreveu, né? Quero saber o que tem na história.

Sem mais, ela rejeitou o papel dizendo:

– Pai… eu já sei escrever. Mas ainda não aprendi a ler.

De uns tempos para cá, ela tem reclamado que não sabe ler. Conhece as letras, junta umas sílabas aqui e ali, escreve nossos nomes e algumas coisinhas, mas vê a irmã mais velha devorando tijolos de 400 páginas no quarto à noite e corre com seus livrinhos em mãos indignada:

– Por que só a Nina sabe ler e eu não?!

– Você ainda vai aprender, Cici. A Nina já tem 13 anos, você tem cinco. É por isso que você vai à escola.

– Mas eu não quero aprender na escola! Eu quero saber ler hoje.

Ela não quer que a gente leia as histórias para ela. Ela não quer estudar o abecedário ou ser guiada por métodos fônicos ou globais. Cecília quer ler, por download, upgrade de software, osmose ou milagre. Às vezes, finge que sabe, pega um livro, senta no sofá, abre numa página aleatória e fica narrando em voz alta uma história inventada para si mesma.

Eu lembro dessa fase. A atitude dela nesses dias me leva num mergulho também em meus quatro ou cinco anos, na Era pré-Xuxa, nos Anos Bozo, pouco antes de ingressar na escola, e eu tinha inveja do meu irmão mais velho por dois motivos: ele tinha um par de Kichutes (cujo cadarço era tão grande que daria uma volta completa no quarteirão) e lia gibis sozinho deitado no sofá da sala à tarde. Minha mãe, ao lado dele, se entretia com agulhas de tricô e livros. E mais do que aquelas agulhas enormes tilintando e fazendo nós em fios de lãs, eram os livros que me intrigavam. Queria entender o que aquele monte de letras enfileiradas significava.

– Mãe, o que você está lendo?

– A gata triste – ela disse.

Achei estranho. Ela lia vários livros sobre aquela pobre gata infeliz. Anos mais tarde, escutei uma referência sobre os 79 livros publicados pela escritora inglesa Agatha Christie e dentro de mim um enigma pendente se resolveu finalmente.

Tal como minha filha, aprender a ler foi uma ideia fixa que me acompanhou na primeira infância. Sozinho, me distraia juntando as letras. Tenho lembranças nítidas do dia em que invadi o banheiro onde estava minha mãe com a descoberta que mudaria tudo dali para frente: “Mãe, se V com A dá VA e C com A dá CA, então se eu juntar VA com CA dá VACA?”.

Naquela hora, viajei dali para outro mundo. E um universo inteiro, novo, de páginas e histórias, se abriu para mim.

Mary França e Eliardo França foram os autores dos primeiros livros que consegui ler sozinho, mas “O Menino Maluquinho”, em uma edição que guardo até hoje, foi minha primeira conquista ao terminar um livro com mais de 20 páginas — o que soaria como concluir uma maratona para alguém acostumado a fazer caminhadas. Naqueles tempos, o Magnum, o Careca e o Ziraldo eram uma espécie de heróis para mim. O Ziraldo ainda é.

Desde então, não tenho lembranças de andar sem ter um livro como companhia.

Quando Nina nasceu, Manu e eu líamos histórias para ela à noite, a presenteávamos com livros de todo tipo e eu nutria um desejo quase obsessivo para que ela se tornasse uma leitora. Nunca disse isso em voz alta, mas sinto que minhas filhas podem até rejeitar todo meu legado como pai (devo ter algum, eu acho) mas não ser uma leitora voraz não é uma opção. E Nina não desaponta. No último dia dos pais, me escreveu uma cartinha onde, entre versos e votos, consta uma frase assim: “obrigada por me mostrar mundos em livros”. Ela tem desbravado seus próprios mundos agora.

Por isso, quando vejo a Cecília andando pela casa com uma pilha de livros nos braços, descaradamente extraviados do criado-mudo da mãe (maior vítima de seus assaltos literários) e tentando decifrar os códigos passando os dedos miúdos sobre as palavras naquelas páginas, penso com gratidão no privilégio de nossas filhas por ter acesso a livros desde cedo. E, com um sorriso incontido, penso no momento em que VA e CA se unirão em sua mente no estalo definitivo. Há muita coisa nisso.

Palavras são o principal instrumento pelo qual nossa espécie se comunica. E desde que surgiu há cerca de 6.000 anos, o registro escrito de experiências e ideias têm sido a principal forma de perpetuação de aprendizados, histórias, sentimentos e desejos. O que surgiu como forma de transmitir informações na parede de uma caverna ou no casco de uma tartaruga, é agora também uma expressão artística.

Minha filha não está errada. Ela quer compreender e desbravar novos mundos. Talvez entenda, de algum jeito, que há mistérios a serem decifrados ali. Que tem um rito de amadurecimento e um certo poder em saber ler. E certamente ela vai descobrir quão longe sua imaginação pode levá-la à medida que for tocada pelo poder das palavras e transportada para lugares novos através de um simples virar de páginas. O que, no caso dela, será quase um reencontro, porque a infância carrega em si essa pureza da expressão, um deslumbramento que a arte é capaz de nos dar e que perseguimos vida afora.

Há muito dessas crianças em nós. As que fomos um dia, as que desejamos ter sido, as que carregamos nas lembranças distantes. Há essas duas crianças ao nosso redor, nossas meninas crescendo, motivando nossas preces, nos deslocando do eixo e em quem projetamos tantas exageradas expectativas. Há o desejo de que possam crescer e se tornar mulheres felizes e saudáveis. Há em nós, mãe e pai, o sonho de vê-las seguirem a vida fora de nossas asas, para além do que nós seremos capazes de ir, voando mais alto do que o limite que alcançaremos e lendo Guimarães Rosa com a alegria estampada nos lábios.

Poucas coisas são tão belas do que testemunhar uma criança aprendendo algo novo. Talvez esse seja um presente inerente à paternidade. E nesses instantes, quando os olhos delas se abrem, acende em nós aquele desejo de que a partir dessas descobertas elas passem a viver suas próprias histórias, que se tornem protagonistas de sua existência, que sonhem e sonhem, que lutem por nobres causas, que criem para si novos reinos, novos planos, universos inteiros de possibilidades que surgirão à medida que descobrirem o mundo e traçarem, a seu modo, as primeiras palavras em uma página em branco.

(Crônica publicada originalmente no Estadão)

Meu novo livro!

Amigos queridos, estou lançando meu segundo livro.

Dessa vez uma história infantil, minha primeira incursão no ramo da literatura que mais gosto.

Desde que aprendi a ler, comecei a inventar histórias. E quando criança, tanto quanto gostava de ler e colecionar livros, também sonhava um dia poder escrevê-los. Carrego comigo a lembrança da primeira vez em que entrei em uma biblioteca e pensava, aos seis anos, nas pessoas que tinham escrito aqueles livros todos. Há alguns anos, o nascimento das minhas filhas e os momentos de leitura em família, resgataram da estante as minhas obras favoritas da infância – que carrego comigo ainda hoje – para serem lidos ao pé da cama com as meninas. Nessas noites, foram surgindo novos personagens, histórias e o resgate daquele desejo de escrever os livros que me um dia me levaram a gostar de ler.

O livro se chama “Nem que a vaca tussa” e conta a história do Cuca, um garoto de oito anos que mora em um apartamento com os pais e a irmã recém-nascida. O pai do Cuca mantém em um dos quartos uma rara e elegante coleção de brinquedos. Mas o menino não pode entrar no quarto, não pode chegar perto da estante, não pode, claro que não, nem encostar nos brinquedos… “nem que a vaca tussa”, diz o pai. E falando em vacas, no alto da estante, bem na prateleira de maior destaque, tem uma vaquinha de madeira que fica dentro de uma redoma iluminada. Cuca é um menino obediente, sempre seguiu as orientações do pai. Até que um dia…

O livro está sendo editado pela Cortez Editora, que teve a irresponsabilidade de me oferecer um contrato. E tem ilustrações primorosas do Flavio Remontti, o que já faz o preço de capa valer cada centavo. A partir da próxima semana, estará em pré-venda na Amazon e no dia 12/10 (Dia das Crianças) 20/10 disponível em todas as livrarias.

Na próxima semana, postarei mais detalhes. O que eu queria agora era poder compartilhar e comemorar essa novidade com vocês que, por curiosidade, misericórdia, interesse ou masoquismo, leem o que escrevo por aqui.

Até!
Henrique

ATUALIZAÇÃO (10/10): o livro está em pré-venda na Amazon (neste link) e no site da Cortez Editora (com desconto de 40% até dia 12/10).

Abra seu spam

“O que o mundo precisa, é de mais amor”, diria Cabo Daciolo.

Recebi, hoje, uma mensagem de spam que era uma nota de falecimento. Em geral, implacável com mensagens indesejadas, nesse caso não fui capaz de enviar para o lixo um email que trazia no título a notícia “NOTA DE FALECIMENTO”, em letras garrafais. Abri. E um certo sindicato do qual nunca ouvi falar comunicava, com profundo pesar, que Dona Fulana, esposa do aposentado Ilmo Sr. Fulano e mãe do caríssimo Sr. Fulano Filho, falecera no último dia 28.

E com essas duas frases breves acabava a nota. Praticamente um telegrama eletrônico. No rodapé da mensagem, constava o endereço do sindicato, localizado em algum bairro na cidade do Rio de Janeiro, e os links das redes sociais com o convite “Curta nossas mídias sociais e fique por dentro!”, convidavam festivamente. Resisti à tentação de ficar por dentro do que acontece no dia-a-dia daquele sindicato, mas só porque me distraí pensando em Dona Fulana.

Morreu como, a pobre? Com que idade? Foi durante o dia em algum hospital da cidade ou à noite, em casa com o marido? Estava acompanhada? Fiquei com os pensamentos presos ao filho que ela deixou, talvez alguns netos que o email tenha negligenciado e especialmente no marido aposentado, o Ilmo, agora sem sua senhora para dividir os longos dias da quarentena, as partidas de tranca, as sonecas depois do almoço. Ele também no grupo de risco, isolado durante a pandemia.

Era um nome, em um email que recebi, que chegou por engano. Mas aquele já não era um nome pelo qual alguém poderia chamar em voz alta hoje, ela era lembrança. Lembrança que não tive, rosto que nunca vi. Mas agora era dor, era saudade, memória para os dois homens que já não tinham entre si aquela mulher a quem pertenceram. Em mim, não doeu, evidentemente. Mas a reflexão da perda alheia, do sofrimento alheio, da saudade de alguém por outrem, me fez parar por uns instantes e desejar que fossem consolados por Deus de alguma forma.

“Quando os números viram nomes, as pessoas se conscientizam”, disse um amigo na última sexta-feira referindo-se às centenas de mortes diárias que somamos mais como relatório contábil do que obituário. Dona Fulana é um nome. As circunstâncias em que faleceu, não sei dizer, mas para quem sofre a perda, é a perda a causa da dor e não a doença.

Temos mais de cem mil outros nomes no país sendo registrados entre os que partiram vitimados por um vírus – por um vírus e pela negligência dos que minimizam seus efeitos. E temos esse número multiplicado por outros tantos de pais, mães, filhas, netos, amigos, vizinhas que perdem seus queridos neste duro momento que enfrentamos e que agora ficam sem poder se despedir, sem que haja um funeral em honra dos que se foram. O ritual de despedida entre seres amados, o choro final. Porque corpos não são coisas. E nós, seres humanos, temos na cultura do sepultamento algo que nos distingue de outras espécies.

E agora centenas de corpos são empilhados todos os dias em nosso país.

Há mortes inevitáveis, claro. Por Covid ou tantas outras tragédias, pessoas morrem todos os dias. Mas, não é possível tolerar uma morte evitável. Nenhuma. E qualquer gesto, atitude ou expressão que tenhamos que negligencie o cuidado com o próximo, o zelo pela vida humana, que exponha alguém a um risco que poderia ser evitado, é mais do que irresponsabilidade, é reduzir o valor sagrado da vida. É dizer que há pessoas que valem menos, que em favor de certos benefícios ou privilégios, é aceitável que se percam vidas. Isso é a barbárie, é a espécie humana perdendo sua humanidade em favor de ideologias e debates tolos.

Até que a morte bata à sua porta.

Não quero discutir as vidas de milhares hoje. Gostaria de conseguir discutir cada vida. Uma. A mãe. A esposa. Ela, que aqui deixou os que amava. Há um nome. Que poderia ser de alguém que divide o teto com você.

Precisamos lutar para evitar o sofrimento evitável. Precisamos falar de amor. É um pedido: ame.

Ame especificamente. Não dá para amar de forma genérica.

Ame alguém, ame cada um, cada uma – seja você o amor para uma pessoa hoje.

Com um gesto, uma palavra, com seu tempo, seu dinheiro, trabalho, com um ombro disponível, uma chamada de vídeo ou troca de mensagens.

Ninguém ama a humanidade toda. E é fácil amar a humanidade toda uma vez que isso não implica em ter que lidar com as falhas, diferenças, dores e contradições de um relacionamento pessoal.

Ame de forma específica e individual. Ame seu próximo. Seu próximo é todo aquele que você acha que é e ainda aquele que você gostaria que não fosse. Ame o sujeito sem máscara na rua, ame a ativista enclausurada, ame o idoso que sofre no hospital, ame a família ajoelhada na calçada à espera de notícias.

Ame uma pessoa hoje. Isso fará tudo melhor.

Não salvaremos o mundo de uma pandemia, mas poderemos salvar a vida de alguém durante esse caos em que estamos. Todos.


(Publicado originalmente em meu blog no Estadão)

O ano possível

Não está nada normal. Não tem “novo normal” nenhum. A gente ainda está no meio do caos, no auge de uma pandemia, pessoas morrendo às centenas diariamente e autoridades perdidas. Isso não vai ser normal para ninguém, nunca, eu espero.

Sempre fui ligeiramente anti-social. Grandes aglomerações de qualquer tipo, dessas com sete ou oito pessoas, me incomodam. Tenho dificuldade até em receber massagens porque me soa estranho a ideia de alguém encostando em mim e cutucando partes do meu corpo com os dedos. Mas nesses dias, confesso, tenho sentindo falta de uma muvuquinha.

Sinto falta de jogar aquele futebolzinho às quintas-feiras (que eu nunca joguei). Vontade incontida de ir a um show em estádio de uma banda qualquer, de fazer um passeio na rua 25 de Março no sábado pela manhã e navegar naquele mar infinito de pessoas descendo a Ladeira Porto Geral, de me acotovelar na feira do bairro para escolher tomates e tomar um ônibus sem a certeza de que não sairei pela porta dos fundos contaminado por algum vírus. Mas, só sinto falta porque não posso, só tenho esse desejo em alguma fantasia distante porque, de algum jeito, esse direito me foi privado. Estivesse qualquer dessas opções à disposição, eu pagaria 50 reais para me ver livre delas.

Este, no entanto, não é o ano do desejo, nem dos sonhos realizáveis. Este é o ano do que é possível, tempo de fazer o que dá, de aceitar um pouco menos, de fazer concessões e entender que estamos limitados. Só para não pirar.

É assim que tenho chamado esse momento aqui em casa e procurado consolar as meninas quando batemos com a cara na muralha da frustração. Porque não tem dado mesmo para planejar as coisas. E com isso, a gente vive um dia de cada vez – ainda que eles sejam todos praticamente iguais – como o casal da letra de Cotidiano, música do Chico que, a propósito, substituiu o som do alarme do meu despertador. Todo dia fazemos tudo sempre igual.

Esse é o tempo em que a gente realmente não vai dar conta. E teremos que aceitar o desapontamento de não ter a festa de aniversário, não ter sessões de cinema, não ter familiares em casa no almoço de domingo, de não poder ir e vir quando e para onde queremos. E vai ter que estar tudo bem assim, porque é o que tem pra hoje.

Leio que tem muita gente ficando ansiosa nesses dias. Eu, que já sou ansioso, estou me sentindo normal agora, quase conformado. E estou percebendo que mesmo antes eu já não dava conta, eu já não era capaz de abraçar todas as coisas que gostaria e nem realizar tantos planos quanto anotava no caderno. Mas eu me enganava achando que daria, sim, e de que era capaz. Agora, parece que a vida é só a realidade, só o presente, apenas a rotina matutina de selecionar o que é essencial a ser feito.

E quando olhamos para o lado e fazemos essa breve pausa para reordenar as ideias, notamos que na maior parte das vezes o que é essencial de fato estava aqui com a gente o tempo todo. E me resigno dentro de minhas limitações, compreendo a particularidade das circunstâncias e me conforto nos braços de minhas meninas.

O Ano Possível. É assim que tenho chamado este tempo para ter algum conforto pessoal.

Você, chame como quiser. Só não me diga que isso agora é normal.

(Publicado originalmente no Estadão)

Lucy está meio perdida

Lucy, nossa cadela, anda meio perdida. Mudamos de apartamento há pouco mais de um mês e ela ainda está estranhando o novo ambiente e os espaços da casa. Era uma mudança já agendada e precisou acontecer no meio da quarentena. Nossa sorte foi que a mudança aconteceu dentro do mesmo condomínio de prédios em que já morávamos. Ainda que sob o teto o ambiente todo seja diferente, a paisagem lá fora e a vida ao redor segue igual. Mas Lucy tem sete anos e todos os dias, quando descemos para caminhar, ela ainda se confunde com o lado para onde deve sair. E na volta, pobrezinha, força a condução do passeio para a porta do elevador do antigo prédio em que morávamos, cheira o tapete e me olha, esperando que eu aperte o botão (com o cotovelo, importante dizer) e suba para o lugar que ela acostumou a entender como casa. Está perdida ainda, coitada.

Desde a mudança, eu acordo no meio da noite e fico tentando lembrar onde estou. Na penumbra, reconheço as novas paredes pintadas de branco, a porta do banheiro e depois de alguns instantes me dou conta de que nos mudamos. A Manu pediu para que, na casa nova, trocássemos de lugar na cama. Quando viro para dormir, viro para o lado certo, com a barriga apontando para fora, mas ainda sinto que é o lado errado, porque o peso está sobre outro ombro. Então ouço um ruído e me dou conta de que a Lucy está dormindo (e roncando) na porta do nosso quarto. No outro apartamento ela costumava dormir na sala. Eu viro para o outro lado e tento dormir. Pobre Lucy, ela anda meio confusa.

Meus cotovelos, tornozelos e dedos dos pés estão doloridos. Já esbarrei involuntariamente em maçanetas, cantos de paredes, armários e pé da cama. Meti a testa em dois lustres diferentes e no canto de um armário da cozinha. Até a orelha – sim, a orelha esquerda – eu consegui bater na parede. Pois é, bati a orelha esquerda na parede ao tentar pegar uma caixa de papelão outro dia (e eu tenho sonhado com caixas de papelão, minhas roupas cheiram a papelão, meu perfume atual é um aroma que mistura pó, tinta Suvinil e caixa de papelão). E ainda que isso revele um bocado sobre pessoas distraídas, para mim é uma necessidade de adquirir uma adequada noção de ambiente, compreender limites e adaptar os sentidos à massa espacial desta casa em tudo nova. Lucy, nossa cadela, tem passado dias sem comer a ração ou beber água. Só abre exceções quando as meninas fazem pipoca e ela fica ao redor aguardando as sobras, mas me preocupa sua falta de apetite. Está meio desorientada, a Lucy.

Temos móveis novos, uma rede e uma estante para meus livros, armários e um sofá novo na sala. Há mais espaço agora do que antes. Pela primeira vez desde que começamos nossa família, fizemos uma reforma seguindo o sonho de casa que alimentamos nesses anos. Olho para essas novas superfícies, texturas e cheiros e, de algum jeito, fico esperando o momento em que os móveis serão presenteados com pequenas marcas descascadas dos patins que acidentalmente os ataquem, o sofá intacto ganhará manchas de chocolate e a porta da geladeira se encherá de ímãs com os telefones do açougue e da padaria e desenhos das meninas pendurados. Há certa expectativa, confesso, pela poeira sobre o móvel que envelhece, pelas manchas nos rejuntes, pela água escorrendo sob o vaso de manjericão na varanda. Mesmo minha obsessão por organização aguarda, levemente ansiosa, por brinquedos espalhados pelo chão da sala, por pias de banheiros desarrumadas e por ver meus livros sendo sequestrados da estante e distribuídos por outros cômodos (ato esse que, tenho certeza, é uma conspiração das três mulheres da minha vida para colocarem minhas obsessões à prova). Há nessas coisas, nesse acúmulo de desordem e tempo, o esperado processo que transforma uma casa em lar, o mero convívio em relacionamento e até um confinamento familiar em cumplicidade. Durante o dia, a Lucy passou a dormir em cima dos meus pés enquanto trabalho na escrivaninha. Entendi que ela precisa de algo que remeta à sua história, àquilo que é linear e imutável, para que se sinta acolhida. Cães são seres irracionais, afinal. Mas logo ela se adapta, a Lucy.

Ontem, acordei e vi uma nesga de sol invadindo o quarto pela janela. O céu de outono é bem azul. Tomamos o café, pendurei a rede na parede e Cecília quis subir para balançar. A Nina estava ouvindo música e Manu estava trabalhando na sala. Eu quis ler, peguei uns quatro livros e fiquei andando pela casa em busca de um canto onde me largar. Todos os cantos então me pareciam ótimos. O dia parecia finalmente ter um ritmo coordenado com o relógio que tilinta seus ponteiros dentro da mente da gente e as coisas todas estavam no lugar em que deveriam estar. O peito se encheu de repouso e a alma de gratidão. Estamos todos juntos e bem.

Minutos depois, calcei meu par de tênis, vesti a máscara, peguei a coleira e levei a Lucy para passear. Andamos pela rua aqui embaixo por quase uma hora enquanto o sol refletia sobre a pelagem dourada dela, que insistia em cheirar cada palmo de terra à sua frente. Na volta, quando nos aproximamos do antigo prédio onde morávamos, ela passou reto pela entrada e seguiu puxando a guia apressada até a entrada do nosso novo elevador. Subimos, entramos em casa, soltei a coleira e ela correu até seu prato para beber água e comer. Depois, encontrou um canto com sol na varanda, deitou por ali e dormiu.

Tudo está começando a entrar de novo no lugar para a Lucy.


(Texto publicado originalmente no Estadão)

O que ele disse?

– Olha isso aqui. Você viu isso, amor?

Entrei na cozinha pela manhã, ela estava preparando uma tapioca no fogão enquanto segurava o celular em uma das mãos. Virou o aparelho para mim e mostrou a tela. Limpei os olhos ainda embaçados pela noite de sono e vi que havia uma foto dele e uma citação.

– Não é possível. Você leu isso onde? É uma fonte de confiança? Hoje em dia tem gente fazendo de tudo para…

– Olha aqui! – ela me interrompeu – é do jornal que você assina. Você acha que eu tô lendo notícia falsa?

– Não é isso… É que é tão absurdo. É sério mesmo? Deixa eu ver?

– Toma – ela me deu o aparelho e se virou para fechar a tapioca na frigideira.

– Hum. É. Putz.

– Eu te falei… Agora, me diz, como assim?! Como pode? Como ele fala uma coisa dessas, como alguém diz um absurdo desses e ninguém fala nada, ninguém denuncia? Isso é uma manipulação descarada sobre o povo.

– E está esquentando, né?

– Esquentando nada. Continua tudo na mesma morosidade de sempre. Ninguém toma uma atitude.

– Tá esquentando a frigideira. Vai queimar o lado de baixo da tapioca.

– Ah, sim.

– Mas ainda tem muita gente que acredita no que ele fala. O que se pode fazer? Ele fala essas coisas e a base fiel continua lá, aplaudindo. É triste, mas isso tem muito eco no coração das pessoas.

– Aí é que está o problema. Ninguém faz nada, nunca. E as coisas continuam assim. O absurdo vai se normalizando. Ele fala um monte de barbaridades e, como nada acontece, vai esticando a corda.

– E o que a gente pode fazer?

– Passa a faca!

– Faca? Como assim?

– A faca, querido. Me passa a faca para tirar um pouco da manteiga aqui.

– Ah, sim. Tá aqui.

– E a gente achando que o que tinha antes era pior…

– Não gostou dessa marca de manteiga? Comprei achando que era a sua favorita.

– Não, estou falando dele.

– Ah. Que sonho era aquele? Eu dizia que antes a gente não tinha nada a “temer”. Saudades.

(Risos. Risos).

– Tinha que acabar com tudo “de uma” vez?

– Mas não foi de uma vez. Você lembra. Foi um processo. Foram fritando tudo aos poucos.

– Tô falando da manteiga. Você tinha que terminar tudo de uma vez? Não sobrou pra mim…

– Ai, desculpa.

– O problema é: o que dá pra fazer agora?

– Tem requeijão, se você quiser.

– Tô falando dessas declarações.

– Ah. Eu também fico perguntando se não é preciso uma atitude mais drástica.

– Passa a faca?

– Calma, não é pra tanto… Ah, sim, toma, tá aqui.

– Obrigado. Estava fora do meu alcance. Assim como isso tudo parece tão difícil de lidar. O que a gente consegue fazer senão ler essas coisas, se indignar e resistir da forma como sabemos fazer?

– E fazer a nossa parte para isso não contaminar as meninas, para que não sofram no futuro.

– Isso bem que podia acabar logo.

– Confesso que tô com medo é de não acabar tão cedo. A gente não sabe. Só acho é que não vai acabar bem. Como você falou: a corda está esticando.

– Sim. Você viu o que ele disse semana passada? Aquela fala sobre o outro assunto, o que pretendem fazer com a educaçãomeioambientedireitoshumanosagronegóciojustiçacidadaniatrabalhoimpostoseconomiatrânsito?

– Vi. É uma delinquência. Tem tanta coisa importante para fazer, o mundo empilhando tragédias, a sociedade sofrendo… Deveria haver um mínimo de coerência. Pelo menos agora, as coisas poderiam ficar um pouco mais…

– Doce.

– Não. Aí já é querer muito, né?

– Doce. O café ficou muito doce. Você já tinha colocado açúcar?

– Já.

– Putz, eu coloquei de novo.

– Esqueci de avisar, desculpe.

– E o que a gente pode fazer?

– Quer colocar um pouco de água quente? Vai ficar aguado, mas…

– Não. Sobre isso tudo, meu amor. O que a gente, aqui, pode fazer a respeito? Eles falam essas bobagens todos os dias, ficam postando e martelando isso na cabeça das pessoas. Parece aquele negócio do duplipensar. É tão evidente… e a gente não vai gritar que está errado, mostrar que é irracional?

– Mesmo ao usar a palavra duplipensamento é necessário praticar o duplipensamento. Porque ao utilizar a palavra admitimos que estamos manipulando a realidade; com um novo ato de duplipensamento, apagamos esse conhecimento; e assim por diante indefinidamente, com a mentira sempre um passo adiante da verdade.

– Oi?

– Você citou 1984. É isso o que o Orwell fala no livro sobre duplipensamento. Anotei no celular outro dia enquanto pensava nessa situação toda.

– E imaginar que o livro trata de uma distopia.

– Quem dera isso fosse só ficção… Lembra que te falei daquele livro do Amós Oz, “Como curar um fanático”? Ele fala isso. Diz que o fanático, no fim das contas, é um idealista, um ser cheio de boas intenções. Ele acha que tudo o que faz é para te salvar de algo que você não enxerga e só ele, alma caridosa e defensora do bem, é capaz de compreender.

– Então querem me salvar falando que vivo na cegueira?

– Utopia.

– Tem o quê na pia?

– Não é na pia. Eu disse utopia.

– Ah, o que tem?

– Acho que é pode ser disso que a gente precisa agora: construir nossa própria utopia. Começar a desenhar um mundo com o qual sonhamos e semear esse mundo aqui em casa, com as pessoas ao nosso redor. Porque se não dá para mudar o país todo, pelo menos a gente constrói um recomeço nesse núcleo, cuidando do microcosmo familiar, do nosso jardim. E aqui a gente pode ser e fazer o que quiser. Daqui, a gente estende generosidade, amor, compaixão e apoia a quem a gente puder e estiver ao nosso alcance.

(Silêncio).

– O que você acha?

– O Oscar Wilde disse que “o progresso é a realização de utopias”. Acho que você pode ter razão. É o que está ao nosso alcance agora.

– Me alcança o café?

– Sim.

(Suspiros esperançosos).

– Quer outra tapioca com manteiga?

– Quero, obrigado. Com manteiga e utopia.

(Silêncio).

– E se não der certo, o que a gente faz?

– Passa a faca?


(Publicado originalmente no Estadão)

Ficar como?

Fique em casa. Estamos ouvindo isso insistentemente nos últimos meses (pois é, já são meses). O lar, esse refúgio de prazeres familiares, se tornou também uma tentativa de proteção contra um inimigo invisível e poderoso que rendeu a humanidade e tem nos colocado em ameaça diária e em busca por cura, resposta ou qualquer sentido de direção ou perspectiva. Que não vem.

Mas o lar não foi refúgio para João Pedro, um garoto de 14 anos, negro, que morreu na última semana no Rio de Janeiro, dentro de casa, vitimado por um ataque de 70 tiros. Enquanto brincava.

Enquanto brincava com minhas filhas hoje, em casa, essa notícia me voltou aos olhos. Em meio a avalanche de notícias sobre a pandemia e a delinquência política que assolam nossa sociedade, esse fato, esse trágico, absurdo e chocante fato, passou como outros tantos. O menino virou uma estatística na conta de tantos números de mortos que se acumulam no Brasil.

Estamos ficando anestesiados, torpes com as contas de gente que morre por coronavírus, gente que morre no trânsito, gente que morre vítima da violência urbana. Pessoas, que se vão.

Nina, minha filha mais velha, tem 13 anos. Eu tenho falado muito para ela ficar em casa. E privilegiados que somos, temos no lar uma fortaleza. O João Pedro não tinha. Mas ele pensou que sim. “Estou dentro de casa. Calma”, ele disse para a mãe numa mensagem minutos antes de ser assassinado. Milhões de crianças em nosso país estão na mesma condição. Nós deveríamos protegê-los, não matá-los.

Esse vírus. O que nos inquieta e deixa ansiosos é que não podemos fazer muita coisa para combater um inimigo como esse. Ao menos não por hora. Mas, o que matou essa criança, esse menino, não foi vírus. Foi um mal social, foi uma escolha, foi fruto do tipo de sociedade que permitimos que exista quando promovemos a desigualdade, o racismo, a exclusão de nossos semelhantes do círculo de privilégios que habitamos. João Pedro foi mais uma vítima de um mal evitável. E os pobres e os negros que morrem viram estatística. E crianças assassinadas dentro de casa se tornam uma pequena nota segregada no jornal.

Enquanto brincava. Podia ser minha filha.


(Publicado originalmente no Estadão)

Já passamos por isso

Ano passado, li um conto que se passava durante a guerra civil espanhola. Lembro que enquanto mergulhava na história, me distraí pensando sobre o que, afinal, leva uma sociedade ao limite do enfrentamento nesse nível. A despeito dos interesses escusos dos senhores das guerras que lucram com a morte de inocentes, minha dúvida era sobre a gente aqui, o povo, que no fim das contas se permite e se empenha em tomar armas e partir para o combate contra seus semelhantes. E sobre as famílias, as esposas e filhos que ficam em casa e batalham para tentar levar a vida cotidiana enquanto a guerra acontece.

Por coincidência, estava na Espanha com minha família enquanto essa história me caiu nas mãos. Viajávamos em férias e era bonito observar as cores de Barcelona com as pessoas nas ruas, a arquitetura peculiar ornamentando as ramblas, as luzes do verão permitindo que o sol raiasse até dez da noite. A vibrante vida espanhola de hoje não remete em nada ao país que há menos de cem anos viveu uma guerra cruel que colocou em choque seus próprios cidadãos.

Dias depois, na mesma viagem, pegamos um táxi em Lisboa. Sentado no banco da frente, eu conversava com o motorista sobre a história de um monumento que vimos no centro da cidade. “Nada disso aqui é tão antigo”, disse ele, “a maior parte da cidade foi reconstruída depois do último grande terremoto”. Minha esposa quis saber a data. “Foi em 1755”, ele respondeu. Referências e relatividade, pensei na hora. Meu celular tem três anos de uso e eu já o acho pré-histórico e um monumento de quase trezentos é algo moderno na ótica daquele homem. Mas ele emendou uma observação que me trouxe de volta para a conversa: “Pois bem, assim vivemos até que venha o próximo. A verdade é que todos os dias acontecem pequenos tremores cá em Lisboa. Estamos sobre uma placa tectônica bastante instável. Então, pois que a qualquer momento…” ele impôs as reticências numa breve pausa, “…bem, nunca se sabe”.

À noite, no hotel, peguei o celular para me atualizar sobre as notícias do Brasil e passei a ler os jornais do dia. Rodei as redes sociais tempo o bastante para que a discussão política começasse a me deixar ansioso e desliguei tudo. Não é possível que alguém esteja feliz, eu acho. Mesmo quem se sente satisfeito com o resultado das últimas eleições, não me parece usufruir de um sentimento de vitória. Há ainda um clima de embate, as trincheiras ainda estão lá, com escudos levantados, com gente armada e balas na agulha. O clima tenso, o estômago embrulhado. Você também sente isso? A sensação de que alguma coisa ainda mais estranha vai acontecer ali na frente.

A distração momentânea com a leitura sobre a guerra espanhola e a imprevisibilidade iminente da natureza fazendo temer as terras portuguesas me fez olhar para aquelas cidades hoje e pensar que o ser humano, nossa espécie, até que passa bem pela história.

Guerras, pestes, furacões, ditaduras, governantes… há um tempo em que somos vítimas de circunstâncias ou escolhas que fazemos. Mas nos reerguemos, afinal.

Quando o ano de 2019 virou sua última noite, estávamos reunidos com familiares em um sítio no interior do estado e ninguém ali, na China e nem em qualquer canto desse planeta poderia imaginar que três meses depois estaríamos confinados em nossas casas temendo o contágio por um novo vírus. Um inimigo desconhecido, invisível, que nos colocou de joelhos. Diante dos nossos mercados assoberbados, dos objetivos profissionais, dos planos pessoais, do futuro breve que planejamos com nossas notas em bloquinhos de papel e que está agora todo rasurado. Por hora, não somos donos de amanhã nenhum. E acho que essa falta de controle, a imprevisibilidade, a incerteza sobre o futuro é que nos inquieta tanto.

No meio da pandemia (pandemia, nunca imaginei que usaria essa palavra de forma literal) tem sido difícil enxergar o outro lado, quando a vida voltará a seguir sua rotina. Seja lá como for rotina depois disso tudo. Porque certamente seremos pessoas diferentes. Eu espero, sinceramente, que sejamos pessoas melhores.

Há uma frase do arcebispo Desmond Tutu que sempre carrego comigo: “a maior prova de que somos, essencialmente, pessoas boas, é o fato de que o mal ainda nos escandalize tanto”. Tenho lido e assistido aos exemplos de solidariedade e generosidade de pessoas nesse momento. Gente que não se conhece prestando apoio psicológico, fazendo compras no mercado para seus vizinhos idosos, sacrificando o próprio tempo em família para cuidar de enfermos, doando recursos para os que neste momento carecem. Nessas horas, nossos filtros naturais nos fazem olhar para o que é mais importante. Certas atividades e compromissos que ocupavam nosso tempo e rotinas repentinamente deixam de ter importância. E o que mais desejamos é poder ter de volta os familiares e amigos em volta da mesa para um almoço no domingo.

A história nos mostra que em algum momento isso passará. Sim, vai doer, mas passará. Passará como a guerra civil espanhola, passará como o terremoto de Lisboa e talvez – assim faço preces – nos esqueçamos que vivíamos até então numa época em que nos separamos de gente querida porque tínhamos opiniões divergentes sobre, veja só, políticos. Essa fase passará. Olharemos para trás e lembraremos do que fazíamos da vida quando a pandemia passou por aqui e lembraremos com quem estávamos quando o mundo parou por alguns meses.

O salmista, na passagem bíblica que fica exposta no livro aberto na sala de nove entre dez avós católicas, diz que o Criador o acompanha mesmo quando atravessa “o vale da sombra da morte”. Um amigo sempre lembra que crises não são o vale da morte, são apenas a sua sombra. E uma sombra não tem o poder do objeto que a projeta.

Quando voltávamos para casa no avião, pegamos um vôo diurno. Eu tomava notas em meu caderno. Ao meu lado, Cecília assistia ao filme do Touro Ferdinando. É uma história infantil espanhola sobre um touro que não gostava de lutar em arenas. Ele gostava de flores.

No conto do Hemingway que eu lia, ele contava sobre um homem que abandonou o front de batalha. Do alto do monte de onde observava a cena, o personagem principal da história viu um soldado francês ser morto pelo exército pelo qual combatia. Uma morte estúpida de um homem que desistiu de um combate estúpido. “Ele enxergou o que era aquela guerra”, ele disse. Um combate idiota que não valia sua vida.

Vivemos tempos difíceis. Há conflitos, há crises diversas, uma pandemia e uma ansiedade sufocante no ar. Tudo hoje parece ter um jeito de fim iminente. Mas, passará, isso também passará.

Enquanto escrevia em meu caderno, Cecília me interrompeu. Ela subiu a janela do avião e me cutucou:

“Pai, olha lá fora. O pôr do sol!”

Quase me esqueci de que estávamos em um voo. Lá fora, as nuvens passam sob nós como se flutuássemos por cima daqueles algodões brancos. Logo acima, na linha do horizonte, em um risco laranja intenso, o crepúsculo.

Ficamos os dois ali espremendo as cabeças e olhando pelo quadrado transparente até o sol se apagar atrás da curva da Terra. Mais um dia, um de cada vez, assim a história se escreve.

Em um momento como este, o olhar fixo no horizonte talvez seja a única forma de enfrentar o que não podemos controlar.


(Publicado originalmente no Estadão)

Dia de caça

Embebido em álcool gel, eu saio valentemente à caça. Minha missão é chegar ao supermercado mais vazio e próximo de casa sem que meus dedos toquem superfície alguma que não as previamente imunizadas pelo meu jato de Lysoform, que desintoxica e perfuma (é… vá lá) quarteirões ao redor de mim. O cheiro é tão intenso que já confunde até o tempero da comida. Eu presumo que meu carro deve borrifar Lysoform pelo escapamento quando dou partida.

Faz dias que não saio do condomínio e, de repente, dirigir pelas ruas esburacadas e agora vazias do bairro parece um passeio de carruagem pela Champs-Elysees. Aceno animado e sorridente para os incautos que circulam pelas calçadas. Não fosse o mantra “dissstaaaannciiaaaaamm sssociiiaaallll” repetido em minha mente, teria oferecido carona a um desconhecido que subia a ladeira com dificuldade. Na virada do ano, eu sonhava em passar as próximas férias em uma praia do Nordeste, agora me deslumbro contando o número de postes entre minha casa e o supermercado.

Chego no mercado, imunizo cada centímetro do carrinho de compras e sigo para a missão que moveu meu traseiro do sofá até aqui: comida e mantimentos. Corrijo: comida, mantimentos e frascos de Lysoform.

Repentinamente, a obrigação que eu mais odiava ter que cumprir na vida – ir ao mercado – se tornou uma experiência magicamente satisfatória. Corredores longos, o piso liso, o cheiro das verduras. “Olá, amigo açougueiro!”, eu saudo. “Boa tarde, querida moça do caixa!”.

Eu, às cinco da tarde, flanando pelos corredores do Carrefour.

Consulto a listinha de compras anotada no celular. Limpo as mãos com o álcool gel que carrego o tempo todo no bolso em um pequeno recipiente. Uso tanto que minhas mãos já estão secas como uvas passas (e essa história de que tem aloe-vera no álcool é pura groselha. Pensei em reclamar no Procon, mas me ocorreu que, ganha a causa, seria um fornecedor a menos de álcool no mercado). Cada superfície ou embalagem tocada é uma nova apertada no potinho. Deviam criar uma embalagem que a gente possa pendurar no pescoço, eu penso. Ou na cintura, tipo uma arminha, que cospe álcool gel para eliminar coronavírus. Se fosse assim talvez o presidente apoiasse. Eu chamaria de X-Covid .40. Ponto quarentena.

Bom, as compras, meu Deus. Estou há 40 minutos no corredor de achocolatados admirando embalagens de Nescau. Paro no corredor de limpeza e acho 500ml de álcool gel pelo preço de uma garrafa de Barolo. Fico em dúvida. Se o teor alcoólico do vinho fosse 70+ eu até levaria, já que vem mais mililitros.

A mistura de aromas no corredor me ataca a rinite e começo a espirrar compulsivamente. Espirro naquela junta entre o antebraço e onde deveria ter bíceps. Quando olho em volta, estou sozinho e as poucas pessoas ao redor fogem me olhando escandalizadas.

Consulto a lista de compras novamente e confiro cada um dos itens no carrinho. Passo álcool no celular inteiro e ligo para a Manu para me certificar de que não esqueci de nada.

– Mas você não anotou o que era para comprar?

– Sim, tá tudo aqui.

– Então está certo, não?

– Não sei. Vai que esqueço de alguma coisa. Não quer algo mais mesmo? Não quer que eu vá no atacado, no hortifruti, na padaria, no depósito…?

– Não. Quero você aqui. Está perigoso, Henrique. Vem logo.

Passei quatro vezes por cada corredor do mercado. Um dos pés apoiados na barra inferior do carrinho logo atrás das rodinhas enquanto o outro pegava impulso para que eu pudesse deslizar pelos corredores, como se fosse um patinete, sentindo a brisa de ar-condicionado e liberdade me soprando no rosto pálido carente de vitamina D.

Já era quase noite quando meu passeio… hum, digo, minha árdua missão teve fim. Paguei a compra. A moça do caixa estava protegida por uma barreira de plástica, quase uma cabine blindada. E máscara branca. E ela tinha um pote de álcool gel ao lado maior que uma garrafa pet de Coca-Cola Super Família. Deveria valer milhões. Perguntei se podia usar.

Lembrei de uma pergunta da Cecília, minha filha de cinco anos: “Pai, quem passa álcool gel no álcool gel?”. Desde então sempre pego uma sobrinha e besunto o recipiente depois de usar. A moça do caixa me olhou torto. “No crédito, por favor. E não precisa do CPF”.

Guardei a compra no carro, repassei mentalmente as superfícies que toquei para ver se tudo estava devidamente… Eita, as chaves do carro! Besunto tudo.

É bem difícil ser um sujeito com TOC e distraído nesses tempos.

Descarreguei a compra em casa. Manú chegou para ajudar a guardar. Me sentia como meu antepassado primata voltando para a caverna com a caça da semana. Nunca nosso aprazível apartamento pareceu tanto uma caverna.

– Nossa, você demorou!

Dessa vez não dava para culpar o trânsito.

– Acho que perdi o hábito de ir ao mercado. De ir a qualquer lugar, na verdade.

Desempacota aqui, desenrola ali, guarda acolá, até que…

– Henrique, você não trouxe leite?

– Leite? Tinha leite na lista?

– Não sei. Mas o leite acabou. Tinha que trazer.

– Mas eu te liguei e… Ah, deixa, tudo bem, eu volto lá.

– Não, amor. Está certo. Deixa que eu vou. Você está cansado, já saiu e suas costas…

– Mas fui eu que esqueci.

– Amor, eu vou. É que eu… eu tô querendo mesmo dar uma voltinha.

– Não esqueça o álcool gel.

Às dez da noite, deslizando pelos corredores de laticínios sem lactose. Ventinho no rosto. A liberdade.


(Publicado originalmente no Estadão)

O fim dos finais felizes

Já faz tempo que meu time não ganha nada. Há quase uma década, estimo assim meio por cima (e nem quero ser exato sob risco de estar sendo otimista), as temporadas começam cheias de esperança e, lá pelo meio do ano, me conformo em torcer para que o time ao menos alcance os pontos necessários para se classificar para esse ou aquele torneio continental.

Parêntese: esse não é um texto sobre futebol, fique tranquilo. À exceção do Tostão aos domingos, quase nenhuma crônica sobre futebol merece ser lida hoje em dia.

Ontem à tarde, eu lia as notícias do jornal dominical enquanto um jogo passava na TV e uma tempestade caía lá fora. Meio distraído, cheguei a comemorar um gol do adversário, que jogava com camisa semi-idêntica à do meu São Paulo, enquanto o tricolor estava em campo vestido de azul (azul, meus senhores! Mas que raios?). No final, mesmo com certa anuência do juiz, perdemos de 1 a 0 para o intimidador Botafogo de Ribeirão Preto. A tempestade era em campo.

Não sei dizer porquê gosto de futebol. Aliás, confesso que nem gosto tanto assim. Mas tem algo mágico no esporte que me atrai: a expectativa, a atmosfera da arena, o trabalho coletivo, a estética das jogadas improváveis, a bola sendo manipulada com os pés, o clímax do gol. E tem também o imponderável, uma vez que por melhor que seu time esteja em campo – ou pior, no meu caso – nunca se pode ter certeza do resultado final de uma partida. Há dias maravilhosos, há dias de empate e há, inevitavelmente, dias de derrotas trágicas.

O São Paulo tem caprichado em acabar com essa imprevisibilidade, garantindo que tudo vá mal quase sempre. Mas nada disso impede que, semana após semana, meus olhos estejam ligados na tela da TV ou do celular para alimentar a esperança de que ao menos naquele dia a tarde de domingo acabe em um final feliz.

Como consolo, tenho dito à mim mesmo que meu time é uma equipe de vanguarda. E aí, prolixidades à parte, caímos tardiamente no que gostaria de escrever hoje: me parece que há em nossa cultura, por esses tempos, uma espécie de celebração da desesperança. Os finais felizes, no cinema, nas séries e na literatura, se tornaram sem valor, impensáveis para a boa arte, sob argumento de que não refletem a realidade da vida. Porque a arte que imita a vida agora precisa ser bruta, ter tragédias que nos cicatrizem, deve nos fazer sorrir da melancolia, estar carregada de um senso de que há, sim, altos e baixos na vida, mas que na média as coisas acabam mal e que podemos nos contentar assim, resignados, em esperar que tudo seja um grande “mais ou menos” cheio de picos e abismos.

É o fim dos finais felizes.

Eu gosto de histórias que acabam bem. Não porque espero que a vida seja emoldurada por um arco-íris o tempo todo ou que manhãs ensolaradas aconteçam rotineiramente, mas porque prefiro ser um sujeito que alimenta esperanças, porque acredito em grandes sagas de redenção, no poder do afeto e da gentileza, no tetracampeonato do São Paulo na Libertadores, na capacidade humana de superar tragédias, perseguir sua felicidade e realizar utopias.

Mais cedo, passeávamos em uma loja e Cecília se encantou com uma par de asas de fadas colorido e cheio de lantejoulas que poderia ser vestido sobre a roupa. “Compra, pai? Por favor, eu adorei. E olha, ainda vem com essa tiara que tem um chifre de unicórnio! Compra? Porfavorzinho!”. Não resisti. Paguei pela fantasia e ali mesmo, na fila do caixa, ela vestiu o aparato e saiu desfilando orgulhosa pelo shopping center. As pessoas apontavam e riam, a mãe tirou fotos para registro, eu pedi para usar a tiara e a Nina andava um passo atrás com um pouco de vergonha.

– Nina, pare de rir! – ela taxou – E o papai tá é com inveja.

Ela voltou realizada para casa. Como chovia, a programação do domingo terminou em volta do sofá. Comemos, assistimos TV, esquentamos a pizza de ontem para o jantar e eu a levei para dormir, ainda com asas e tiara, enquanto Manu e Nina jogavam algo na sala. Na cama, ela me contou de um sonho que teve na noite anterior em que uma flor gigante nos perseguia e tentava nos engolir.

– Mas eu salvei todo mundo, papai.

– Sério, filha? E como foi? Você deu um golpe e cortou o caule dela?

– Não, pai, nada disso. Vocês todos saíram correndo e eu voltei e fiz um carinho nela. Aí ela acalmou.

Fadas.

Ela abraçou meu braço, pediu para eu fazer uma oração, deu dois bocejos seguidos (desde bebê, ela boceja de forma escandalosa) e pediu que eu contasse uma historinha. Contei sobre minha festa de aniversário de cinco anos, no dia em que resolvi me fantasiar de palhaço.

Cecília riu da história, deu boa noite, virou para o outro lado da cama e dormiu. Em poucos dias, ela fará cinco anos. O tempo não tem passado em ritmo diferente da intensidade com que ela vive e me pego revivendo sensações de quando a Nina, oito anos atrás, passava por esse mesmo momento. Ainda no shopping, ela me disse que vai querer se vestir de fada na festa de aniversário. A Nina, poucos dias antes dela completará 13 anos. E nessa idade, fantasia deixou de ser uma vestimenta e passou a ser um mundo todo em que ela habita às vezes, nos desenhos, nas leituras, nos poeminhas que escreve e no desejo que lhe assalta de que a vida continue sendo inocente. Às vezes.

Sei que isso não é um final. Manu e eu ainda estamos no começo da nossa jornada e muito da vida ainda está por vir. Mas até aqui, temos sido felizes (bem, falta meu time ganhar um campeonato na temporada, para variar). Nesse processo todo de um dia após o outro, da rotina doméstica em que vamos construindo nossa história juntos, cada ano tem sido melhor que o anterior e temos motivos para sorrir e ser gratos.

E porque temos um ao outro e ainda essas meninas crescendo ao nosso redor, porque temos um cão que nos lambe os pés sob a mesa enquanto comemos, porque há um teto sobre nossas cabeças e porque em nossa despensa há o bastante para viver com dignidade. E porque há Deus, nós temos esperança no triunfo do bem, na redenção, no sorriso banguela de pequenas fadas que são o futuro de um mundo tão carente de sonhos, fantasias e de sua insondável pureza.

E porque há uma revoada de pássaros cantando lá fora enquanto se acomodam nas árvores depois do fim da tempestade, somos autorizados a acreditar que nossas histórias podem ter finais felizes. Como aqui mesmo estaria uma, se um ponto final porventura aparecesse agora.

(Publicado originalmente no Estadão)

Confessionário

– Padre, eu pequei.
– Pois não, filho. O que aconteceu?
– Na última semana, eu precisava mandar uma mensagem no WhatsApp para uma pessoa e, mesmo estando livre para digitar, eu mandei um áudio. Perdão, padre.
– Hum. Não estou certo de que isso seja pecado.
– Se não é pecado, deveria. Eu sinto um peso…
– Bom, se você…
– Porque, veja, a pretexto da minha falta de tempo, eu ocupo o tempo do outro, que precisa parar o que está fazendo para me ouvir. Acho um abuso.
– Entendo. Nesse caso, reze um Pai Nosso e uma Ave Maria e fique em paz.
– Só isso? Uma reza de cada já paga um áudio de Zap?
– Só. Não sei que barganha você pretende fazer, mas não é assim que as coisas funcionam.
– É que, nesse caso, acho que o pecado meio que compensa. Eu estava me sentindo tão mal. Vocês não tem um catálogo com número de rezas versus infrações para calibrar melhor isso?
– Veja bem, Rodolfinho…
– Ah, puxa, você lembra de mim, padre?
– Lembro, menino, claro. Quando foi a última vez que você se confessou?
– Foi na primeira comunhão.
– Jesus. Isso tem o quê, uns dez anos?
– Vinte e poucos, padre.
– E desde lá o único pecado que te fez sair de casa para se confessar foi esse?
– É, padre, sinto muito. Mas eu estava com a consciência que não me aguentava. Aliás, esse lugar aqui parecia mais espaçoso antes. Não dói suas costas ficar o dia todo encolhido aí?
– Quando as confissões são mais objetivas, não.
– Perdão, eu não queria…
– Perdoo. Mas por via das dúvidas, reze mais uma Ave Maria.
– Tá, deixa eu anotar aqui pra não esquecer. Você tem uma lanterna aí?
– E a mãe, como está?
– A minha?
– Não, a de Jesus.
– Não sei bem, vou perguntar para ela hoje quando for rezar…
– É claro que é a sua, menino!
– Ah, sim, ela está bem, padre. Na verdade, acho até que ela é que deveria estar aqui. Manda áudios de dois minutos no grupo da família o tempo todo. Ia ter que rezar uma semana pra pagar tanto pecado. E ela manda GIFs com corações explodindo em um iluminado “bom dia”.
– Rodolfinho, meu filho, isso é relativo. Faça suas preces e apareça mais nas missas.
– Tá bom, padre.
– Vá em paz. Em nome do Pai, do Fil…
– Hum, padre?
– O que foi agora, menino?
– Não sei como te dizer. Mas me ocorreu agora que eu… bem, eu esqueci como reza.
– Como é?
– É. Faz tanto tempo. Estava aqui recapitulando e me dei conta de que um Pai Nosso eu acho que até encaro, mas a Ave Maria eu confundo toda e misturo numa música do Roberto Carlos e emendo no Hino Nacional…
– Minha Nossa.
– Pois é, nossa Nossa.
– Volte para as missas, Rodolfinho!
– Eu vou, padre, juro que vou. Digo, não juro porque dizem que jurar também é pecado, mas, você entende, né? Olha, padre, seria muito abuso eu pedir para o senhor me mandar uma colinha com as rezas?
– Agora são cinco Ave Marias e cinco Pai Nosso para você.
– Parece justo. Pode ser por mensagem?
– Seis de cada, rapaz! Me dá o número do seu celular antes que eu me arrependa.
– Eu já te mandei um “oi” aí no Zap, padre. Me adiciona aí.
– Te respondo mais tarde com as rezas. Agora vá.
– Muito obrigado, padre! Eu juro que… quer dizer, não juro. Juro que não juro. Mas eu farei o melhor que puder para vir às… bem, vou tentar lembrar de me esforçar mais para estar aqui aos sábados.
– Aos domingos, menino. Agora vá. A fila do confessionário já está grande. Daqui a pouco quem vai pecar aqui sou eu.
– Sim, sim. Vou indo então.
– Ah, Rodolfinho?
– Senhor.
– Só uma coisa: está uma correria danada aqui na paróquia. Vou te mandar as orações por áudio, está bem?

(Escrito originalmente para o Estadão)

Sala de espera

Eu tento ficar alheio ao que se passa ao redor mas não consigo. Comprei fones de ouvido novos, desses sem fio e com recurso que cancela o ruído ambiente. Um luxo, uma bolha de isolamento social e de imersão. Mas não consigo. Eu interrompo a música, dou pause no podcast, porque me interessa mesmo é saber o que conversam as duas idosas sentadas no banco à minha frente na sala de espera do consultório.

É uma sala grande, eu conto sete sofás de couro marrom e aquele clima de lugar onde se fumava antigamente. Elas falam sobre a chuva que vai cair daqui a pouco, sobre a última visita à doutora, a médica que também cuidou da irmã de uma delas e sobre a dificuldade de andar pelas calçadas do bairro nesses dias.

Há gente no celular também. É epidêmico. A maioria dos que se espalham nos sete aconchegantes sofás, está submersa nas pequenas telas, passando os dedões pelo vidro.

Mas há um homem, talvez da minha idade, sentado quase à minha frente e ele não usa um celular. Ele não faz nada. Está parado, o olhar vagando pela sala, as vezes se fixando num ponto da parede, em uma pessoa, no chão por longos instantes. E eu me interesso ultimamente por observar pessoas que não usam celulares em salas de espera. Será que o pensamento está ocupado demais com coisas mais interessantes ou a mente está tão vazia que nem se dá ao trabalho de pensar em enfiar a mão no bolso e sacar o aparelhinho? Do que se ocupam as pessoas que não ocupam cada instante de sua existência com algum estímulo digital, que não alimentam o cérebro com a dopamina liberada pela recompensa de clicar, clicar e clicar o dedo em algum link?

Hoje, a caminho da clínica, o carro parou no semáforo e fiquei olhando um sujeito que guardava a porta de um comércio. Sentado numa cadeira virada para a rua, jornal jogado sobre o colo, a cabeça recostada na parede. Ele dormia. Centenas de carros e pessoas, patinetes e ônibus, bicicletas e motos passando logo em frente. E o sujeito dormia como minha filha quando desmaia no sofá da sala. Alguém então buzinou longamente. Era o carro atrás de mim avisando gentilmente que o semáforo estava verde e o carro da frente já estava uns 200 metros adiante.

A recepcionista chama a idosa para sua consulta. “Dona Rosa”, ela anuncia. A senhora não escuta. “Dona Rosa, pode subir”, ela repete. Mas a mulher não se move, continua na conversa truncada com a colega. “Dona Rosa!” outra vez e a amiga escuta. “Te chamou, Rosa”, “Oi? Não, não chamou. Não escutei”, “Chamou, sim, vamos lá”, “Será que chamou?”, “Chamou. Vamos lá ver”. Levantam as duas, com a vagareza de quem se desdobra. “Moça, você chamou?”, ela pergunta para a recepcionista. “Dona Rosa? Chamei, sim. Pode ir”. “Ela chamou mesmo”.

(Continua lá no Estadão)

Turbulências

Há gente no mundo – e conheço algumas – que apreciam certa melancolia e vivem com certo conforto em meio à tristeza. Há outros – e conheço muitos – que se não gostam da tristeza em si, gostam do escudo que ela se torna enquanto pretexto para sua imobilidade. Mas há aqueles, entre os quais me encontro, que tem dificuldade enorme em lidar com a contrariedade e a tristeza que certos fatos carregam, que ao engolirem as circunstâncias adversas o fazem deixando-nas ferir o íntimo e arranhar o esôfago. Qualquer garoa, para esses, vira tempestade.

Falando em garoa, fui de São Paulo ao Rio dia desses. Uma breve viagem a trabalho. Na volta, deixei o Rio quase ensolarado (quase, porque pousava apenas uma luz tímida sobre a cidade nesse dia) e me pus de volta para casa.

No trajeto, o avião planou em céu azul sobre as nuvens e eu, como toda vez que encaro essa cena, grudei a testa na janelinha da aeronave para contemplar as nuvens abaixo de mim, como se aquilo fosse uma mágica, uma inversão da minha lógica diária, que tenho por hábito olhar para o céu toda vez que estou na rua.

O piloto veio ao alto-falante e avisou sobre turbulências adiante. No horizonte, eu via aquela massa de algodão crescer e formar uma parede ao nosso lado e, aos poucos, uma muralha sobre nós, até que a aeronave mergulhou naquela imensidão branca e tudo o que eu via então era o branco pela janela e sentia um certo trepidar. De quando em vez, um raio de luz do sol atravessava e refletia sobre as nuvens e o branco intenso adquiria um tom platinado. Em outros momentos, o avião saia daquela massa de vapor e revelava novamente o céu azul, revelava alguma cidade lá embaixo, revelava que era tudo aquilo transitório, tudo o que se dissiparia em algum momento mais tarde com o cair da chuva sobre a terra.

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A história das quase histórias

Foi um caderno cheio de histórias, anotações, desenhos e ideias aleatórias. A maioria ainda incompletas, fragmentos de algo com algum potencial de texto. No mínimo, memórias de um tempo a serem revisitadas no futuro.

Foi comprado em uma papelaria de rua em Roma um ano antes. Capa dura azul, folhas levemente amareladas, pautas finas e discretas. Um belo caderno (para quem se dá o trabalho de apreciar esse tipo de coisa).

Foi levado em uma outra viagem, o caderno. No fundo da mochila, ao lado de um livro de contos ainda não lido, de uma caneta quase gasta, um pacote de chicletes, lenços de papel, algum dinheiro e um passaporte. A tralha toda foi deixada no chão de uma aeronave durante o voo.

Foi encontrada molhada, a mochila. Ao fim da viagem, por motivos ainda sem explicação, o fundo de couro e toda parte de baixo estava em sopa. O chão da aeronave estava seco, a almofada da poltrona também, mas a velha mala, não.

Foi esvaziada às pressas ainda no táxi.

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Cortinas se fecham

Em algum momento nesses últimos anos adquiri uma habilidade que parecia um superpoder inalcançável na infância. Só me dei conta, no entanto, há poucos dias quando sentado à mesa da cozinha depois do almoço, as meninas me pediram para descascar laranjas e notei que o resultado foram laranjas branquinhas, perfeitamente descascadas, sem os buracos e machucados, e com a casca inteira enrolada em espiral.

Tive um flashback da infância naquele minuto. Quando garoto, eu admirava o meu pai por esse tipo de habilidade. Jogar bola como ele jogava eu sentia que poderia conseguir se me empenhasse. Ter um bigode como o dele era
mera consequência do passar dos anos. Mas descascar laranjas daquele jeito, estava além da minha compreensão e habilidade. Nas vezes em que me aventurei em pegar uma faca e uma laranja para descascar, terminei o processo uns 40 minutos depois com mais pedaços de fruta grudados na parte da casca do que no bagaço, que naquela altura já tinha se tornado uma polpa pastosa alaranjada que sobrava nas minhas mãos enquanto o suco escorria pelos antebraços até pingar pelos cotovelos.

Mas aí, chegando aos 40 – anos, não minutos – a vida te premia. Ou compensa. É como se o Criador dissesse “Beleza, meu filho, você ganhou essa dor aí no ciático, mas em contrapartida vai poder descascar laranjas como um ninja”. Dadas as minhas limitadas habilidades para diversas coisas, isso soa como uma troca justa até. E considerando que jogo bola com a mesma capacidade com que danço tango e ainda não aderi ao bigode porque virou coisa de hipster (só por isso), imagino que esse dom inesperado surja como algo a que me apegar e, talvez, uma opção satisfatória de legado para deixar na memória das minhas filhas.

Porque tenho pensado nisso mais do que deveria ultimamente. Aos doze anos, a fase mais lúdica da infância da Nina está quase no fim e me pego por vezes imaginando que tipo de memórias ela vai carregar desses anos quando, lá perto dos 40 – os dela, não os meus – revisitar o passado em um flashback qualquer do cotidiano.

Dias depois daquele almoço, passei na quitanda do bairro e enchi o porta-malas do carro com dúzias de laranjas e agora fico convidando as meninas para comer frutas depois das refeições. Nossa cozinha agora só não tem mais laranjas do que em certos partidos políticos.

Sei que é uma ansiedade tola, mas às vezes – tipo, todo dia – me ocorre a ideia de que se eu não fizer algo decente agora, mesmo que aos 40 minutos do segundo tempo da infância, aos 40 anos a Nina estará sentada na frente de uma terapeuta lamentando os efeitos nocivos da educação que dei para ela.

“Pai”, ela me interpelou outro dia enquanto eu estava parado na sala de casa mexendo em uns papéis, “sabia que… ah, eu descobri que tem uns meninos que até que são legais”. Eu a encarei por alguns segundos tentando ler seu olhar e ver se tinha algo mais que ela pretendia me dizer. Sem conseguir resposta, me ative a responder “Eu duvido. Até hoje não conheci nenhum”. Lá no fundo, ainda que ela não tenha se dado conta, eu sei o que aquilo significa, você também sabe e a gente não precisa tocar no assunto agora, tá ok?

Recentemente, numa viagem em família, soltei no carro um dos meus trocadilhos infames infalíveis e ela, que era a única que ria desse tipo de piada comigo, espalmou a mão na testa fechando os olhos e lamentou “Ah não, pai! Que piada horrível!”. E as coisas foram ficando mais claras em minha mente limitada. E descascar laranjas como um ninja, você vai concordar, parecer ter grande apelo.

Porque essa é a fase em que ela está. A menina que às vezes ainda me pede para lhe contar histórias, agora já julga algumas partes do mundo com seu próprio critério. Porque ainda que esteja, desde sempre, lendo a vida com seus olhos, até pouco tempo ainda dependia do nosso filtro para interpretar as coisas. Éramos nós quem, de certa forma, lhe abríamos as cortinas para as descobertas. Agora a Nina tem fechado essas cortinas e aberto as suas próprias, para ser protagonista da história que deseja contar. Agora ela quer explorar e formar uma visão independente das coisas, agora ela quer ouvir música sozinha às vezes, quer ousar achar minhas piadas ruins. Agora ela junta as amigas só para conversarem, sem que isso implique necessariamente em ter um brinquedo junto. E esse agora dela, essa fase que vai mudar tudo para sempre, ainda que seja exatamente o que precisa acontecer, é rápido demais para mim.

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Novos amigos

Tem dois seguranças que trabalham no condomínio onde moro e se revezam no turno da noite. Lá pelas dez, quando desço para o último passeio com a Lucy, sempre encontro algum deles perto do gramado onde minha cadela descarrega a base da pirâmide de Maslow que recolho civicamente. Um dos seguranças, há anos na atividade, já se tornou quase um amigo. O outro, ignora solenemente meus acenos e cumprimentos. O primeiro, assim que apareço, levanta o braço, saúda com um gentil “boa noite, sr. Henrique” e emenda um comentário sobre o clima.

O problema que me perturbava é que há coisa de três anos, quando ele chegou para trabalhar por aqui, esqueci de perguntar seu nome. E agora, depois de um sólido relacionamento já estabelecido, tenho vergonha de admitir que não sei e isso abalar nosso papo cotidiano. Grande, amigo, cara, rapaz ou um simples “Opa! E aí!” são as referências que uso para disfarçar minha falha.

Semana passada, o segurança que me ignorava foi substituído por um novo. Bigodinho no rosto, cabelo engomado, sorriso na cara. A simpatia em pessoa. De imediato, puxou assunto, fez carinho na Lucy, disse que adora cachorros e que tem um que dorme em sua cama. Na hora, lembrei da falha com meu outro amigo e decidi me precaver contra um remorso no futuro.

– Qual é seu nome, amigo?

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Tem um app pra isso

Comprei um carro novo há coisa de dois meses. O carro tem um sistema de bordo inteligente com telas e luzes por todos os lados. Ele mede coisas e fornece indicadores que eu nem sabia que precisava até conhecer e me viciar: estado geral do motor, nível de calibragem dos pneus, temperatura externa média, consumo de combustível durante a viagem, durante a semana e no longo prazo, além de velocidade média durante a viagem, a semana e o longo prazo também (ainda não descobri o que ele define como “longo prazo”, mas estou prestes a fazer uma pesquisa a respeito porque já não consigo viver sem isso). Tenho tantas informações na minha frente que gasto mais tempo analisando indicadores no painel do que olhando para a rua. Outro dia, me peguei curioso tentando entender porque, afinal, a temperatura média do óleo estava em 65 graus naquela manhã e na anterior chegou a 90, mesmo sem ter a mais pífia ideia do que isso significa.

Semana passada, estava a caminho da escola com minhas filhas e uma luz amarela acendeu no painel. Com a luz, um sinal sonoro estridente. Com o sinal, um ícone incompreensível (tenho que admitir que é um problema meu e não do designer, porque à exceção de emojis, nunca consigo interpretar ícones). Com o ícone incompreensível, veio uma mensagem alarmante na telinha à minha frente: “Atenção! Indicador de risco. Não siga viagem!”. Duas exclamações no espaço de um tuíte. Parecia grave mesmo. Cogitei estacionar e chamar o guincho, mas às seis e meia da manhã o serviço levaria duas horas e minhas filhas perderiam a aula. Então, eu, que aprendi a dirigir num Uno Mille vermelho semi-velho e com embreagem comprometida segui viagem até o colégio para desembarcar as crianças e estacionei no primeiro posto de gasolina que encontrei depois. Abri o manual do carro, segui até a página de indicadores do painel, mas não havia informações que me dissessem o que poderia ser o malogrado desenho piscando. No manual, uma orientação final: “Se não conseguiu esclarecer sua dúvida neste guia, consulte nosso app ou ligue para a central em 0800-ESQUECE”.

O app. Que eu não tinha instalado. Que comecei a baixar ali na hora. E que usei meu suado pacote de dados e mais 25 minutos daquela manhã inalando a mistura de aromas de combustíveis fósseis e esperando pelo download de 250 megabytes. E depois de instalado, fiz um cadastro em que me pediam nome, endereço completo, idade, e-mail e número do chassi do carro (o chassi, gente? Jura, gente? É óbvio que eu não lembrava onde isso estava escrito). E uma vez concluído o cadastro e aceitos os termos de uso e identificado a área de suporte e ter clicado nos devidos procedimentos e botões, recebi a orientação para que apontasse a câmera do celular para o tal ícone no painel e tirasse uma foto para que o sistema de inteligência artificial me dissesse do que se tratava o problema. Eu fiz. Deu erro. Fiz de novo. Deu erro de novo. Se o app era artificialmente inteligente, estava claro que o burro ali era eu. E na quinta vez, depois de um minuto ou dois processando a informação, uma mensagem apareceu na tela do celular com a reveladora orientação que evidentemente salvaria minha vida: “Calibre os pneus do carro”.

Um app, pra isso. Pois é.

“Ô, amigo”, gritei para o frentista que assistiu a cena toda em silêncio, “posso calibrar os pneus aí?”. Depois, comprei uns chicletes para não parecer que estava abusando dos serviços do estabelecimento e fui embora.

* * *

Meu celular agora tem uma função chamada Bem-estar. O seu também tem. Na verdade, é algo mais chique do que isso, eles chamam Bem-estar digital – estudos dizem que se você adicionar a palavra “digital” a algo, ele fica mais sofisticado. É um app. E ele te diz quando você está fazendo um uso abusivo do celular. Mostra indicadores que você nunca imaginou que precisaria, tais como a quantidade de vezes que você desbloqueia o aparelho no dia, quanto tempo gasta em cada app e a quantidade de notificações recebidas. Agora eu confiro o app todos os dias para medir se meu bem-estar digital no momento está mais para bem do que para mal. Várias vezes por dia, na verdade. O que, pensando bem, talvez esteja influenciando negativamente meus indicadores.

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Devagar

“Calma, você está na Bahia, não na Berrini.”

Me peguei falando isso para mim hoje enquanto meus pés, um após outro, afundavam na areia fofa de uma praia e eu o fazia no ritmo de quem sai de um vagão de metrô rumo à rua.

O processo de contemplação e desfrute quando se está na natureza não é automático. Não basta o paraíso logo ali, é necessário que ele esteja aqui dentro também.

E isso é um passo mais complicado, porque eu não só pisava a areia como se fosse concreto, eu era também tomado pelo turbilhão de eventos, demandas e pendências que a rotina paulistana me impõe.

Comentei algo com a Manu na momento: de que a impressão é que hoje, quando viajamos e chegamos a um destino diferente, aquele deslumbramento inicial que sentíamos ao contemplar uma paisagem nova e pessoas novas é prejudicado pelo fato de que ao continuarmos conectados em nossos dispositivos e rotinas ao longo da viagem, acabamos trazendo muito daquilo na bagagem. No fim, o corpo chega ao destino mas o espírito ainda não aterrissou.

Estou lendo um livro chamado Digital Minimalism, mas já já eu falo dele, porque eu li um outro livro recentemente chamado Devagar e do qual eu preciso falar antes. E li um salmo ainda hoje a respeito do qual gostaria de escrever uma linha ou cinco depois.

Carl Honoré publicou Devagar lá no começo dos anos 2000. Demorei uns sete anos para ler esse livro, não porque o título fosse uma regra, mas por circunstâncias que pouco importam neste momento. Fato é que meio movido por curiosidade e meio por uma busca pessoal, seu livro me caiu na consciência como aquele tipo de verdade na qual você sempre acreditou lá no fundo, mas nunca tinha ouvido alguém dizer para poder concordar.

Honoré nos prova e provoca: precisamos desacelerar o passo, a vida é melhor — e mais saudável e mais bela — quando nos permitimos degustar em vez de engolir.

Cal Newport, um quase xará do Honoré, é autor do outro livro (agora sim) Digital Minimalism, um termo que me fisgou de imediato porque resume um bom tanto da minha obsessão recente em tentar expurgar da vida doméstica o excesso de tecnologia, de dispositivos e serviços digitais que nos estimulam à exaustão. Eu achava que era TOC, mas então entendi que não apenas eu e uma meia-dúzia de amigos, mas um bocado de gente no mundo vem expressando uma preocupação crescente com o espaço que isso tudo está tomando em nossas vidas.

Eu vinha tentando praticar um certo grau de minimalismo e a assimilação disso seria natural. Mas, fato é que a opção por ter menos é, no fundo, um tremendo luxo num mundo em que tantos tem tão pouco justamente por falta de opção. Então, o esforço mais recente aqui em casa é para sermos mais generosos. Ter menos, dividir mais e ser alguém melhor vale mais do que um capricho primeiro-mundista.

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Os jardineiros da Escandinávia

Na Dinamarca, a diferença de renda entre uma pessoa na base da pirâmide social e a que figura entre as mais prósperas é de apenas quatro vezes – o dado consta em um estudo da OCDE que li há poucos dias. E muito disso se deve ao fato de os limites serem mais curtos, já que ninguém recebe salários excessivamente altos e ridiculamente baixos. Esse nível tão baixo de desigualdade coloca o país escandinavo na posição de segunda nação menos desigual no mundo.

A título de comparação – e chegando no que nos toca – no Brasil, segundo o IBGE, a diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres chega a 36 vezes. Esse abismo é o que nos coloca na outra ponta do ranking e nos confere a condição de nono país mais desigual do mundo. Com um detalhe agravante: os 50% mais pobres em nosso país não contam com uma renda mensal suficiente para uma vida digna (R$ 747 em média, menos de um salário mínimo) como recebem os mais pobres da Dinamarca. O IBGE diz ainda que no último ano a renda do 1% de brasileiros mais ricos cresceu, enquanto os mais pobres ficaram ainda mais pobres.

Fiquei pensando nesses números enquanto conversava com a Nina, minha filha mais velha, outro dia sobre outra questão. Ela me perguntava sobre meu trabalho e tinha curiosidade em saber o que eu gostaria de fazer durante o dia se não fizesse o que faço hoje. Hum. Me perguntou ainda se a faculdade que cursei tinha mais relação com o que eu faço ou com o que eu gostaria de fazer. Hums.

Tive que explicar que em nosso país a maior parte dos que tem o privilégio de cursar uma universidade, faz essa escolha considerando não apenas sua vocação, mas principalmente o potencial de renda que aquela profissão pode lhes garantir no futuro.

“Por quê?”, ela perguntou.

Bem, aí minha filha de 11 anos e eu emendamos uma conversa sobre privilégios, o mercado, injustiças, desigualdade, vocações e sobre as pessoas que podem escolher o que querem fazer com seu tempo entre oito da manhã e seis da tarde. Como, por exemplo, os cidadãos dinamarqueses.

E daquele dia em diante, tenho preenchido parte do meu tempo nas ruas observando outras pessoas exercendo suas profissões e pensando se o fazem com algum senso de realização. Venho tentando imaginar também se, excluindo a questão do talento – ou a falta dele – eu poderia preferir fazer algum daqueles trabalhos em vez de fazer o que eu faço cotidianamente há 23 anos. O balconista do café, o motorista de táxi, o cabeleireiro, a dona de uma floricultura, o dono da imobiliária, o balconista da livraria, o professor universitário, o padeiro, o jardineiro… pessoas com quem costumo cruzar no caminho para o trabalho e que vêm passando pelo escrutínio da minha análise.

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O dia em que a TV morreu

Procuro na memória mas não consigo encontrar quando foi o momento exato em que a televisão morreu aqui em casa. Não lembro sequer o ano, algo entre 2015 e 2018, em que ela deixou de ter o reinado que sempre lhe foi garantido desde que me conheço por telespectad… digo, gente. Não me refiro ao dispositivo, que continua ocupando cada vez mais consideráveis polegadas na sala, mas à TV linear, aos canais sendo transmitidos, a programação regular, os programas intercalados por intervalos comerciais – eu gostava quando chamavam de reclames, mas se eu disser isso alguém pode me chamar de nostálgico – diante dos quais sempre fomos observadores pacientes e conformados.

Fazendo uma conta rápida, eu diria que hoje em 98,5% do tempo que a TV de casa está ligada, o consumo se divide entre Netflix e YouTube. No 1,5% do tempo que resta, sou eu, sentado aqui, escrevendo no computador e com algum canal qualquer transmitindo esportes que não pratico. Assim acontece nesse instante.

Por “um canal qualquer transmitindo esportes que não pratico” entenda o Off. Adoro o Off. Não sei se é porque acho que aquilo tudo é ficção pura ou se, de fato, existem pessoas que passam suas vidas sem estar doze horas por dia em um escritório, fazendo reuniões e respondendo e-mails. Aquela gente bronzeada, viajando por lugares paradisíacos, encarando grandes aventuras e fazendo cotidianamente coisas que eu jamais sonharia fazer uma vez sequer na vida. É tipo o Senhor dos Anéis. Só pode ser ficção.

Então, a TV funciona como uma espécie de proteção de tela, um pano de fundo enquanto estou sozinho na sala. E geralmente aquilo fica só ali, ocupando espaço, um respiro e show de luzes piscando para que eu possa me concentrar nas palavras que preciso juntar. Mas hoje, ao olhar para aquela tela, esse lance todo sobre a morte da TV me distraiu e perdi a linha do que estava escrevendo e comecei a redigir isso que você lê agora.

Esse era para ser um texto sobre desigualdade de renda na Escandinávia. Juro. Mas fica para uma próxima.

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A perda da inocência

– Davi, que machucado é esse no seu joelho? – a tia preocupada perguntou para o sobrinho.
– É que eu fui voar. Só que não deu.

Se tem uma coisa que eu tenho medo é de algo que martela em minha mente como “a perda da inocência”. Falo como pai, tenho pesadelos com isso. Temo a chegada do inevitável momento, o fatídico dia em que os olhos de minhas filhas se abrirão e compreenderão que existem questões subjetivas escondidas sob a superfície, sob as máscaras, sob essa espuma de artificialidades e das quais elas vinham sendo poupadas até ali pelo invólucro da pureza da infância.

Tenho medo do momento em que elas deixarão de ter esse poder, essa espécie de bolha que envolve os primeiros anos de nossa espécie e que faz com que crianças enxerguem o mundo e o percebam sem malícia, que vivam convictas de que são capazes de voar. Para elas, tudo ainda é cru, puro, é só aquilo mesmo que está sendo dito e feito naquela hora.

No fim do ano passado, estava na reunião de classe da Nina quando a professora recomendou aos pais que, para o ano de 2019, lessem um livro sobre a criança aos doze anos – idade que a maior parte da turma fará neste semestre. Eu tinha ficado com a tarefa de escrever a ata da reunião e tomava notas em um papel enquanto ela falava.

Então ela disse: “Neste ano, as crianças estão no ápice da infância e ainda estão aprendendo a fazer a conexão de sua presença no mundo. Elas estão vivendo a alegria de estar no mundo plenamente, estão no “topo da montanha”. E a partir de agora, elas começam a despedida da infância para entrar, aos poucos, na adolescência”.

Eu parei de escrever naquele momento e por alguns minutos deixei de ouvir o que ela dizia. Passei o olhar pelos rostos de outros pais e mães sentados em círculo diante de mim para ver se eles se espantaram com aquilo tanto quanto eu, mas a reunião seguiu em frente.

Eu não. De lá para cá, me pego entrando no quarto da Nina para observar como ela organiza suas coisas sobre sua mesa, os brinquedos, as bonecas, os livros, seus desenhos. Eu me sento mais para ouvi-la e, mais do que saber o que se passa, tento notar as transformações em seu jeito de pensar e enxergar o redor. Eu encaro seus olhinhos brilhantes (rapaz, se tem uma menina com olhos sorridentes e brilhantes, essa menina é a Nina) e fico aliviado em perceber que a pequena camada de pureza ainda está lá, que a inocência ainda reside em seus olhos.

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Primavera, poesia e livros como presentes

Tem circulado nas minhas bolhas uma mobilização entre os amigos incentivando que sejam dados livros como presentes neste Natal. Alguns o sugerem como forma de celebrar e incentivar a leitura, outros como caminho para ajudar a fomentar o mercado editorial no Brasil que anda em crise – no resto do mundo, o cenário é diferente e o consumo de livros, especialmente impressos, tem crescido, enquanto no Brasil, dada a crise pela qual passam país, livrarias, editoras e cidadãos, as vendas de livros padecem.

Acho a campanha um tanto piegas. Quem gosta de livros, afinal, já os compraria de qualquer forma. E quem não tem por hábito ler, não me parece que será incentivado a mudar em função de um movimento na internet. Mas como sou um bocado influenciado quando leio em redes sociais coisas que endossam meus interesses, me animei e propus à minha esposa que aderíssemos.

Fiquei com a incumbência de comprar para as crianças da família – leia-se filhas, sobrinhos e afilhados – livros adequados às suas idades e estilos (bem, aos meus irmãos e compadres que eventualmente me leem por aqui, peço desculpas pelo spoiler natalino). Crianças, afinal, são o objeto de nossa tentativa de exercer alguma influência positiva no mundo. E com estímulos eletrônicos por todos os lados, ganhar livros pode ser uma boa chance de conexão com outro tipo de universo.

“É sopa”, pensei, “me dê 15 minutos numa livraria e eu resolvo tudo”. Mas ignorei meu retrospecto em livrarias ao pensar tal coisa. Ignorei, sobretudo, meu retrospecto sozinho em livrarias. E fato foi que duas horas zanzando pelos corredores e folheando exemplares não bastaram para eu comprar os presentes que gostaria. Acabei comprando mais livros do que temos de crianças para presentear e mais da metade eram histórias que eu mesmo gostaria de ler.

Porque comprar livros exige tempo. Foi o que pensei ao final das compras, ainda na livraria, enquanto sentava para um café. Não estou romanceando a questão, mas a escolha é um ritual. Ao dar um livro, você endossa aquela história como algo ao qual acredita que o outro deveria dedicar suas horas, dias, às vezes algumas semanas. E o faz porque confiou na sua sugestão. Você não dá a alguém de quem gosta um livro que desaprova. De preferência, deve dar um livro que já leu e sobre o qual gostaria de conversar depois (se não pensa em conversar depois com a pessoa, não deveria dar presente, né?).

Com as meninas em casa, o legado da leitura é levado à sério. Temos uma estante com alguns exemplares, temos livros nas cabeceiras das camas, deixamos sempre algum na sala. Em casa, só lemos livros de papel para que talvez o exemplo crie nelas o desejo de ler também (tenho um Kindle, que até uso bastante, mas só o ligo depois que as crianças já dormiram ou em viagens a trabalho). Tem funcionado, devo dizer. Assim como funcionou para mim observar minha mãe passar algumas tardes às voltas com romances policiais de Agatha Christie, minha tia nos levar para passear em feiras de livros e bancas de jornais e a professora que nos levava todas as terças para uma rodada de histórias na biblioteca perto da escola.

Isso tudo me vinha à mente enquanto eu relia as páginas de um livro do Ziraldo trinta anos depois de tê-lo em mãos pela primeira vez. “Acho que ele vai gostar desse”, concluí enquanto o separava para um sobrinho.

(… continua ali no Estadão)