Agora no Estadão

A partir de hoje, Dia das Crianças, escreverei semanalmente no Estadão. É um novo blog, que não substitui este aqui, mas cujos textos não serão reproduzidos na íntegra fora do ambiente do jornal.

Escreverei às quintas. Avisarei sempre que uma crônica nova for publicada e espero (e peço) que sigamos juntos.

O texto de estreia “As manhãs amarelas”, foi para o ar há pouco.

Abraços.

Questões de chuveiro

A Manú reclama que eu demoro muito no banho. “Meia hora, Henrique! Você precisa de tudo isso?”. Eu retruco, argumento que tenho pêlos no corpo e lavo os cabelos todos os dias e que por isso, só no processo todo, acabo demorando mais do que ela. É claro que não cola. Ela tem fios de cabelos cinquenta vezes maiores do que os meus e mesmo quando se submete a um tratamento capilar completo, não fica mais do que quinze minutos com o chuveiro ligado.

A verdade, cá entre nós, é que eu fico ali sem fazer nada. E não é de propósito, nada de fugas. É um estado de letargia, em que esticar o braço para pegar o sabonete pode levar uns cinco minutos. Eu já falei disso, tomar banho é o tipo de coisa que classifico como ócio involuntário. Um ritual em que lavo o corpo, a cabeça e a alma. E desde que o nível do Sistema Cantareira deixou de ser uma preocupação urgente, fico um certo tempo ali, entre devaneios, ideias e soluções para os problemas mais complexos do meu dia.

Ideias e soluções que, diga-se, são geralmente incríveis, mas das quais nunca me lembro depois que desligo o registro. E aí me pego gastando alguns banhos pensando que poderia ficar multimilionário se inventasse uma caneta mágica capaz de escrever em vidros de box e azulejos molhados para registrar esses pensamentos. Mas também não lembro da tal caneta depois que saio do banho. E já tentei escrever algumas coisas no box usando a pontinha de um sabonete novo, mas o vapor derreteu tudo e no final aquilo virou uma mancha branca esquisita e ilegível.

Ficaria milionário também (às minhas custas) o sujeito que criasse o sabonete três em um. Uma única barrinha, me ocorre, deveria ser capaz de ser sabonete, shampoo e condicionador. Não tem muito sentido precisarmos usar três produtos diferentes para funções tão semelhantes. E com frequência, entre um devaneio e outro, eu me distraio e esqueço se já lavei os cabelos ou usei sabonete e acabo fazendo a mesma coisa duas vezes para não correr o risco de negligenciar uma etapa importante da higiene.

Melhor ainda seria se a própria ducha tivesse um recipiente ou refil acoplado que liberasse, durante o banho e junto com a água, uma pequena dose de um líquido tudo-em-um que cumprisse o papel de nos deixar limpos. Há de existir tecnologia para isso, não é possível. E tenho certeza que eu tomaria banhos mais objetivos e eficientes e minha Manú ficaria mais contente.

Mas, não. Os gênios da indústria dedicam seus neurônios a outros fins. Os caras inventam uma ducha mais larga e que libera um maior volume de água, a batizam de Gorducha (Gor-ducha!), mas não melhoram o processo. Inventam um sabonete Dove misturado com pepino, lançam o Natura Ekos com sementes de maracujá no meio (sim, sementinhas secas de maracujá rasgando sua delicada pele durante o banho), inventam um sabonete com um bocado de areia no meio, que arranha o corpo inteiro, chamam o tijolo de barra esfoliante e a gente ainda paga quinze vezes mais por isso. Mas, não, não inventam um banho otimizado para salvar casamentos e represas.

Nessas horas, sou obrigado a cair na vala-comum do pensamento preguiçoso e culpar meus comparsas publicitários. Eu balbucio em câmera lenta (meu banho é slow motion, acho): “é tudo culpa do marketing”. Venderiam menos produtos se tivéssemos um tudo-em-um. A prova está um metro à minha frente.

Olho para a prateleira de vidro dentro do nosso box e vejo ali uma fila de recipientes. Se na minha infância o desafio era entender a diferença entre o sabonete e o shampoo, o passar dos anos introduziu nos lares e banheiros brasileiros a figura do condicionador. E eu passei a precisar lavar os cabelos três vezes, ao invés de duas.

Depois que me casei, um recipiente menor começou a disputar espaço com os outros dois. Intrigado, um dia eu parei para ler o rótulo. “Máscara”, dizia a embalagem. É um creme para usar antes do condicionador, me disse a Manú, e que você passa para hidratar o cabelo depois da… hidratação. Engodo puro, pensei então. Mas, eis que de uns meses para cá, um quarto vasilhame surgiu para compor o conjunto. Curioso, agarrei o dito-cujo outro dia e li o texto em destaque: “Pré-Shampoo”. Isso, pré. Porque não bastasse ter as madeixas besuntadas pelo creme no pós-banho, agora fazem o pobre consumidor acreditar que é preciso lavar o cabelo antes de lavar para poder hidratar e então hidratar. Contando o sabonete, são cinco coisas no processo todo. E minha doce esposa usa tudo isso naquele cabelão e demora menos tempo do que eu no banho.

Mas a Gorducha-Mágica-Tudo-Em-Um com refil que seria, essa sim, revolucionária, o sr. Lorenzetti não se atreve a fabricar.

Penso nisso enquanto me lavo com um novo sabonete refrescante maravilhoso à base de pitanga. Penso também na caneta à prova d’água (que descobri depois, para desespero da minha conta-corrente, já existe), lamento a coisa toda de como somos vítimas dessa opressão comercial que tenta nos manipular como massa desorientada e no momento em que enxaguo o Pré-Shampoo e meus problemas de oleosidade capilar escorrem pelo ralo, ouço uma uma voz distante, lá fundo, chamando: “Henrique, poxa vida, ainda vai demorar aí!?”

Do direito de atirar pedras

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“A suprema tentação é a maior traição: fazer a coisa certa pelo motivo errado.” (T. S. Eliot)

Atirar pedras nos outros é um direito garantido por lei em certos países. Pelo que apurei, ao menos dez nações – entre elas, Irã, Somália, Indonésia, Arábia Saudita e Paquistão – ainda tem o apedrejamento como punição para crimes considerados graves.

Funciona assim: a pessoa é pega em flagrante, vai presa e segue todo processo de julgamento. Se condenada, marcam a data do apedrejamento. No dia agendado, um buraco com pouco mais de um metro de profundidade é cavado no chão. Mulheres são enterradas até o pescoço e homens até o quadril. Um grupo se reúne em volta do réu e, dado o sinal, o juiz atira a primeira pedra. A partir daí os demais seguem o rito. Como a parte do corpo exposta é bem pequena, o objetivo é acertar a cabeça. As pedras devem ser grandes, de forma que sejam capazes de matar. De tempos em tempos, um agente confere se a pessoa já está morta. Se não estiver, seguem arremessando as pedras até que o óbito seja confirmado. Ah, sim, a pessoa pode salvar a própria vida se conseguir se libertar do buraco e fugir enquanto as pedras são atiradas contra ela.

É hediondo. Eu leio, releio, reflito e não consigo acreditar que sejamos realmente capazes de executar alguém por esses meios. É de um primitivismo tamanho que é difícil imaginar que isso de fato aconteça no mundo de hoje. O homem aprendeu a voar, chegamos ao espaço, aceleramos partículas, temos refrigeradores na cozinha para preservar alimentos, descobrimos e reconstruímos esqueletos de dinossauros com centenas de milhares de anos, conectamos o mundo através de uma rede de computadores e fazemos cirurgias de alto grau de complexidade usando técnicas pouco invasivas e braços mecanicamente guiados. E ainda matamos nossos vizinhos com pedradas na cabeça.

Vale lembrar que o objetivo do apedrejamento é humilhar o criminoso em uma morte vagarosa. A punição não é apenas física, fosse assim um tiro na testa resolveria o problema de forma ainda mais rápida e eficaz (esses mesmos países também praticam outras formas de execução). A ideia do apedrejamento é a exposição pública, é punir pelo exemplo, é fazer com que o condenado se arrependa e pague pelo mal que cometeu.

Fossem mais espertos, aiatolás, ditadores e governantes dessas nações poderiam adotar medidas mais aceitas pela comunidade internacional e diplomaticamente adequadas ao redor do mundo para garantir o mesmo tipo de exposição pública: bastaria que liberassem o acesso ao Facebook em seus países.

Haveria, inclusive, alguns avanços no processo de apedrejamento: em redes sociais, mais gente participa do ato, o que faz com que o condenado seja rapidamente executado. O propósito principal de humilhação e exposição pública é imbatível. Diminuem também as chances de condenado conseguir fugir da punição e o processo de julgamento é popular, movido pela massa sedenta por descontar sua raiva, o que em certa medida tira o peso da decisão das costas de um juiz. O primitivismo é o mesmo, a irracionalidade dos gestos também e a motivação, acredito, segue os mesmos instintos.

É hediondo. Eu leio, releio, reflito e não consigo acreditar que sejamos realmente capazes de expor alguém por esses meios. É de um primitivismo tamanho que é difícil imaginar que isso de fato aconteça no mundo de hoje. O homem aprendeu a voar, chegamos ao espaço e tal… E ainda agredimos nosso semelhante por pensar diferente da gente.

Há patrulheiros vigilantes. Há diversos deles, navegando pelas redes sociais, assistindo diligentemente vídeos no YouTube, rastreando cada tuíte, cada foto no Instagram, cada texto publicado à procura de um deslize, um erro, um ponto de dúvida que justifique seu dedo em riste, que condescenda com a mão inquisidora, que possa finalmente sofrer sua punição. E, juízes que somos todos, atiramos a primeira pedra. E a multidão acompanha.

O critério para se decidir se o crime é grave ou não cabe tão somente ao juiz e seus seguidores. Não há lei. Basta não concordar, basta votar diferente, torcer para outro time, gostar de outra banda. Basta compartilhar aquele post polêmico, basta assistir Big Brother, não ser da mesma religião, não ser igual, ou não ser diferente. Basta estar ali, rolando sua tela, na mira de alguém e, de repente, uma pedrada lhe atinge a cabeça.

* * *

No Novo Testamento há uma passagem clássica que conta sobre o dia em que um grupo leva até Jesus uma mulher flagrada em adultério. Pela lei, ela deveria ser apedrejada até a morte. Querendo comprometer Jesus em seu julgamento, eles a colocam diante dele e questionam se a lei deveria ser cumprida. Eles tinham pedras nas mãos. Queriam, com isso, condenar a mulher, mas também encontrar caminho para incriminar Jesus, que vinha pregando o amor e desconstruindo conceitos arraigados da lei. A resposta de Jesus, tão conhecida, virou um ditado que ainda repetimos com frequência: “Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra”.

Ninguém ousou dar o primeiro golpe. Deixaram a pobre mulher ali com Jesus e partiram.

No entanto, note, os inquisidores da mulher adúltera (alguns intérpretes do texto bíblico afirmam que se tratava de Maria Madalena) não a apedrejaram porque a lei os impediu. Pela regra, esse era um direito que tinham poderiam tê-lo exercido, aprovando Jesus ou não. Mas, abandonaram sua condição de acusadores porque foram constrangidos por Jesus com uma pergunta. Um espelho. Diante deles, a mulher em pecado era um reflexo de sua própria condição moral. Não de adúlteros, mas de pecadores. Os seres falhos que também eram, era a imagem da mulher jogada no chão de terra à sua frente.

Porque é no espelho que nos vemos, enxergamos nosso reflexo, nossa fragilidade, as rugas e a pequenez de nosso estado. No espelho, não vemos o outro, só a nós mesmos, diante dos defeitos que talvez só nós conheçamos. Ali, o dedo acusatório aponta para nós mesmos, as ofensas rebatem e voltam, a pedra arremessada estilhaça nossa própria imagem.

Espelhos.

Talvez seja isso. Diante da tela do computador ou do celular desligada, naquele instante de reflexão, seria melhor se no lugar de pedras, tivéssemos nas mãos o reflexo de nossa condição.

* * *

O problema são os outros, dizemos o tempo todo. O problema é da internet, o problema são as redes sociais, alguém diz. Então vamos acabar com as pedras. Mas, acabar com as pedras não resolve. O problema está no braço que as arremessa, outro poderia dizer. Mas amarrar as pessoas também não resolve.

O problema está no que nos motiva, eu diria. Está em olhar para o outro e não nos enxergarmos nele. O problema está em não amar o próximo, em não parar para pensar em suas motivações e perceber que também erramos.

Nos sentimos em meio a um fogo cruzado e nunca na posição de acusadores. Mas somos parte ativa do conflito. Porque atirar pedras, tecer comentários ácidos e levantar contendas são apenas gatilhos, atitudes que resultam de uma perda profunda que tem acontecido dentro de nós: a insensibilidade ao sentimento do outro.

E se fôssemos julgados com o mesmo critério que julgamos? E se fôssemos amados com a mesma medida que amamos?

Há muito, isso deixou a esfera política e virtual. Há tempos deixou de ser contra inimigos históricos e estranhos anônimos. Atiramos pedras com quem convivemos cotidianamente, desfazemos amizades, ignoramos a presença dos nossos semelhantes que estão segregados em nossa sociedade, vivendo à margem da dignidade, ofendemos gratuitamente o outro com nossa arrogância, diminuímos aqueles com quem dividimos um teto ao não reconhecer seu valor. Deixamos nossa atenção plena ser usurpada pelo entretenimento superficial que nos anestesia e emburrece. Nas pequenas e nas grandes coisas, temos fechado os olhos para o próximo. O próximo que dorme ao lado, o que vive ao lado, o que caminha ao seu lado na rua.

Ignoramos diferentes perspectivas, rechaçamos opiniões e atiramos pedras porque o outro… – e sua opinião e sua dor e sua história e seus anseios e suas dúvidas e sua vontade – o outro basicamente não nos interessa.

Onde abunda o egoísmo sempre falta compaixão.

Jesus chamou isso de amor. E ele disse que amar era o resumo de toda e qualquer lei ou mandamento.

Quando viveu entre nós como homem, na história que lemos e relemos nos evangelhos, Deus não queria salvar a humanidade do diabo, ele queria nos salvar de nós mesmos. Os exemplos, as mensagens, as atitudes, o sacrifício e a história de Jesus não revelam propriamente uma batalha entre Deus e um inimigo, nada entre duas forças espirituais opostas. A Bíblia mostra que Jesus veio salvar o homem do egoísmo, da tendência de procurarmos apenas nossos próprios interesses, ele veio nos curar de cegueira, da insensibilidade na alma, nos tirar da lama espessa em que afundávamos e nos purificar para que pudéssemos ser livres.

Ao viver entre nós, ele se ofereceu como imagem que pudesse nos servir de inspiração. Ao se tornar o ser humano perfeito, nos mostrou o caminho livre e perfeito que desenhou para a humanidade. Ao se revelar homem, Deus expôs diante de nós sua face bondosa para que pudéssemos contemplar o Criador e, finalmente, nos enxergar em nosso Pai.

Um espelho.

Síria

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Faz seis anos que o conflito na Síria começou. Tanto tempo que já nem ocupa o topo dos noticiários, tampouco nossas rodas de conversas familiares. Mas desde 2011, mais de 400 mil pessoas morreram nessa guerra. A maioria gente inocente, que não teve a chance de fugir (mais de 5 milhões de pessoas saíram do país desde então, numa nação com 18 milhões de habitantes).

Ontem, em um de seus capítulos mais cruéis, dezenas de crianças morreram vitimadas por um ataque químico, supostamente patrocinado pelo próprio governo com apoio da Russia, que defende a ditadura de Assad.

É triste demais. E as fotos das crianças mortas são chocantes. Quem tem filhos não consegue deixar de se imaginar em tal situação. Talvez, valha refletir no fato de que por um acidente geográfico não somos nós ali, carregando nossos bebês no colo e sofrendo com essa barbárie.

Então, se quiser aproveitar o momento de choque e fazer algo para ajudar, tem uma instituição chamada Preemptive Love que oferece suporte a famílias vitimadas pela guerra. Nesse link, dá para fazer uma doação usando seu cartão de crédito.

O Médicos Sem Fronteiras também atua no país e recebe doações pelo site.

Além das nossas orações, certamente isso ajudará a minimizar a dor dessas famílias.

Águas de março

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Noite passada, enquanto tentava dormir, me inquietava com o fato de que já estamos em março. Março, poxa. Um terço do ano já se passou e o ano só está começando agora. Porque março é o mês que me faz desacelerar o passo da caminhada, que me força a parar e olhar por sobre o ombro e perguntar como foi que cheguei aqui. Não pelo mesmo motivo que todos nós fazemos em dezembro durante as festas, nem porque eu pessoalmente fique mais velho (meu aniversário também é em dezembro), mas é que de repente realizo, quando vejo a folhinha de fevereiro cair no calendário, que Cecília e Nina estão prestes a comemorar mais um ano.

* * *

É uma manhã de sábado, sou o último a acordar na casa. Manú está na cozinha passando um café no coador – cujo aroma a essa hora mais me chega como um carinho – e escuto o barulho da tv ligada. Sigo cambaleante até a sala e vejo a Nina sentada no sofá com um livro de mais de quinhentas páginas nas mãos. Eu coço os olhos. Quando foi que paramos de ler juntos aquelas pequenas coleções de 20 ou 30 páginas ilustradas em que eu deixava algumas frases incompletas para saber se ela já seria capaz de ler as palavras finais sozinha? Em poucos dias, ela completará dez anos. Dez. Eu posso te jurar que ano passado ela fez cinco e que toda sua história ainda cabe aqui num parágrafo ou dois de memórias.

Enquanto me espreguiço, Cecília corre atrás da Lucy com algo nas mãos que tenta fazê-la engolir. A cachorra foge, o dia todo. E Cici corre na ponta dos pés, de um jeito que parece que flutua. E ela gargalha por tão pouco, de um jeito que parece que é fácil rir assim de qualquer coisa. Atravesso o cômodo atraindo as atenções das duas, que agora me seguem até a cozinha. Para premiar a minha nostalgia, ela faz aniversário apenas dez dias depois da irmã mais velha. Dois anos, na semana seguinte. E ontem mesmo, tenho absoluta certeza, eu ainda escrevia agradecido a crônica final de um livro contando que Manú estava grávida novamente. E nossa pequena tempestade ruiva é um presente melhor do que qualquer sonho que tínhamos sobre o novo bebê que viria completar nossa família.

Eu não posso afirmar que há alguém pulando os anos e envelhecendo mais rápido do que deveria aqui em casa, mas estamos certamente sendo traídos pelo tempo, pela nossa noção de tempo, por um relógio desajustado em algum canto dessa casa cujos ponteiros aceleram além das regras.

Quando criança, uma coisa que eu gostava de fazer era represar água. Qualquer água servia. Eu abria a torneira da pia do banheiro e tapava o ralo com as mãos por um segundo ou três só para ver juntar um pouco de água e então soltar e ver aquilo correr devagar tubulação abaixo. Fazia isso na rua também, colocando um pedaço de pau, uma pedra, o tênis de algum amigo ou o obstáculo que encontrasse em frente à pequena correnteza de água que vinha meio-fio abaixo enquanto a vizinha de cima lavava a calçada. O obstáculo podia reter toda água por um tempo, mas em algum momento o volume era tão grande que o superava ou arrastava.

Eu faço isso ainda. Ponho as mãos na água em movimento e a vejo passar pelos dedos. Quando chove e estou na rua, estendo a mão e junto os dedos para ver por quanto tempo consigo reter a água. Eu faço isso ainda, eu pego a Nina no colo quando ela dorme no banco de trás do carro e comprometendo eternamente meu nervo ciático, a levo para casa. Ela já tem quase um metro e meio, ela acorda no meio do trajeto mas finge que ainda dorme e acomoda o rosto no meu pescoço por uns oito anos até chegar na sua cama. Eu faço isso ainda, quando levanto a Cecília “bem alto! bem alto, papai!” e tudo o que ela tem que garante sua segurança são meus braços que a sustentam naquela aventura. E nessas horas, ela que nunca pára nem por um segundo, fixa bem os olhos nos meus, sorri o melhor sorriso com os dentes separados e gargalha. E aí, o tempo é que pára.

Peço a Deus que me ajude a lembrar desses instantes mágicos para sempre. Em minha pequena fé, desejo que a eternidade seja o espaço onde as memórias nunca pereçam. Que no berço da vida estejam os primeiros passos de minhas meninas, o balbuciar das primeiras palavras, aquele dia no parque, a viagem à praia, as sonecas de sábado à tarde no sofá e cada vela soprada nas festas que marcam a passagem dos seus anos.

Fico tentando conter com os dedos o forte fluxo desse rio, tento parar a chuva, mas a vida muitas vezes é correnteza demais.

Me dou conta de que preciso mesmo é aprender a nadar, me deixar molhar pela chuva e seguir em frente. Isso acontece quando consigo parar de encarar o espelho entre uma aparada e outra na barba, quando deixo de lamentar o volume de água que se foi, o tempo que passou, os dois encantadores anos da Cici que ficaram para trás e os dez doces capítulos da Nina que ela já escreveu.

Há paz, finalmente, quando meu olhar se concentra no que importa, uma obviedade de que me esqueço com frequência: de que há algo a ser feito agora, há o que se desfrutar hoje e que há coisas mais importantes do que respostas para se perseguir na vida. Porque há amor, há Legos, massinhas, lápis e bonecas por todos os lados, há a quem pertencer para sempre, há Deus a nos guiar com sua voz bondosa, há duas meninas dormindo de mãos dadas no quarto ao lado. Há um futuro que se revela atrás da porta que se abre, e o horizonte todo, o dia de amanhã, o esplendor do sonhos e o tempo, todo o tempo que ainda temos pela frente chegando na corrente de um rio.

Em poucos dias haverá uma festa por aqui. Estamos em março e lá fora chove.

Um convite (ou dois)

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Cinco pessoas me disseram que preferiam ler meu livro em uma versão impressa e não digital (minha esposa e minha mãe entre elas). Atendendo a essa multidão de pedidos, resolvemos providenciar alguns exemplares do “Enquanto a gente se distrai…”. Poderiam ser cópias mimeografadas, poderiam ser 5 xerox em papel Chamequinho A4, mas como a Manú é muito caprichosa, o livro está saindo em versão gráfica belíssima, numa pequena tiragem, com capa envernizada e aquele papel polén gostoso de passar os dedos.

Se além dos cinco, você também prefere manusear o livro à moda antiga e sentir o cheiro do papel enquanto lê boas histórias, essa é uma oportunidade. Não prometo que sejam boas histórias, mas o cheiro é garantido.

Além disso, é chance de fazer uma boa ação ainda este ano. O lucro será revertido para o Centro Social Carisma, instituição que atende crianças e adolescentes em situação de pobreza extrema em nossa cidade.

Nesse fim de semana, faremos o lançamento em dois eventos diferentes:

– Sábado (17/12) entre 12:00 e 16:00 no Laranjeiras Bar em Pinheiros. Tem um quintal com árvores no fundo e ficaremos quatro horas por lá com alguns livros. O restaurante serve ótima comida e estará aberto. Então, se quiser aproveitar para almoçar, é uma excelente opção. Endereço: Rua Inácio Pereira da Rocha, 87 – Pinheiros – São Paulo (www.laranjeirasbar.com)

– Domingo (18/12) às 12:00 e às 20:00 na Comunidade Carisma em Osasco. Ao término de cada uma das reuniões dominicais (que começam às 10:00 e às 18:00), estarei na livraria com alguns exemplares. A cafeteria também estará aberta, caso queira pegar um espresso para batermos um papo depois. Endereço: Rua São Bento, 247 – Quitaúna – Osasco (www.carisma.com.br)

Espero que possamos nos encontrar :-)

Abraços,
Henrique

Entre nuvens

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Aeroportos. Eu também teimo com aeroportos. Não sei dizer o que é, mas há uma atmosfera estranha, que em um primeiro impacto parece ter um brilho interessante e mágico mas em poucos minutos se revela superficial, limitado e ofuscante demais, perfumado demais, barulhento demais, raso demais. Tentam nos vender como shopping center o que na verdade é só o que é: um terminal de chegadas e partidas. Pessoas indo e voltando, de passagem por algumas horas, até o momento de partir, escutando as descrições de voos, as chamadas de embarque e o ruído das aeronaves decolando lá fora. Estou em um aeroporto agora.

No entanto, observar viajantes está entre meus passatempos favoritos. Mais do que faço em qualquer outro lugar, gasto minhas horas de espera antes de embarcar olhando as pessoas à minha volta e tentando imaginar suas vidas. Porque há algo diferente nesse ambiente, ninguém passa por aqui todos os dias, todos vivem essa coisa transitória, estar nesse lugar não é a rotina de ninguém sentado nessas cadeiras (é claro que os funcionários das lojas e balcões de companhias aéreas são uma exceção). Estão todos em trânsito, indo para algum novo destino ou voltando para seus lugares.

Eu só tento escutar. O casal de meia idade que come uma pizza em silêncio e sem se olhar nos olhos em nenhum momento, um outro casal de idosos que senta lado a lado na mesa do restaurante deixando as cadeiras da frente livres e conversam animados com guias de viagens empilhados sobre a mesa, executivos e executivos sozinhos digitando aceleradamente em seus computadores ou andando de um lado para o outro. Indianos, japoneses, norte-americanos, latinos, gente muito loira e branca de algum canto da Europa, um grupo em excursão viajando em férias, homens com chapéus de cowboy que julguei serem aqui do Texas mas descobri depois que eram de Goiania (estou parado numa conexão em Dallas). Duas crianças entediadas brincando em iPads com capas coloridas e outras crianças, um casal de irmãos, correndo um atrás do outro pelo terminal como se estivessem no quintal de casa. Uma mulher lendo um livro de bolso enquanto bebe uma garrafa de meio litro de Coca-Cola Zero no gargalo. Gente no celular, gente no celular e gente mexendo no celular por todos os lados absortas em suas telas azuis, isoladas em fones de ouvido que sempre me lembram o penteado da Princesa Leia. Tento escutar suas conversas.

Procuro imaginar suas vidas além dessa máscara que enxergo. Sei que você também faz isso. Quero saber como são suas rotinas fora daqui, de onde vieram, para onde estão indo. O que sonham fazer, o que as angustia agora, o que tem em suas casas, do que sentem falta, que carro dirigem, se já roubaram para comer alguma vez na vida. Fico imaginando quem é que os espera do outro lado dessa viagem aérea, quando chegarem em casa.

Foi o escritor John Gardner que disse certa vez que só existem dois tipos de histórias: a pessoa que sai em uma jornada ou um estranho que chega na cidade. Ele falava de literatura, mas talvez seja isso mesmo e eu não esteja entendendo. As histórias, de todos nós e os fragmentos que deixamos transparecer nessas amostras, nesses pequenos contatos que fazemos, no fundo se resumem a duas coisas.

Estou sozinho agora, sentando em uma mesa de restaurante, comendo uma fatia de pizza em que certamente falta alguma coisa na cobertura e espero o horário de embarque do meu voo de volta para São Paulo. É minha décima segunda viagem a trabalho esse ano. Estou cansado. Penso na frase do John Gardner e fico me perguntando onde é que me enquadro em sua sentença. Quem seria eu nesse escrutínio que faço se estivesse do outro lado do balcão me analisando? Personagem de que tipo de história eu sou?

Ainda hoje, um pouco mais cedo, liguei para casa para saber como as meninas estavam. A Nina atendeu o celular da mãe e ligou a câmera para conversarmos. Eu ainda tinha pelo menos 15 horas de viagem pela frente então e enquanto falávamos, ela caminhava por uma área aberta e me contava da festinha infantil em que estavam. De repente, parou de andar, olhou para o alto em silêncio e fixou o olhar por alguns segundos em algo que eu não podia enxergar. Então ela voltou:

– Pai.
– Oi.
– Acabou de passar um avião no céu. Queria que fosse você.

Entre uma garfada e outra na pizza, eu penso que falta orégano e certamente também falta alguma coisa na frase do John Gardner. Porque há um terceiro tipo de história, há uma outra narrativa, a saga que meu personagem vive nesse exato instante e em cada viagem que faço: um peregrino que volta para seu lar.

Por que sempre corremos de volta para o que nos espera, por que nossa alma só se completa quando reencontra a quem pertence. E às vezes isso é a busca de uma vida inteira, às vezes é a volta para casa de uma viagem e inúmeras vezes somos só nós no trânsito depois de um dia de trabalho. De volta para os braços de quem se ama, de volta aos eixos sobre os quais a vida gira diariamente, de volta para o pão com manteiga e café com leite, de volta para o coração de Deus. Todas as histórias são isso mesmo, ir e vir, os ciclos, partir e chegar, a jornada toda. E a vida se realiza na certeza aconchegante de poder ter para quem voltar.

Eu me vejo no outro lado do balcão, refletido num espelho. Já não me analiso ou faço perguntas. Sei muito bem para onde sempre volto.