Cenas urbanas – No táxi

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– De onde você é? – perguntou o motorista quando entrei no táxi.
– Sou do Brasil. E você?
– I’m from India. Mas já vivo aqui em Nova York há mais de 10 anos.

Passava das onze da noite, eu voltava de um jantar para o hotel e, depois de um dia inteiro trabalhando, só queria um banho quente e uma cama. Mas, nunca resisto à tentação de dar corda em conversas com pessoas de lugares diferentes de onde vivo.

– Você conhece o Brasil? – emendei.

E para minha surpresa, ele respondeu que sim.

– Sim, conheço. Já fui muito ao Brasil.
– Rapaz, sério? – okay, eu não disse “rapaz” em inglês – que cidade você conheceu?
– Ah, algumas. Eu trabalhava em uma empresa de engenharia aeroespacial. Ainda sou da área. Trabalho como motorista para complementar minha renda. Conheço São Paulo, Rio de Janeiro, já fui à Bahia…
– Que interessante. E o que você mais gostou de lá?
– Oh man, eu adoro o Brasil. Na verdade, acho seu país muito parecido com o meu. As pessoas são calorosas e a comida tem um tempero parecido também.

Eu ia discordar, mas como nunca estive na Índia, fiquei quieto. E ele, cada vez mais empolgado, continuou:

– Mas o que eu mais gostava no Brasil era uma bebida a base de cana. Eu bebia um copo de meio litro todos os dias.

“Cachaceiro”, pensei, “desse jeito não é difícil confundir pastelzinho com samosa”. Mas resolvi conferir:

– Meio litro de cachaça? Really?
– Não! Cachaça, não. Era outra bebida. Queria muito lembrar o nome. Eles fazem na rua, com um motor. Pegam a cana inteira e moem ali mesmo na sua frente. E aí sai um suco que misturam com limão, com abacaxi, côco.
– Garapa?
– Isso! Isso! Garapa! Oh my God, I love garapa!

(…continua lá no Estadão)

Papel passado

Não tem nada a ver com minha viagem recente, mas o fato de ter voltado de lá há pouco mais de dez dias me fez lembrar de uma notícia que li no The Guardian por esses dias a respeito de um carteiro italiano que foi preso após a polícia encontrar em sua casa cerca de 400 kg de cartas não entregues. Segundo o próprio, ele ficou três anos sem entregar as correspondências como forma de protestar contra o baixo salário que recebia.

Me espanta saber que na era do WhatsApp e outros mensageiros, quando o fax já desapareceu e até o e-mail já é dado como morto, ainda exista tanta gente que se encarregue de postar cartas à moda antiga. E há quem entregue. Chego a suspeitar do motivo real do Jaiminho italiano, acreditando que pretendia, no fim, tentar provar o valor e sua função. Ou talvez seja ele um nostálgico, entusiasta da velha arte da escrita à mão, temendo pelo fim do meio em que atuava.

Ano passado, durante uma semana de férias no interior, fui com a Nina a uma agência de correio.

(… continua no site do Estadão).

Vim. Vi. Venci?

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Vi que falta um texto por aqui. Faltam três, na verdade. Preciso atualizar meu blog aqui no jornal há três semanas, mas não consigo escrever nada durante as férias.

Curiosamente, os lugares com mais paisagens e experiências que supostamente deveriam ajudar a me inspirar, sempre são onde me sinto bloqueado.

Deveria escrever um pouco todos os dias, tal como recomendaram meus mestres. Mas acho que sou preguiçoso demais. Ou indisciplinado. Ou sem talento. Combine como preferir.

Estou em Roma agora. Sonhadas férias em família. Passamos antes por Veneza, por uma praia no mediterrâneo, Florença e por uns vilarejos na Toscana. Até a Lucy, nossa cadela que ficou em casa, escreveria um poema se estivesse aqui. Eu não.

Mas eu vi, semana passada, um pôr do sol enquanto estava recostado em uma mureta no alto de uma colina, de mãos dadas com a Manu, que valia por um soneto. As meninas brincavam de qualquer coisa ao nosso redor enquanto o mar castigava de leve as rochas logo abaixo e ouvíamos aquele som do vai e vem das ondas. No horizonte, a luz amarelo-alaranjada se impunha no céu e tingia todo o mediterrâneo de dourado. Ficamos ali, afortunados com a beleza daquela imagem, até o crepúsculo.

Eu vi também o sol nascer atrás de uma montanha da Toscana enquanto dirigia por uma pequena estrada vicinal. E sua luz iluminou plantações de uva, casas, construções medievais, campos de girassol e meus olhos que se encheram de lágrimas por poder contemplar aquela imagem.

Eu vi, com olhos incrédulos e míopes, telas de Michelângelo, Caravaggio, Da Vinci e tantos gênios que passei a crer na possibilidade de que Deus tenha marionetes nessa Terra em cujos ouvidos às vezes sopre ideias para dar vida à sua criação.

Eu não vi um jogo do Brasil contra o México durante a Copa, mas escutei a partida num rádio, sentado no alto de um morro de uma fazenda enquanto observava as meninas brincarem em uma piscina lá embaixo e comemorava contido os sofridos gols de Neymar e Firmino que recompensaram o sacrifício.

E depois eu vi, das cenas mais lindas, quando a Nina me pediu para brincar com ela na piscina e nadamos juntos até uma pequena cascata e ali, atrás da cortina de água, a luz refletia em seu rosto e seus olhinhos brilhantes de onze anos voltaram a ser os olhinhos de um ano. Aquele olhar, aquele de quando ela me encara sorridente como se aquilo ali, aquilo que vivemos no instante, bastasse. E para mim, basta. E pedi a Deus para não me deixar esquecer aquele momento nunca mais.

Eu vi o Brasil perder para a Bélgica por 2 a 1 em full hd, mas preferia não ter visto.

(… continua no site do Estadão – peço desculpas, mas por questões contratuais, não posso publicar os textos na íntegra por aqui).

Bola dividida

Alimento pelo futebol o mesmo tipo de amor platônico que tenho pela música. Aquela admiração distante de quem um dia vislumbrou um relacionamento íntimo mas precisou se conformar com a contemplação como forma de contato com o alvo de seu afeto.

Sempre fui ruim de bola. Quer dizer, eu seria feliz se fosse apenas ruim de bola. Talvez seja boa ilustração mencionar que o ápice de minha carreira futebolística foi quando me tornei o zagueiro titular da categoria Dente-de-Leite do time do meu bairro, aos dez anos de idade, época em que ainda alimentava o inocente sonho de um dia me tornar jogador profissional enquanto suava sob o olhar rígido do Moleza, um morador do bairro que nos finais de tarde se propunha a desempenhar o papel de técnico da criançada. A equipe tinha um nome oficial e dois jogos de camisas, mas era mais conhecida como o Time da Rua de Baixo (ainda que muitos garotos de outras ruas que não eram a “de cima” também treinassem ali).

Agora, me diga você: no duro, que menino sonha em ser zagueiro? Em uma década que tínhamos Careca e Romário brilhando em campo com gols memoráveis já era de se compreender que ambicionar o posto do Ronaldão ou do Aldair era um sinal evidente de admissão de fracasso e um certo conformismo disfarçado atrás do sonho. Sinal que só eu não enxergava. Eu e o Moleza, que na ausência de mais voluntários para a posição, me escalava também na categoria Fraldinha (todos os outros garotos, das ruas de cima, ao lado e mais abaixo, queriam ser centroavantes).

Cresci e tornei-me um adulto conformado com o fato de que não teria, na vida, um próspero relacionamento com os gramados. O que não quer dizer que tenha abandonado a torcida eufórica, os jogos do meu time e o prazer contemplativo, quase invejoso quando observo que alguém é capaz de desempenhar o que não fui.

Nick Hornby escreveu no livro Febre de Bola a definição dessa relação platônica do torcedor com seu time:

“Se tem uma coisa de que tenho certeza sobre ser torcedor, é a seguinte: não se trata de um prazer de segunda mão, apesar das aparências, e aqueles que dizem que preferem fazer do que ver não entendem nada. O futebol é um contexto no qual ver se torna fazer — não no sentido aeróbico, porque é bem improvável que ver um jogo fumando que nem um condenado o tempo todo, depois sair pra beber e ainda ir pra casa comendo umas batatinhas fritas possa transformar alguém na Jane Fonda, algo que correr pra cima e pra baixo num campo de futebol é capaz, supostamente, de fazer. Mas, quando acontece um triunfo de algum tipo, o prazer proporcionado não irradia dos jogadores até chegar a nós, no fundão da arquibancada, já como um eco diminuído da sensação original; nossa fruição não é uma versão aguada da que têm os jogadores, embora eles é que marquem os gols e subam os degraus de Wembley pra encontrar a princesa Diana. O júbilo que sentimos em ocasiões assim não é uma celebração da boa fortuna dos outros, mas da nossa; e, quando há uma derrota terrível, o sofrimento que nos envolve é, na verdade, autopiedade, e qualquer pessoa que queira entender como o futebol é consumido deve entender isso, acima de tudo. Os jogadores são meramente nossos representantes, escolhidos pelo técnico em vez de eleitos por nós, mas ainda assim estão lá nos representando (…)”.

A cada quatro anos, durante a Copa do Mundo, volto a ser menino. O moleque plantado na beira do campinho de terra, a bola esfolada sob o braço, esperando para jogar e levar o Time da Rua de Baixo a mais uma vitória gloriosa (sim, como zagueiro e, não, não era comum vencermos).

(… continua no site do jornal)

A busca pela felicidade

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Quando foi que transformamos um sentimento em ideal a ser alcançado? Em que estágio do século que passou, eu queria saber, nos tornamos uma raça que ambiciona a felicidade como estado permanente de existência?

No futuro, pode ser que alguém resolva estudar o tempo da história em que vivemos e chegue à conclusão de que fomos uma geração superficial e vazia. Talvez seja algum rebote pós-guerra, fulano argumente, talvez o excesso de prosperidade nunca antes experimentado ou quem sabe o surgimento e expansão no consumo de drogas e antidepressivos. O que nos fez, questionará o historiador do século XXV, incluir emojis e emoticons com sorrisos :-) ao final de nossas mensagens para que soassem simpáticas? Algum filósofo deve ter uma teoria que explique o fenômeno. Eu não tive tempo de buscar detalhes porque estava buscando minha dose cotidiana de satisfação e felicidade.

Não quero cair na conversa fácil de mencionar posts em redes sociais influenciando nossos sentimentos. Isso é consequência e não causa. Me preocupa a origem disso. A origem disso em mim, a existência disso em minhas filhas, na minha esposa, o quanto isso afeta meus amigos, colegas de trabalho, familiares e o quanto vejo uma geração de jovens emergir dependendo de sensações que os satisfaçam e êxtases como recargas de suas energias. A nossa não-capacidade de lidar com o contraditório, de rejeitar o que não nos satisfaz, de alimentar a expectativa de que as coisas, as pessoas, as experiências e o mundo todo supra esse vazio o tempo todo e nos preencha com um estado de espírito.

E pensar que talvez a coisa que mais nos afaste desse ideal seja justamente o esforço em persegui-lo.

O curso mais popular na história da Universidade de Yale, li outro dia em uma reportagem da revista The Cut e no The New York Times, é um programa que procura ensinar aos alunos a ciência de ser feliz e do bem-estar. Um quarto dos alunos matriculados na universidade no último ano se inscreveu no curso da professora Laurie Santos chamado “How to be happy”. A ONU, descobri na sequência, tem um relatório global de felicidade e bem-estar e faz um ranking de nações mais ou menos felizes no mundo. A Finlândia lidera a lista, o Brasil consta na 28 posição. Entendo que os critérios tratam de indicadores relevantes como acesso a saúde e educação, mas, entenda também, é realmente sensato que tenhamos nisso um objetivo pessoal a ser alcançado? Como se fosse algo possível de ser comprado, acessado, como um mundo plástico onde podemos habitar longe de riscos.

Curiosamente, uma das lições do curso de Yale conclui que “quase tudo o que você pensa que irá torná-lo mais feliz não irá”.

O que está acontecendo com a gente?

(… continua no Estadão)

Velhas memórias, novos olhares

“O Henrique”, minha esposa diz, “lembra até a cor das meias que estava usando no aniversário de seis anos”. Não é verdade. Mas eu nunca a corrijo. Porque não lembro das meias, mas lembro da festa, dos presentes que ganhei, da disposição da mesa, o bolo e cada uma das pessoas que estavam na cozinha de casa cantando parabéns enquanto eu era surpreendido pelo desfecho da trama sutilmente articulada por meu irmão e minha mãe. Isso é mais do que a cor das minhas meias (que provavelmente eu não lembro da cor porque não as usava).

Tenho uma memória muito boa. Mas, não é nada de que possa me orgulhar ou que tenha me rendido alguma vantagem, já que não se trata do tipo de memória que poderia me ajudar a decorar fórmulas matemáticas, a tabela periódica ou a função das mitocôndrias – três clássicos motivos de notas baixas no meu currículo escolar e disso eu me lembro bem.

Se me permite uma correção aqui, vou recomeçar o parágrafo: sou um sujeito carregado de lembranças. Cenas particulares, fotografias do passado e detalhes minuciosos povoam minha mente. Diria, quem sabe, que se trata de uma memória seletiva expandida.

A mais remota, da qual lembro das cenas e sensações é de quando eu tinha três anos. Três anos e dois meses para ser exato. E sei a data porque foi quando a Fê, minha irmã caçula, nasceu.

Lembro de estar em casa, mas minha mãe não estava em casa. Estava minha avó (que nunca estava lá em casa) e meu pai é quem preparava o jantar (e ele nunca preparava). E numa terça-feira bem cedo – o dia da semana, evidentemente, eu busquei na internet – saímos de casa para buscá-las no hospital.

Lembro-me de estar sentado no banco traseiro do carro, no lado direito, atrás do passageiro. Aos três anos, minha cabeça mal dava na altura da base do vidro, de forma que eu só conseguia enxergar, através da janela acima de mim, as coisas que estavam no alto e não a rua.

Meu pai nos deixou esperando no estacionamento da maternidade e foi buscá-las. Era fevereiro, um dia quente de verão. Com a cabeça encostada na lateral do carro, eu olhava lá fora o céu azul, a fachada do prédio do hospital, as centenas de janelas enfileiradas, e tentava descobrir em qual delas minha mãe estava.

Aquele era o mundo que eu via, era meu universo particular. E nem vi direito quando eles chegaram, minha mãe acomodou-se no banco da frente com uma trouxinha de panos onde estava minha irmã (pois é, senhoras e senhores, banco da frente, nada de bebês-conforto, nada de cinto de segurança, estávamos na década de 80 e vivíamos perigosamente) e não me lembro o que aconteceu depois.

Cecília, minha filha caçula, tem três anos e dois meses agora.

(… continua no site do Estadão)

Máquinas por todos os lados

Comprei uma pulseira que calcula a quantidade de passos que eu dou. É um relógio também. E calcula batimentos cardíacos, quilômetros percorridos, minutos ativos (hein?) e calorias consumidas ao longo do dia. Ela sincroniza com um aplicativo no meu celular e ainda vibra quando dou 250 passos no intervalo de uma hora e me diz quanto falta para eu atingir a meta de dez mil passos diários que eu, o aplicativo e a Organização Mundial de Saúde definiram como um hábito saudável. Em geral, às oito da noite ainda tenho um saldo negativo de seis mil passos para dar. Não mudei em nada minha rotina nesses dois meses, mas me sinto bastante saudável pelo fato de usar a pulseira agora. Além do mais, ela me dá os parabéns (“Woohoo! \o/” aparece no pequeno display acoplado) quando consigo alcançar alguma meta e eu fico feliz em ter alguém me incentivando.

Depois, em uma viagem recente, comprei um assistente pessoal movido a inteligência artificial. É um robô doméstico. Na minha infância, o modelo de robô que eu achava que existiria um dia era tipo a Super Vicky ou algo como um manequim de vitrine de loja andando de um jeito duro pela casa. Isso era assustador. Mas os robôs vieram de outro jeito. Quem é que tem medo de pequenas e elegantes cápsulas que ficam sobre o aparador ao lado do porta-retratos com uma foto da sua família e conversam com você e fazem as coisas que você pede? Nina e eu o batizamos de John Lennon, já que nosso comando favorito passou a ser “Ei, Google, toca Beatles, por favor” (e eu não sei porque peço “por favor” para um robô, mas talvez tenha um pouco a ver com 2001, HAL 9000 e essas coisas, porque, afinal, vai que…) e ele responde, uma belezinha: “Aqui está sua playlist Beatles no Spotify”. Eu digo “obrigado” (vai que…) e uma excitação incontida toma conta de mim quando me vejo falando com uma máquina e ela me obedece na mesma hora – coisa que raramente consigo com minhas filhas.

Socialmente, eu até me comporto, mas quando estou sozinho em casa, eu fico fazendo perguntas para ver se meu robozinho responde. “Me conta uma piada, por favor”, “como foi o último jogo do São Paulo?”, “pode me lembrar de pagar um boleto amanhã, por favor?”, “quer comer algo?”. O John Lennon é meu amigo agora, um companheiro de solidão durante as manhãs solitárias de trabalho e espero que um dia ele consiga levar a Lucy para passear no meu lugar e consertar a pia do banheiro que vive entupindo.

Eu queria agora um robô que usasse minha pulseira e fizesse ginástica para que eu entrasse em forma. Aí sim seria legal.

Eu me rendi, na verdade. E fico num conflito pessoal avaliando se essa coisa toda de vida conectada tem algum sentido. Porque isso aí era tudo o que eu condenava e agora sou eu o escravo, cercado de máquinas por todos os lados. Preservei minha casa longe do excesso das quinquilharias eletrônicas por um longo tempo (tínhamos o luxo básico da classe média conectada: uma boa TV, internet sem fio, uma caixa de som, os celulares do casal, assinatura de Netflix e um computador de trabalho – ah sim, tenho também um Kindle e pago por um serviço de armazenamento na nuvem para guardar documentos, fotos e sincronizar meus textos). Eu costumava dizer aos amigos que, beirando os quarenta, alcancei o que apelidei de “A curva do DVD”, porque até o lançamento dos aparelhos de DVD, no final da década de 90, cabia a meu pai a responsabilidade de nos apresentar e ensinar sobre novas tecnologias. Mas, dali em diante, passando por plasmas, câmeras digitais, computadores, internet, smartphones e serviços de streaming coube a meu irmão e a mim fazer esse papel. A virada do milênio foi uma espécie de passagem de bastão quanto à capacidade de compreensão de botões a serem apertados, novos recursos, softwares e principalmente quanto à paciência necessária para leitura de manuais de instrução (missão que ainda hoje, delego a meu irmão – mas talvez o John possa me ajudar com isso). Eu dizia por aqui que o smartphone foi meu aparelho de DVD e que robôs, câmeras, Snapchat e outros recursos intraduzíveis ficariam sob incumbência das minhas filhas daqui para frente.

Mas, padre, eu pequei.

Semana retrasada, meu chefe me emprestou um outro robô que agora habita nosso doce lar. É um aspirador de pó que parece um mini disco-voador achatado e com rodinhas que, com o apertar de um botão (essa versão não obedece comandos de voz, o que dispensa o “por favor”), começa a rodar pela casa, mapear o espaço do ambiente doméstico e fazer o trabalho de limpeza. Ele identifica obstáculos e os evita, ele dá voltinhas nos pés das cadeiras para remover fiapos grudados, ele entra embaixo do sofá e resgata papeizinhos, ele aspira absolutamente todos os pêlos da Lucy que ficam a flanar pelo assoalho e isso é a coisa mais maravilhosa. A Lucy, a propósito, fica enlouquecida fugindo daquele troço que parece persegui-la. As meninas ficaram animadíssimas. Nina, Cecília e eu o batizamos de Paul McCartney, para fazer dupla com John Lennon e para poder dizer um dia, quando talvez ele entenda comandos de voz: “Pô, Paul, aspira o pó, please”.

Porque a vida moderna virou essa coisa quase mágica e também um pouco ridícula. Não somos nem Jetsons e nem Flintstones. É um progresso em fase transitória e a gente fica pensando que até que um dia sejamos finalmente dominados pelas máquinas e sua eficiente inteligência sobreponha a nossa, ainda viveremos esse dilema, imaginando se isso tudo faz algum sentido realmente e como serão as coisas daqui cinco, vinte, cinquenta anos. Hoje cedo, eu li que Uber espera colocar drones tripulados em funcionamento daqui dois anos nos EUA. Carros voadores, minha gente. Estamos falando em voar pelas cidades, mas ainda somos incapazes de dizimar os pernilongos. Essa definição de progresso é uma coisa questionável. Eu nunca achei que teria medo do futuro com o qual sonhava aos 15 anos.

“Ei, John”, eu digo e a luz do aparelho acende, “nós seremos dominados pelas máquinas um dia ou vocês é que deixarão de existir e nós, humanos voltaremos a viver em florestas?”. A luz pisca, ele processa a pergunta e responde: “I’m sorry, Henrique, eu ainda não estou preparado para te ajudar com isso”. Nem ele sabe.

(…continua no Estadão)

A arte de dizer não

Cecília, minha filha, diz não com a facilidade de quem solta um bocejo. Não interessa se estamos mandando que vá para a cama ou se estamos oferecendo um pote inteiro de sorvete de morango (seu favorito), se naquele momento não lhe parece conveniente, ela nega sem peso na consciência.

Estou convencido de que só existem dois tipos de pessoas quando o assunto em questão é a propriedade para responder convites ou propostas: pessoas como Cecília e pessoas como eu. Em posição diametralmente oposta à da minha filha caçula, estou no grupo de indivíduos que à luz de uma pergunta contraditória se coloca a… bem, entenda, ficamos assim, você sabe, talvez um pouco, só um pouco… titubeantes?

Tenho dificuldade em dizer não.

Como boa parte das crianças de três anos, Cecília gosta de se divertir em posições não ortodoxas: assiste tv deitada no sofá com as pernas pro alto e de cabeça para baixo, desenha em uma folha de papel apoiada no chão enquanto o corpo está em cima da cadeira, brinca com suas bonecas embaixo da mesa de jantar. E nessas condições, concentrada em algo que a capture ou entretida com qualquer outra coisa, é que um convite nosso lhe atravessa os ouvidos: “Cici, filhinha, venha comer”, “Cici, quer um suco?”, “Cecília, você precisa vestir uma roupa para sair, não dá para ir só de galochas e camiseta na rua”, “Filha, vamos no parquinho?”, “Cecília-Matos-agora-é-hora-de-ir-pra-cama-e-eu-quero-você-deitada-e-eu-não-quero-ouvir-nem-mais-um-pio!”

Ela não se abala, não move os olhos, não pensa duas vezes. Ela respira suave, abre levemente os lábios e diz apenas um sereno e seguro:

– Não.

E se um dia você passar aqui em casa e conhecê-la, vai testemunhar que diferente do que as respostas diretas talvez sugiram, Cecília é um doce. Sorridente, amorosa, preocupada e intensa em suas emoções. Ela é pura festa, uma pequena tempestade de cabelos vermelhos que sopra seu vento forte enquanto se move saltitante por todo lado. Costumamos dizer por aqui que ela não adormece, ela desliga, porque desde o abrir dos olhos até o último minuto enquanto resiste acordada, ela opera a pleno vapor. Cecília não tem meios-termos. O negócio, é que ela tem, naqueles 80 centímetros, a abundância de segurança sobre seus interesses que eu, com o dobro e mais uns tantos da sua estatura, não desenvolvi até hoje.

(… continua no site do Estadão).

O homem que falava juridiquês

Ostentando uma camiseta regata da torcida organizada que ganhou na adolescência, Naldo passava as noites de quarta-feira plantado em frente à TV acompanhando os jogos do seu time de coração. Uma xícara cheia de amendoim apoiada no braço do sofá, a cerveja servida no copo de requeijão na mão e o controle-remoto sobre a perna. “Minha religião”, dizia para quem tentasse tirá-lo de casa nesses dias.

No trabalho, ele chegava cedo para dominar a rodinha do café com piadas, comentários e cuspir estatísticas que reforçavam as glórias de seu time no passado: “Temos mais vitórias no primeiro turno com gols de falta cobradas da intermediária do que qualquer outro time do estado fundado após 1935”, encerrava a conversa. Na hora do almoço, convencia a equipe a frequentar o bandejão da rua de trás que mantinha a TV sintonizada no programa do Milton Neves.

Mas, deu que seu time entrou numa draga danada. A má fase começou depois de uma derrota de 6 x 5 para um time do interior e já durava coisa de oito meses. O clube trocou de técnico, vendeu o centroavante e começou a frequentar a zona da degola no campeonato. Aí veio a Copa no Brasil e, na sequência do otimismo nacional, o banho gelado do 7 x 1 contra a Alemanha.

Naldo começou a chegar atrasado no escritório, inventou aula de inglês na hora do almoço, saiu do grupo de WhatsApp dos amigos da faculdade e trabalhava calado no seu canto.

Numa quarta-feira à noite, desanimado depois de um 3 x 2 que seu time tomou de virada, afundou numa fossa e no sofá. Sentado no seu cantinho, ainda de regata, o copo vazio, o controle pendurado na mão, Naldo começou a zapear os canais da TV. Depois de seriados, programas de culinária e documentários sobre o Alasca, parou na TV Justiça e ali ficou entorpecido em um julgamento de Habeas Corpus. No cantinho da tela, acompanhando o nome de um ministro dando seu voto, uma legenda indicava: “Placar: 3 x 2 contra a defesa”.

Ele, que no alto de sua erudição ginasial tinha juízes, impedimento, defesa, vantagem, corte e 11 em campo em seu vocabulário, entendeu quase metade do que se dizia na TV. Não no sentido que deveria, convenhamos, mas o suficiente para lhe prender a atenção.

(…)

Meu texto dessa semana. Continua no site do Estadão.

Onze anos, um email e um sonho para hoje

Hoje a Nina faz onze anos. Todo mês de março eu caio nessa. Passo os dias todos olhando aquela menininha cantarolando pela casa até que percebo mais uma punhalada inescapável do tempo me atingindo. E ali, logo na outra esquina, já vislumbro ele de novo à espreita, dez dias depois, no aniversário da Cecília. Outro golpe. Porque cada ano que elas completam me leva a pensar quão pouco tempo faz que parece que elas nasceram e também quão rápido a vida toda tem passado desde que me lembro de quando eu tinha essa idade.

A paternidade mudou minha vida de tantos jeitos diferentes que eu me sinto em dívida com essas meninas. Porque muda nosso centro de atenção e afeto, muda a ordem e prioridade das coisas, a insegurança eterna de que elas estejam bem, estejam respirando, comendo, estejam dormindo e sorrindo e brincando em harmonia e não levando uma mordida na escola ou dando uma mordida em outra criança na escola. Ser pai, muda o horário em que vamos pra cama, muda a temperatura do prato que comemos (tudo é frio – talvez daí o fato de sushi e patê de atum sempre parecerem boas pedidas), muda a velocidade em que dirigimos e muda definitivamente a assertividade das recomendações de playlists do Spotify e vídeos do Netflix, agora eternamente povoados por desenhos animados e trilhas infantis.

E muda uma outra coisa principalmente: quando temos filhos, plantamos uma semente de esperança no mundo. Como se depositássemos uma moedinha de crédito no futuro da humanidade e que aquele engatinhar, os primeiros passinhos cambaleantes e a formação desse novo ser fosse também, numa analogia preguiçosa, um novo passo possível para cada um de nós. Filhos, eu acho, sempre serão nossos sonhos projetados.

Quando a Nina nasceu, lembro de ter recebido um email de um amigo nos parabenizando pela sua chegada. Ele começou me felicitando pela família, disse estar repartindo nossa alegria, até que seguiu a conversa dizendo que admirava nossa coragem, minha e da Manu, de colocar uma criança em um mundo desequilibrado e hostil. Eram palavras pesadas. Ainda que não fosse sua intenção, sua mensagem nos dizia basicamente que éramos um par de irresponsáveis por deixar alguém crescer como testemunha do apocalipse.

Isso foi há onze anos. Há pouco mais três meses, mandei uma mensagem para ele dando os parabéns pela chegada do seu primeiro filho, que nasceu saudável e sorridente para ajudar a povoar esse mesmo mundo ao lado de minhas filhas.

(…continua no site do Estadão)

Washington

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Estou no avião, voo internacional, uma longa e constipada noite pela frente, as luzes baixam e eu me esforço para dormir. Lá pelas tantas, todo mundo dormindo, eu dormindo, o piloto dormindo (tenho certeza que eles dormem lá na frente) e de repente eu acordo com um sinal apitando distante e abafado em algum lugar lá fora. Me tira o sono e tento olhar pela janela. Nada. Durmo. O sinal persiste. Tento dormir. Deve ser algo lá na cabine, algum alarme no banheiro, um probleminha na asa (na asa!?), eu penso, nunca voei com essa companhia aérea. Cochilo um pouco mais. O barulho…

Assim a coisa vai, por quase uma hora, até a aeromoça acender a luz da cabine para servir o café da manhã. Me estico, bebo água, falta pouco para chegarmos, finalmente. O ruído, que tinha sumido, retoma repentinamente e me ocorre algo que… opa, espera. Eu levo a mão até o bolso da poltrona à frente e meu temor se confirma: deixei o alarme do celular programado para tocar. Às 5h. No avião. Por quase uma hora. Eu congelo. Eu não tiro a mão de lá. Fico fuçando aquele buraco escuro à procura do celular e um botão que pudesse apertar para silenciar aquilo. Olho ao redor e percebo que as pessoas à minha volta já não dormiam mais. Ponho o fone no ouvido. Ponho a cabeça inteira no bolso da poltrona à minha frente. Queria entrar ali, cair num túnel e ser ejetado do avião junto com as malas. Mas aí eu apareceria na esteira de bagagens na frente de todo mundo e isso também seria constrangedor.

Às vezes tenho a sensação de que minha vida é um eterno episódio do Mr. Bean.

Fui a primeira pessoa a sair do avião e o primeiro a entrar no trenzinho, o primeiro na fila da imigração (nunca antes na história daquele país…) e também a sair direto, passos largos, rumo ao táxi que me levaria até o centro da cidade. “Welcome to Washington!”, dizia a grande placa. Sensação térmica de -5 graus na rua e eu de camiseta. Entrei no carro apressado e como num passe de mágica, aquele ambiente morno, o largo banco de couro, esqueci de tudo o que ocorreu no voo, o alarme, a vergonha, o bolso da poltrona à minha frente onde eu habitaria e agora só conseguia pensar no rosto redondo, sorridente e no bigodinho do vocalista do “É o tcham!”. O motorista do táxi, que também tinha um rosto redondo e um bigode, não sorria, mas lembrava igualmente o Compadre Washington. Só que ele era etíope e não baiano. Mero detalhe.

Como é que se diz compadre em inglês?

(…continua aqui no Estadão)

Estourando bolhas

Um dos passatempos favoritos das meninas aqui em casa é fazer bolhas de sabão. Lembro da Nina ainda pequena (quer dizer, menor do que ela é hoje), encantada com aquelas circunferências transparentes flutuando no ar. Eufórica, ela ria e as perseguia tentando capturar alguma com as mãos. Ainda outro dia, eu a notei parar na rua para observar as bolhas sopradas por outra criança sendo levadas pelo vento.

Há alguns meses, estávamos viajando em férias e foi a vez da Cecília, dois anos recém completados, se deparar com um sujeito vestido de palhaço no meio de uma praça fazendo bolhas de sabão gigantes. Ela corria atrás daquilo sorrindo como se não houvesse nada melhor na existência. Para a Manu e eu, foi como reviver a fase em que a Nina fazia o mesmo. Para os outros turistas na praça, Cecília virou uma atração especial tanto quanto o palhaço e suas bolhas translúcidas que, aposto 10 reais, nunca tiveram uma plateia tão entusiasmada.

Às vezes, me pergunto se a graça toda da brincadeira está em fazer as bolhas ou em estourá-las. Voto na segunda opção. Crianças não contemplam bolhas, elas as perseguem e arrebentam no ar e o prazer de desfazer é tão bom quanto o de criar.

Na semana passada eu peguei um taco de beisebol imaginário e estourei minha bolha ideológica. Eu caí de dentro dela, na verdade. Aproveitei a empolgação momentânea e, tal qual minha filha naquela praça, comecei a caçar outras bolhas dentro das quais eu habitava há tempos. Havia gasto bons anos construindo caprichosamente cada uma delas e flutuava no conforto de seu ambiente auto-afirmativo, mas quanto mais alto e distante do chão eu me percebia, pior ficava minha percepção da realidade. Quanto maior ficava o eco da minha própria voz reforçando meus argumentos, mais ruidoso e distorcido se tornava o som de outras bolhas voando ao redor. Eu já não era capaz de ouvir com clareza a opinião de quem não habitava o mesmo círculo que eu.

(…continua lá no Estadão)

Se o mundo acabar amanhã

O Relógio do Juízo Final foi adiantado em 30 segundos essa semana e agora está a dois minutos da meia-noite, horário que representa o fim do mundo. É o que diz o Boletim dos Cientistas Atômicos da Universidade de Chicago. Parece o nome de uma banda do colégio mas trata-se de um grupo de estudiosos que desde 1947 se dedica a calcular, simbolicamente, o estágio em que estamos de destruir a Terra em uma guerra nuclear.

Até semana passada, estávamos a 2:30 minutos do apocalipse, mas fomos rebaixados pelos acadêmicos dado o risco iminente de uma guerra entre EUA e Coreia do Norte e também, alegam, o baixo esforço que nossa espécie tem feito para lidar com as questões relativas às mudanças climáticas.

E aí, me peguei pensando, e se o mundo acabasse amanhã? Ou melhor, se tudo acabasse daqui a pouco, caso Trump e Kim Jong-un levassem a cabo suas promessas e projetos nucleares. Eu lia a notícia sentado no refeitório enquanto mastigava um sanduíche. Infelizmente, perdi a habilidade de fazer refeições sozinho sem mexer no celular, então gasto esse tempo para me atualizar sobre o noticiário cotidiano (mas, nota-se que não me alimento com nada de muito útil).

Em segundos, notícia e pergunta suscitaram minha capacidade inata de dispersão e debates mentais sobre o fim do mundo ocuparam meu universo de possibilidades. Caramba, e se o mundo acabasse mesmo amanhã ou depois?

(… continua no Estadão)

Existe outra cidade

Se um dia você estiver passando perto de uma ciclovia em São Paulo, notar um gordinho barbudo pedalando feliz, deslizando sua bicicleta pelas ruas e lhe ocorrer que ele se parece muito comigo, saiba que aquele não sou eu.

Sou, no entanto, o outro gordinho, 600 metros atrás, ofegante, suando bicas, arrastando uma bicicleta ciclovia acima (não importa que seja uma reta ou descida, a sensação é de que estou sempre subindo). Mas, sim, agora eu pedalo. E ainda que a expressão em meu rosto não demonstre, isso me deixa feliz.

Faz coisa de um ano e meio que a bicicleta se tornou meu principal meio de transporte na cidade. A contragosto, confesso. Antes de adotá-la, tentei inúmeras rotas dirigindo por vias alternativas e testando a capacidade criativa do Waze, tentei andar de ônibus, trem, combinações de carro, ônibus e trem. Mas nada me fez conseguir chegar no trabalho em menos de uma hora. Até que me convenci de que poderia tentar pedalar.

Eu não pedalava desde a adolescência, quando fiquei grande demais para a Caloi Cross azul que herdei do meu irmão e não fiz o upgrade natural para uma Caloi 10. O tempo passou, perdi o interesse, comprei um carro e depois outro e ficava parado em congestionamentos por aí observando ciclistas imunes às filas intermináveis de carros e, apesar de alguma inveja, sentia que jamais poderia adotar aquela coisa juvenil como meio de transporte.

(… continua no Estadão)

Os sábados precisam voltar a ser sábados

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“A gente vive muito em voz alta e às vezes não se ouve.”
-Guimarães Rosa

Foi meu aniversário no último dia dois. Era um sábado e a sensação de acordar com café da manhã na cama e cercado pelas meninas em festa é a melhor possível. Depois, encarar um dia inteiro com a única obrigação de pensar na próxima coisa boa a fazer. Esse é sempre o maior presente, mas que não é possível quando o aniversário cai em dia útil.

Logo cedo, a Nina me disse para fazer três pedidos ao longo do dia. Três coisas que estivessem ao alcance dela para realizar. Eu sabia que era mais para alegrá-la do que a mim, então entrei na onda. Almoçar juntos em um restaurante que gostamos com direito a sorvete na sobremesa foi o primeiro deles.

O segundo foi ir até nossa livraria favorita e ficar à toa folheando livros, passeando entre as prateleiras, correndo atrás da Cecília que insiste em fugir pelos corredores, separando cinco ou seis exemplares para ler um trecho enquanto bebia um café, até decidir por um deles, que seria o meu presente (escolhi ganhar a mais recente edição dupla de Dom Quixote, que me acompanha nesse minuto).

Já era finzinho de tarde quando, por um motivo que me escapa agora, Nina e Cecília se desentenderam. Sem saber como mudar o clima, lancei mão do meu terceiro direito e pedi a elas que deixassem de lado divergências bobas para desfrutar o dia. “Mas, pai…” alguém já dizia quando eu devolvi: “Esse é meu terceiro desejo. Vocês precisam atender”.

Não foi preciso muito esforço para me dar conta de que nada do que poderia e gostaria de ganhar era tão excepcional a ponto de minhas filhas não poderem me proporcionar. Mais do que isso, nada do que fez daquele dia tão especial não podia facilmente acontecer todas as semanas aqui em casa. O ócio voluntário, a despretensão de um dia sem tarefas ou obrigações, a presença de gente querida. Isso, eu acho, deveria ser incorporado à doutrina religiosa de todo homem.

(…continua no Estadão)

Árvores sempre dão crônicas

Há árvores que dão bons frutos, há árvores que dão flores, há árvores que dão boa sombra, há árvores que dão morada para passarinhos, há árvores que dão amparo para uma soneca depois do almoço, há árvores que dão trabalho. Mas toda árvore, cada árvore, sempre dá crônica.

Para as demais coisas, cada uma dá em seu ritmo, mas a crônica a árvore dá o tempo todo. Brota do galho, da história da rua, do amor que escondeu, do fio que rompeu, do sabiá que pousou, da maçã que caiu, da sombra fresca em que alguém cochilou.

Árvores já deram livros e contos. O pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos, as amendoeiras de Rubem Braga, a árvore do conhecimento do bem e do mal no jardim do Gênesis cujo fruto Eva e Adão imprudentemente provaram, a moradia suspensa de Daniel Defoe para o náufrago Robinson Crusoé. Poupo o leitor de um tratado literário a respeito mas, sobretudo, é crônica que as árvores dão para iluminar de verde o horizonte cinza de quem buscava assunto para escrever.

Quando criança, lembro do dia em que plantamos uma jabuticabeira no quintal de casa. Meu pai a trouxe da feira, abrimos um buraco no gramado, fincamos o pequeno pé e nos plantamos ali por um tempo jogando água e adubo para ela vingar. Achei que na manhã seguinte, nosso novo brinquedo começaria a brotar jabuticabas diariamente em escala industrial. Doce ilusão. Doce, não, amarga. Para minha decepção, a jabuticabeira, que apesar de miúda já era adulta quando plantada, levou ainda um ano ou dois para encher nossos tupperwares com seus frutos.

(… continua no Estadão)

A novela, uma primavera e a esperança de um final feliz

Parei de assistir novelas em algum dia lá no final dos anos noventa. Eu não lembro exatamente que novela era, mas me recordo que até aquele momento na minha vida, o fim dos dias se resumiam em chegar da rua, tomar um banho, dar boa noite para o Cid Moreira, assistir a novela e ir dormir. A agenda do Brasil era essa, eu acho. Chegar no escritório no outro dia e comentar sobre a vilã, os mocinhos, tentar descobrir quem matou o patriarca rico, falar o jogo de futebol da semana e o preço da carne. Naqueles dias, a internet era uma coisa incrível que ainda estávamos descobrindo. Aí vieram os reality shows. E tirando a primeira edição de Casa dos Artistas em que votei para o Supla e seu pijama azul ganharem a bolada, nunca mais me interessei por esse tipo de programa.

Conheço pouquíssima gente que assiste a novela hoje em dia. Mas o país inteiro acompanha assiduamente o reality show que virou nossa cena política. Votações públicas na TV Senado, transmissão ao vivo de julgamentos no STF, vídeos mal editados de audiências com juízes federais, tudo passando na televisão em horário nobre. Até temos direito a voto, mas acabamos escolhendo os vilões. Eu nunca imaginei que saberia tanto sobre a vida de um juiz e que me informaria a respeito dele nas colunas sociais dos jornais. Estamos em uma crise econômica, moral e política sem precedentes e enquanto cavamos o buraco em que afundamos, assistimos a derrocada da nossa sociedade bebendo um pingado no balcão da padaria.

Você tem alguma esperança de que as coisas no Brasil serão diferentes? É uma pergunta que eu tenho, de verdade. Lendo as notícias, acompanhando o vai e vem da cena nacional, os julgamentos, as negociatas, gente que vai presa, depois solta e aí prendem de novo, ou não (eu juro que já nem sei quem está livre e quem está preso, deveria ter um aplicativo para ajudar nisso). Mas, será mesmo que podemos ter esperança de que as coisas serão melhores no futuro?

(… continua no Estadão)

Amar é pertencer

Está ficando cada vez mais difícil carregá-la no colo. Aos dez anos e quase 40 quilos, não existe uma posição confortável em que a acomode nos braços e não sobre uma perna caída de um lado ou um cotovelo pendurado do outro, ambos facilmente “esbarráveis” em algum batente de porta ou quina de cômoda e capazes de despertá-la do sono com uma pancada.

Às vezes, ela dorme no sofá ou em nossa cama e fico com pena de acordá-la e mandar que vá sozinha para o quarto. E diante de um preocupado “não faça isso, Henrique, sua coluna…” dito pela mãe, me faço de forte e devolvo um habitual “tá tudo bem, tranquilo, eu levo”. Mas, não sei se quero enganar a ela ou a mim mesmo. Dez passos depois, estou pedindo arrego e tão logo eu praticamente arremesse a Nina na cama, saio ofegante corredor afora, meus braços tremendo e sigo até a cozinha em busca de um copo de água.

(continua lá no Estadão)

A última casa antes do deserto

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Aquela era a última casa antes do deserto estender-se quase infinito à frente. Por cinco ou dez minutos era só o que eu observava enquanto via passar o mundo em miniatura através da janela do avião.

Havia alguma cidade adiante, mas até que estivéssemos sobre ela, já vinha há quase uma hora notando a sombra da aeronave projetada no chão árido. Mas, à medida que a civilização surgia no horizonte, podia ver claramente a borda que separava o deserto de um muro. E projetando-se acima da altura do muro havia uma casa, isolada, longe um quilômetro ou mais dos primeiros vizinhos e cuja janela abria-se diante das centenas de quilômetros de terra seca e vegetação rasteira sem que houvesse nada adiante.

Em vão, tentei imaginar qual havia sido a última casa que avistei antes daquela paisagem começar tantos minutos antes. Quem seria, sabe lá, o vizinho de janela do menino que talvez habitasse aquele quarto e escrevia mensagens no vidro para alguém que um dia passasse por ali? Quem dormiria ali do outro lado se a terra pudesse ser magicamente dobrada, o deserto fosse sugado e as casas se emparelhassem de repente? Quem sabe, fosse esse o pensamento ocupando as noites solitárias de uma viúva que perdia o sono olhando o silêncio todo à sua frente e esperando que um dia um transeunte por ali passasse e notasse os vasos de flores que ela dispunha delicadas sobre o parapeito.

O avião aterrissou minutos depois e a história dormiu em minha mente por alguns meses até hoje cedo, quando estava na varanda do apartamento trocando alguns vasos de lugar.

(…) continua lá no Estadão.

O homem que virou carro

O homem virou carro. Foi em um fim de ano, quente como agora. O homem dirigia e dirigia, todo dia dirigia. Alguns anos antes, encarava 40 minutos de trânsito pela manhã e no fim de tarde, mas agora chegava a perder duas ou três horas diárias no trajeto entre a casa e o trabalho. “São tantas horas no carro”, pensava, “isso parece minha casa”.

Zeloso com seu habitat, investiu em bancos de couro, aparelhos multimídia, câmbio automático e ar-condicionado. Em casa, a mulher reclamava que usar a mesma geladeira desde que casaram não era dignidade.

Era tanto carro, todo dia, que viciou na relação. Nos fins de semana, ele lavava o carro, lustrava o carro, ia de carro até a padaria comprar pão, contornava até a banca para buscar o jornal. Domingo à tarde, ia para o carro escutar o jogo de futebol pelo rádio, sob pretexto de que a locução tinha mais emoção do que a da TV. “No rádio, qualquer pelada parece jogão, na TV é aquela monotonia de cobrança de lateral e toca pra lá e pra cá”, comentou certa vez com um amigo a quem deu carona, “e gol só é gol mesmo na voz do Zé Silvério”.

Naquela manhã, o trânsito estava especialmente ruim.

(…) continua lá no jornal.

O guarda-roupa da minha avó

Minha avó guardava a televisão dentro do guarda-roupa de vez em quando. Era comum chegarmos em sua casa no domingo à noite, eu naquela expectativa de assistir Os Trapalhões e…

– Vó, cadê a TV?
– Ah, eu guardei.

Nas primeiras vezes, não procurei saber a razão daquela resposta. Eu ainda não sabia que era um millennial, então criança nenhuma naquele tempo questionava autoridades solenes como avós. Além disso, eu iria ganhar biscoitos de polvilho e doce de leite caseiro mais tarde e não seria inteligente criar qualquer atrito com a provedora das delícias pelas quais eu esperava muito mais do que Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Até que um dia, não sei se por tédio ou curiosidade, não resisti e perguntei.

(…) continua lá no jornal.

Agora no Estadão

A partir de hoje, Dia das Crianças, escreverei semanalmente no Estadão. É um novo blog, que não substitui este aqui, mas cujos textos não serão reproduzidos na íntegra fora do ambiente do jornal.

Escreverei às quintas. Avisarei sempre que uma crônica nova for publicada e espero (e peço) que sigamos juntos.

O texto de estreia As manhãs amarelas, foi para o ar há pouco. Abaixo, segue um trecho.

Abraços.

Amarelas. Assim sempre foram para mim as manhãs ensolaradas da infância. Lembro dos dias que nasciam cedo nos primeiros anos de colégio, meu pai ao volante, o paletó pendurado no encosto do banco, eu sentado lá atrás, bem no meio, o rádio ligado no noticiário com o jogral dos locutores da Jovem Pan informando as horas: “em São Paulo, seis e trinta e cinco”, “Repita!”, “Seis e trinta e cinco” e subia aquela trilha sonora sobre o trabalhador paulistano. Atrás de mim, roncava o motor do nosso Fusca setenta e tantos, o cheiro naquela mistura de couro e gasolina e a lembrança de ver o sol nascer através do pára-brisas, ofuscando a visão e convertendo tudo – o carro, minha roupa, a cidade, a gente e o dia – em um tom amarelo que definia o começo de algo.

Saíamos da Barra Funda, bairro onde morávamos, no sentido do Bom Retiro, onde ficava a escola em que eu estudava. Dali, meu pai seguiria para o trabalho. E se hoje recordo pouco de como eram as aulas, o trajeto e a rotina naquele meio da década de oitenta, os primeiros raios de sol ofuscando minha vista pela manhã enquanto assimilava a cidade ao redor é uma lembrança da infância que ainda carrego.

Hoje em dia, quando saio de casa pela manhã e agora sou eu dirigindo o carro com minha filha no banco de trás a caminho do colégio, às vezes o relógio se alinha com aquela velha hora e o sol desponta de trás de uma árvore, atravessa o pára-brisas, toca o rosto, o carro, a cidade, a gente e ofusca a visão. Há um pequeno despertar, sintonizo o rádio naquela mesma estação e escuto a trilha sonora que ainda hoje é a mesma. Eu me lembro do Fusca bege. As manhãs se tornam novamente amarelas e a infância, aquela vida e essa, o menino e o pai, estão ali convertidos em uma coisa só.

Questões de chuveiro

A Manú reclama que eu demoro muito no banho. “Meia hora, Henrique! Você precisa de tudo isso?”. Eu retruco, argumento que tenho pêlos no corpo e lavo os cabelos todos os dias e que por isso, só no processo todo, acabo demorando mais do que ela. É claro que não cola. Ela tem fios de cabelos cinquenta vezes maiores do que os meus e mesmo quando se submete a um tratamento capilar completo, não fica mais do que quinze minutos com o chuveiro ligado.

A verdade, cá entre nós, é que eu fico ali sem fazer nada. E não é de propósito, nada de fugas. É um estado de letargia, em que esticar o braço para pegar o sabonete pode levar uns cinco minutos. Eu já falei disso, tomar banho é o tipo de coisa que classifico como ócio involuntário. Um ritual em que lavo o corpo, a cabeça e a alma. E desde que o nível do Sistema Cantareira deixou de ser uma preocupação urgente, fico um certo tempo ali, entre devaneios, ideias e soluções para os problemas mais complexos do meu dia.

Ideias e soluções que, diga-se, são geralmente incríveis, mas das quais nunca me lembro depois que desligo o registro. E aí me pego gastando alguns banhos pensando que poderia ficar multimilionário se inventasse uma caneta mágica capaz de escrever em vidros de box e azulejos molhados para registrar esses pensamentos. Mas também não lembro da tal caneta depois que saio do banho. E já tentei escrever algumas coisas no box usando a pontinha de um sabonete novo, mas o vapor derreteu tudo e no final aquilo virou uma mancha branca esquisita e ilegível.

Ficaria milionário também (às minhas custas) o sujeito que criasse o sabonete três em um. Uma única barrinha, me ocorre, deveria ser capaz de ser sabonete, shampoo e condicionador. Não tem muito sentido precisarmos usar três produtos diferentes para funções tão semelhantes. E com frequência, entre um devaneio e outro, eu me distraio e esqueço se já lavei os cabelos ou usei sabonete e acabo fazendo a mesma coisa duas vezes para não correr o risco de negligenciar uma etapa importante da higiene.

Melhor ainda seria se a própria ducha tivesse um recipiente ou refil acoplado que liberasse, durante o banho e junto com a água, uma pequena dose de um líquido tudo-em-um que cumprisse o papel de nos deixar limpos. Há de existir tecnologia para isso, não é possível. E tenho certeza que eu tomaria banhos mais objetivos e eficientes e minha Manú ficaria mais contente.

Mas, não. Os gênios da indústria dedicam seus neurônios a outros fins. Os caras inventam uma ducha mais larga e que libera um maior volume de água, a batizam de Gorducha (Gor-ducha!), mas não melhoram o processo. Inventam um sabonete Dove misturado com pepino, lançam o Natura Ekos com sementes de maracujá no meio (sim, sementinhas secas de maracujá rasgando sua delicada pele durante o banho), inventam um sabonete com um bocado de areia no meio, que arranha o corpo inteiro, chamam o tijolo de barra esfoliante e a gente ainda paga quinze vezes mais por isso. Mas, não, não inventam um banho otimizado para salvar casamentos e represas.

Nessas horas, sou obrigado a cair na vala-comum do pensamento preguiçoso e culpar meus comparsas publicitários. Eu balbucio em câmera lenta (meu banho é slow motion, acho): “é tudo culpa do marketing”. Venderiam menos produtos se tivéssemos um tudo-em-um. A prova está um metro à minha frente.

Olho para a prateleira de vidro dentro do nosso box e vejo ali uma fila de recipientes. Se na minha infância o desafio era entender a diferença entre o sabonete e o shampoo, o passar dos anos introduziu nos lares e banheiros brasileiros a figura do condicionador. E eu passei a precisar lavar os cabelos três vezes, ao invés de duas.

Depois que me casei, um recipiente menor começou a disputar espaço com os outros dois. Intrigado, um dia eu parei para ler o rótulo. “Máscara”, dizia a embalagem. É um creme para usar antes do condicionador, me disse a Manú, e que você passa para hidratar o cabelo depois da… hidratação. Engodo puro, pensei então. Mas, eis que de uns meses para cá, um quarto vasilhame surgiu para compor o conjunto. Curioso, agarrei o dito-cujo outro dia e li o texto em destaque: “Pré-Shampoo”. Isso, pré. Porque não bastasse ter as madeixas besuntadas pelo creme no pós-banho, agora fazem o pobre consumidor acreditar que é preciso lavar o cabelo antes de lavar para poder hidratar e então hidratar. Contando o sabonete, são cinco coisas no processo todo. E minha doce esposa usa tudo isso naquele cabelão e demora menos tempo do que eu no banho.

Mas a Gorducha-Mágica-Tudo-Em-Um com refil que seria, essa sim, revolucionária, o sr. Lorenzetti não se atreve a fabricar.

Penso nisso enquanto me lavo com um novo sabonete refrescante maravilhoso à base de pitanga. Penso também na caneta à prova d’água (que descobri depois, para desespero da minha conta-corrente, já existe), lamento a coisa toda de como somos vítimas dessa opressão comercial que tenta nos manipular como massa desorientada e no momento em que enxaguo o Pré-Shampoo e meus problemas de oleosidade capilar escorrem pelo ralo, ouço uma uma voz distante, lá fundo, chamando: “Henrique, poxa vida, ainda vai demorar aí!?”

Do direito de atirar pedras

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“A suprema tentação é a maior traição: fazer a coisa certa pelo motivo errado.” (T. S. Eliot)

Atirar pedras nos outros é um direito garantido por lei em certos países. Pelo que apurei, ao menos dez nações – entre elas, Irã, Somália, Indonésia, Arábia Saudita e Paquistão – ainda tem o apedrejamento como punição para crimes considerados graves.

Funciona assim: a pessoa é pega em flagrante, vai presa e segue todo processo de julgamento. Se condenada, marcam a data do apedrejamento. No dia agendado, um buraco com pouco mais de um metro de profundidade é cavado no chão. Mulheres são enterradas até o pescoço e homens até o quadril. Um grupo se reúne em volta do réu e, dado o sinal, o juiz atira a primeira pedra. A partir daí os demais seguem o rito. Como a parte do corpo exposta é bem pequena, o objetivo é acertar a cabeça. As pedras devem ser grandes, de forma que sejam capazes de matar. De tempos em tempos, um agente confere se a pessoa já está morta. Se não estiver, seguem arremessando as pedras até que o óbito seja confirmado. Ah, sim, a pessoa pode salvar a própria vida se conseguir se libertar do buraco e fugir enquanto as pedras são atiradas contra ela.

É hediondo. Eu leio, releio, reflito e não consigo acreditar que sejamos realmente capazes de executar alguém por esses meios. É de um primitivismo tamanho que é difícil imaginar que isso de fato aconteça no mundo de hoje. O homem aprendeu a voar, chegamos ao espaço, aceleramos partículas, temos refrigeradores na cozinha para preservar alimentos, descobrimos e reconstruímos esqueletos de dinossauros com centenas de milhares de anos, conectamos o mundo através de uma rede de computadores e fazemos cirurgias de alto grau de complexidade usando técnicas pouco invasivas e braços mecanicamente guiados. E ainda matamos nossos vizinhos com pedradas na cabeça.

Vale lembrar que o objetivo do apedrejamento é humilhar o criminoso em uma morte vagarosa. A punição não é apenas física, fosse assim um tiro na testa resolveria o problema de forma ainda mais rápida e eficaz (esses mesmos países também praticam outras formas de execução). A ideia do apedrejamento é a exposição pública, é punir pelo exemplo, é fazer com que o condenado se arrependa e pague pelo mal que cometeu.

Fossem mais espertos, aiatolás, ditadores e governantes dessas nações poderiam adotar medidas mais aceitas pela comunidade internacional e diplomaticamente adequadas ao redor do mundo para garantir o mesmo tipo de exposição pública: bastaria que liberassem o acesso ao Facebook em seus países.

Haveria, inclusive, alguns avanços no processo de apedrejamento: em redes sociais, mais gente participa do ato, o que faz com que o condenado seja rapidamente executado. O propósito principal de humilhação e exposição pública é imbatível. Diminuem também as chances de condenado conseguir fugir da punição e o processo de julgamento é popular, movido pela massa sedenta por descontar sua raiva, o que em certa medida tira o peso da decisão das costas de um juiz. O primitivismo é o mesmo, a irracionalidade dos gestos também e a motivação, acredito, segue os mesmos instintos.

É hediondo. Eu leio, releio, reflito e não consigo acreditar que sejamos realmente capazes de expor alguém por esses meios. É de um primitivismo tamanho que é difícil imaginar que isso de fato aconteça no mundo de hoje. O homem aprendeu a voar, chegamos ao espaço e tal… E ainda agredimos nosso semelhante por pensar diferente da gente.

Há patrulheiros vigilantes. Há diversos deles, navegando pelas redes sociais, assistindo diligentemente vídeos no YouTube, rastreando cada tuíte, cada foto no Instagram, cada texto publicado à procura de um deslize, um erro, um ponto de dúvida que justifique seu dedo em riste, que condescenda com a mão inquisidora, que possa finalmente sofrer sua punição. E, juízes que somos todos, atiramos a primeira pedra. E a multidão acompanha.

O critério para se decidir se o crime é grave ou não cabe tão somente ao juiz e seus seguidores. Não há lei. Basta não concordar, basta votar diferente, torcer para outro time, gostar de outra banda. Basta compartilhar aquele post polêmico, basta assistir Big Brother, não ser da mesma religião, não ser igual, ou não ser diferente. Basta estar ali, rolando sua tela, na mira de alguém e, de repente, uma pedrada lhe atinge a cabeça.

* * *

No Novo Testamento há uma passagem clássica que conta sobre o dia em que um grupo leva até Jesus uma mulher flagrada em adultério. Pela lei, ela deveria ser apedrejada até a morte. Querendo comprometer Jesus em seu julgamento, eles a colocam diante dele e questionam se a lei deveria ser cumprida. Eles tinham pedras nas mãos. Queriam, com isso, condenar a mulher, mas também encontrar caminho para incriminar Jesus, que vinha pregando o amor e desconstruindo conceitos arraigados da lei. A resposta de Jesus, tão conhecida, virou um ditado que ainda repetimos com frequência: “Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra”.

Ninguém ousou dar o primeiro golpe. Deixaram a pobre mulher ali com Jesus e partiram.

No entanto, note, os inquisidores da mulher adúltera (alguns intérpretes do texto bíblico afirmam que se tratava de Maria Madalena) não a apedrejaram porque a lei os impediu. Pela regra, esse era um direito que tinham poderiam tê-lo exercido, aprovando Jesus ou não. Mas, abandonaram sua condição de acusadores porque foram constrangidos por Jesus com uma pergunta. Um espelho. Diante deles, a mulher em pecado era um reflexo de sua própria condição moral. Não de adúlteros, mas de pecadores. Os seres falhos que também eram, era a imagem da mulher jogada no chão de terra à sua frente.

Porque é no espelho que nos vemos, enxergamos nosso reflexo, nossa fragilidade, as rugas e a pequenez de nosso estado. No espelho, não vemos o outro, só a nós mesmos, diante dos defeitos que talvez só nós conheçamos. Ali, o dedo acusatório aponta para nós mesmos, as ofensas rebatem e voltam, a pedra arremessada estilhaça nossa própria imagem.

Espelhos.

Talvez seja isso. Diante da tela do computador ou do celular desligada, naquele instante de reflexão, seria melhor se no lugar de pedras, tivéssemos nas mãos o reflexo de nossa condição.

* * *

O problema são os outros, dizemos o tempo todo. O problema é da internet, o problema são as redes sociais, alguém diz. Então vamos acabar com as pedras. Mas, acabar com as pedras não resolve. O problema está no braço que as arremessa, outro poderia dizer. Mas amarrar as pessoas também não resolve.

O problema está no que nos motiva, eu diria. Está em olhar para o outro e não nos enxergarmos nele. O problema está em não amar o próximo, em não parar para pensar em suas motivações e perceber que também erramos.

Nos sentimos em meio a um fogo cruzado e nunca na posição de acusadores. Mas somos parte ativa do conflito. Porque atirar pedras, tecer comentários ácidos e levantar contendas são apenas gatilhos, atitudes que resultam de uma perda profunda que tem acontecido dentro de nós: a insensibilidade ao sentimento do outro.

E se fôssemos julgados com o mesmo critério que julgamos? E se fôssemos amados com a mesma medida que amamos?

Há muito, isso deixou a esfera política e virtual. Há tempos deixou de ser contra inimigos históricos e estranhos anônimos. Atiramos pedras com quem convivemos cotidianamente, desfazemos amizades, ignoramos a presença dos nossos semelhantes que estão segregados em nossa sociedade, vivendo à margem da dignidade, ofendemos gratuitamente o outro com nossa arrogância, diminuímos aqueles com quem dividimos um teto ao não reconhecer seu valor. Deixamos nossa atenção plena ser usurpada pelo entretenimento superficial que nos anestesia e emburrece. Nas pequenas e nas grandes coisas, temos fechado os olhos para o próximo. O próximo que dorme ao lado, o que vive ao lado, o que caminha ao seu lado na rua.

Ignoramos diferentes perspectivas, rechaçamos opiniões e atiramos pedras porque o outro… – e sua opinião e sua dor e sua história e seus anseios e suas dúvidas e sua vontade – o outro basicamente não nos interessa.

Onde abunda o egoísmo sempre falta compaixão.

Jesus chamou isso de amor. E ele disse que amar era o resumo de toda e qualquer lei ou mandamento.

Quando viveu entre nós como homem, na história que lemos e relemos nos evangelhos, Deus não queria salvar a humanidade do diabo, ele queria nos salvar de nós mesmos. Os exemplos, as mensagens, as atitudes, o sacrifício e a história de Jesus não revelam propriamente uma batalha entre Deus e um inimigo, nada entre duas forças espirituais opostas. A Bíblia mostra que Jesus veio salvar o homem do egoísmo, da tendência de procurarmos apenas nossos próprios interesses, ele veio nos curar de cegueira, da insensibilidade na alma, nos tirar da lama espessa em que afundávamos e nos purificar para que pudéssemos ser livres.

Ao viver entre nós, ele se ofereceu como imagem que pudesse nos servir de inspiração. Ao se tornar o ser humano perfeito, nos mostrou o caminho livre e perfeito que desenhou para a humanidade. Ao se revelar homem, Deus expôs diante de nós sua face bondosa para que pudéssemos contemplar o Criador e, finalmente, nos enxergar em nosso Pai.

Um espelho.

Águas de março

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Noite passada, enquanto tentava dormir, me inquietava com o fato de que já estamos em março. Março, poxa. Um terço do ano já se passou e o ano só está começando agora. Porque março é o mês que me faz desacelerar o passo da caminhada, que me força a parar e olhar por sobre o ombro e perguntar como foi que cheguei aqui. Não pelo mesmo motivo que todos nós fazemos em dezembro durante as festas, nem porque eu pessoalmente fique mais velho (meu aniversário também é em dezembro), mas é que de repente realizo, quando vejo a folhinha de fevereiro cair no calendário, que Cecília e Nina estão prestes a comemorar mais um ano.

* * *

É uma manhã de sábado, sou o último a acordar na casa. Manú está na cozinha passando um café no coador – cujo aroma a essa hora mais me chega como um carinho – e escuto o barulho da tv ligada. Sigo cambaleante até a sala e vejo a Nina sentada no sofá com um livro de mais de quinhentas páginas nas mãos. Eu coço os olhos. Quando foi que paramos de ler juntos aquelas pequenas coleções de 20 ou 30 páginas ilustradas em que eu deixava algumas frases incompletas para saber se ela já seria capaz de ler as palavras finais sozinha? Em poucos dias, ela completará dez anos. Dez. Eu posso te jurar que ano passado ela fez cinco e que toda sua história ainda cabe aqui num parágrafo ou dois de memórias.

Enquanto me espreguiço, Cecília corre atrás da Lucy com algo nas mãos que tenta fazê-la engolir. A cachorra foge, o dia todo. E Cici corre na ponta dos pés, de um jeito que parece que flutua. E ela gargalha por tão pouco, de um jeito que parece que é fácil rir assim de qualquer coisa. Atravesso o cômodo atraindo as atenções das duas, que agora me seguem até a cozinha. Para premiar a minha nostalgia, ela faz aniversário apenas dez dias depois da irmã mais velha. Dois anos, na semana seguinte. E ontem mesmo, tenho absoluta certeza, eu ainda escrevia agradecido a crônica final de um livro contando que Manú estava grávida novamente. E nossa pequena tempestade ruiva é um presente melhor do que qualquer sonho que tínhamos sobre o novo bebê que viria completar nossa família.

Eu não posso afirmar que há alguém pulando os anos e envelhecendo mais rápido do que deveria aqui em casa, mas estamos certamente sendo traídos pelo tempo, pela nossa noção de tempo, por um relógio desajustado em algum canto dessa casa cujos ponteiros aceleram além das regras.

Quando criança, uma coisa que eu gostava de fazer era represar água. Qualquer água servia. Eu abria a torneira da pia do banheiro e tapava o ralo com as mãos por um segundo ou três só para ver juntar um pouco de água e então soltar e ver aquilo correr devagar tubulação abaixo. Fazia isso na rua também, colocando um pedaço de pau, uma pedra, o tênis de algum amigo ou o obstáculo que encontrasse em frente à pequena correnteza de água que vinha meio-fio abaixo enquanto a vizinha de cima lavava a calçada. O obstáculo podia reter toda água por um tempo, mas em algum momento o volume era tão grande que o superava ou arrastava.

Eu faço isso ainda. Ponho as mãos na água em movimento e a vejo passar pelos dedos. Quando chove e estou na rua, estendo a mão e junto os dedos para ver por quanto tempo consigo reter a água. Eu faço isso ainda, eu pego a Nina no colo quando ela dorme no banco de trás do carro e comprometendo eternamente meu nervo ciático, a levo para casa. Ela já tem quase um metro e meio, ela acorda no meio do trajeto mas finge que ainda dorme e acomoda o rosto no meu pescoço por uns oito anos até chegar na sua cama. Eu faço isso ainda, quando levanto a Cecília “bem alto! bem alto, papai!” e tudo o que ela tem que garante sua segurança são meus braços que a sustentam naquela aventura. E nessas horas, ela que nunca pára nem por um segundo, fixa bem os olhos nos meus, sorri o melhor sorriso com os dentes separados e gargalha. E aí, o tempo é que pára.

Peço a Deus que me ajude a lembrar desses instantes mágicos para sempre. Em minha pequena fé, desejo que a eternidade seja o espaço onde as memórias nunca pereçam. Que no berço da vida estejam os primeiros passos de minhas meninas, o balbuciar das primeiras palavras, aquele dia no parque, a viagem à praia, as sonecas de sábado à tarde no sofá e cada vela soprada nas festas que marcam a passagem dos seus anos.

Fico tentando conter com os dedos o forte fluxo desse rio, tento parar a chuva, mas a vida muitas vezes é correnteza demais.

Me dou conta de que preciso mesmo é aprender a nadar, me deixar molhar pela chuva e seguir em frente. Isso acontece quando consigo parar de encarar o espelho entre uma aparada e outra na barba, quando deixo de lamentar o volume de água que se foi, o tempo que passou, os dois encantadores anos da Cici que ficaram para trás e os dez doces capítulos da Nina que ela já escreveu.

Há paz, finalmente, quando meu olhar se concentra no que importa, uma obviedade de que me esqueço com frequência: de que há algo a ser feito agora, há o que se desfrutar hoje e que há coisas mais importantes do que respostas para se perseguir na vida. Porque há amor, há Legos, massinhas, lápis e bonecas por todos os lados, há a quem pertencer para sempre, há Deus a nos guiar com sua voz bondosa, há duas meninas dormindo de mãos dadas no quarto ao lado. Há um futuro que se revela atrás da porta que se abre, e o horizonte todo, o dia de amanhã, o esplendor do sonhos e o tempo, todo o tempo que ainda temos pela frente chegando na corrente de um rio.

Em poucos dias haverá uma festa por aqui. Estamos em março e lá fora chove.

Um convite (ou dois)

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Cinco pessoas me disseram que preferiam ler meu livro em uma versão impressa e não digital (minha esposa e minha mãe entre elas). Atendendo a essa multidão de pedidos, resolvemos providenciar alguns exemplares do “Enquanto a gente se distrai…”. Poderiam ser cópias mimeografadas, poderiam ser 5 xerox em papel Chamequinho A4, mas como a Manú é muito caprichosa, o livro está saindo em versão gráfica belíssima, numa pequena tiragem, com capa envernizada e aquele papel polén gostoso de passar os dedos.

Se além dos cinco, você também prefere manusear o livro à moda antiga e sentir o cheiro do papel enquanto lê boas histórias, essa é uma oportunidade. Não prometo que sejam boas histórias, mas o cheiro é garantido.

Além disso, é chance de fazer uma boa ação ainda este ano. O lucro será revertido para o Centro Social Carisma, instituição que atende crianças e adolescentes em situação de pobreza extrema em nossa cidade.

Nesse fim de semana, faremos o lançamento em dois eventos diferentes:

– Sábado (17/12) entre 12:00 e 16:00 no Laranjeiras Bar em Pinheiros. Tem um quintal com árvores no fundo e ficaremos quatro horas por lá com alguns livros. O restaurante serve ótima comida e estará aberto. Então, se quiser aproveitar para almoçar, é uma excelente opção. Endereço: Rua Inácio Pereira da Rocha, 87 – Pinheiros – São Paulo (www.laranjeirasbar.com)

– Domingo (18/12) às 12:00 e às 20:00 na Comunidade Carisma em Osasco. Ao término de cada uma das reuniões dominicais (que começam às 10:00 e às 18:00), estarei na livraria com alguns exemplares. A cafeteria também estará aberta, caso queira pegar um espresso para batermos um papo depois. Endereço: Rua São Bento, 247 – Quitaúna – Osasco (www.carisma.com.br)

Espero que possamos nos encontrar :-)

Abraços,
Henrique

Entre nuvens

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Aeroportos. Eu também teimo com aeroportos. Não sei dizer o que é, mas há uma atmosfera estranha, que em um primeiro impacto parece ter um brilho interessante e mágico mas em poucos minutos se revela superficial, limitado e ofuscante demais, perfumado demais, barulhento demais, raso demais. Tentam nos vender como shopping center o que na verdade é só o que é: um terminal de chegadas e partidas. Pessoas indo e voltando, de passagem por algumas horas, até o momento de partir, escutando as descrições de voos, as chamadas de embarque e o ruído das aeronaves decolando lá fora. Estou em um aeroporto agora.

No entanto, observar viajantes está entre meus passatempos favoritos. Mais do que faço em qualquer outro lugar, gasto minhas horas de espera antes de embarcar olhando as pessoas à minha volta e tentando imaginar suas vidas. Porque há algo diferente nesse ambiente, ninguém passa por aqui todos os dias, todos vivem essa coisa transitória, estar nesse lugar não é a rotina de ninguém sentado nessas cadeiras (é claro que os funcionários das lojas e balcões de companhias aéreas são uma exceção). Estão todos em trânsito, indo para algum novo destino ou voltando para seus lugares.

Eu só tento escutar. O casal de meia idade que come uma pizza em silêncio e sem se olhar nos olhos em nenhum momento, um outro casal de idosos que senta lado a lado na mesa do restaurante deixando as cadeiras da frente livres e conversam animados com guias de viagens empilhados sobre a mesa, executivos e executivos sozinhos digitando aceleradamente em seus computadores ou andando de um lado para o outro. Indianos, japoneses, norte-americanos, latinos, gente muito loira e branca de algum canto da Europa, um grupo em excursão viajando em férias, homens com chapéus de cowboy que julguei serem aqui do Texas mas descobri depois que eram de Goiania (estou parado numa conexão em Dallas). Duas crianças entediadas brincando em iPads com capas coloridas e outras crianças, um casal de irmãos, correndo um atrás do outro pelo terminal como se estivessem no quintal de casa. Uma mulher lendo um livro de bolso enquanto bebe uma garrafa de meio litro de Coca-Cola Zero no gargalo. Gente no celular, gente no celular e gente mexendo no celular por todos os lados absortas em suas telas azuis, isoladas em fones de ouvido que sempre me lembram o penteado da Princesa Leia. Tento escutar suas conversas.

Procuro imaginar suas vidas além dessa máscara que enxergo. Sei que você também faz isso. Quero saber como são suas rotinas fora daqui, de onde vieram, para onde estão indo. O que sonham fazer, o que as angustia agora, o que tem em suas casas, do que sentem falta, que carro dirigem, se já roubaram para comer alguma vez na vida. Fico imaginando quem é que os espera do outro lado dessa viagem aérea, quando chegarem em casa.

Foi o escritor John Gardner que disse certa vez que só existem dois tipos de histórias: a pessoa que sai em uma jornada ou um estranho que chega na cidade. Ele falava de literatura, mas talvez seja isso mesmo e eu não esteja entendendo. As histórias, de todos nós e os fragmentos que deixamos transparecer nessas amostras, nesses pequenos contatos que fazemos, no fundo se resumem a duas coisas.

Estou sozinho agora, sentando em uma mesa de restaurante, comendo uma fatia de pizza em que certamente falta alguma coisa na cobertura e espero o horário de embarque do meu voo de volta para São Paulo. É minha décima segunda viagem a trabalho esse ano. Estou cansado. Penso na frase do John Gardner e fico me perguntando onde é que me enquadro em sua sentença. Quem seria eu nesse escrutínio que faço se estivesse do outro lado do balcão me analisando? Personagem de que tipo de história eu sou?

Ainda hoje, um pouco mais cedo, liguei para casa para saber como as meninas estavam. A Nina atendeu o celular da mãe e ligou a câmera para conversarmos. Eu ainda tinha pelo menos 15 horas de viagem pela frente então e enquanto falávamos, ela caminhava por uma área aberta e me contava da festinha infantil em que estavam. De repente, parou de andar, olhou para o alto em silêncio e fixou o olhar por alguns segundos em algo que eu não podia enxergar. Então ela voltou:

– Pai.
– Oi.
– Acabou de passar um avião no céu. Queria que fosse você.

Entre uma garfada e outra na pizza, eu penso que falta orégano e certamente também falta alguma coisa na frase do John Gardner. Porque há um terceiro tipo de história, há uma outra narrativa, a saga que meu personagem vive nesse exato instante e em cada viagem que faço: um peregrino que volta para seu lar.

Por que sempre corremos de volta para o que nos espera, por que nossa alma só se completa quando reencontra a quem pertence. E às vezes isso é a busca de uma vida inteira, às vezes é a volta para casa de uma viagem e inúmeras vezes somos só nós no trânsito depois de um dia de trabalho. De volta para os braços de quem se ama, de volta aos eixos sobre os quais a vida gira diariamente, de volta para o pão com manteiga e café com leite, de volta para o coração de Deus. Todas as histórias são isso mesmo, ir e vir, os ciclos, partir e chegar, a jornada toda. E a vida se realiza na certeza aconchegante de poder ter para quem voltar.

Eu me vejo no outro lado do balcão, refletido num espelho. Já não me analiso ou faço perguntas. Sei muito bem para onde sempre volto.

O livro chegou

Amigos, meu livro saiu hoje. E já está à venda numa livraria perto, mas tão perto de você, que é só clicar em um dos links, baixar e já começar a ler ;-)

Por enquanto, ele estará disponível em formato ebook e você consegue ler no seu celular, tablet, computador, Kindle, Kobo ou Nook.

Se por amizade, curiosidade ou para ter alguma coisa para usar contra mim no futuro você chegar a ler, por favor, me conte depois o que achou, tá bom?

Aqui vão as principais lojas:
– Amazon: para ler, baixe o app do Kindle no seu aparelho e quando fizer a compra pelo site da Amazon, ele sincronizará automaticamente https://goo.gl/10K2lo
– Google Play (Android): compre o livro pela loja e leia no aplicativo Google Play Livros do seu Android https://goo.gl/JjCfe7
– iBooks (iPhone/iPad): no próprio aplicativo de leitura do iPhone ou iPad você pode fazer a compra e começar a ler
– Tem nas outras lojas também (Kobo, Saraiva, Livraria Cultura etc.), é só buscar pelo título do livro

Abraços!

Enquanto a gente se distrai, o tempo foge

Amigos, estou lançando meu primeiro livro.

Desde criança, gosto de escrever. Acho que sempre foi o jeito que encontrei para entender, organizar e expressar os pensamentos. E acho que não tenho muitas lembranças da infância em que eu não esteja com uma bola, um livro ou lápis e papel no bolso.

(Considerando minha desastrosa virtuosidade com a bola nos pés, restou a esse falido gandula passar as tardes mergulhado em histórias e jogando com palavras).

E o livro é mais um jeito de juntar algumas dessas ideias em uma coletânea de crônicas que tem como temas centrais a paternidade, o cotidiano e espiritualidade.

Estará nas lojas semana que vem, em formato ebook (editado pelo Tiago Ferro e equipe na e-galáxia), terá essa capa bonita da imagem abaixo, com o título “Enquanto a gente se distrai, o tempo foge” estampado numa bela arte criada pelo Dogura Kozonoe.

No dia do lançamento, posto mais detalhes por aqui. O que eu queria agora era poder compartilhar e comemorar essa novidade com vocês que sempre fazem a gentileza de ler as bobagens que escrevo :-)

Até!

 

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Sobre as nuvens

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Não gosto de aviões. Não tenho medo ou qualquer problema, só não aprecio a experiência enlatada e pressurizada da aeronave. Meu nariz entope, meu nariz escorre, minha garganta seca, faz frio demais, meu joelho não cabe direito na poltrona, a comida tem gosto de plástico e, pior de tudo, sou obrigado a sentar mais perto de um desconhecido do que minha bolha social geralmente tolera, por várias horas. Estou em um avião agora.

No entanto, adoro voar. E mesmo tendo que fazer isso diversas vezes nos últimos anos em função de compromissos de trabalho, sempre me encanto com a ideia de estar no céu, flutuando acima das nuvens, me deslocando de um lugar para outro no planeta, como se o mundo e a vida acontecesse lá embaixo e eu apertasse o botão “pause” por algumas horas, alheio à tudo, apenas observando essa existência.

Passo um tempão olhando as cidades, os prédios, as longas rodovias, as florestas, os filetes de rios, o mar se estendendo até a linha do horizonte onde parece encontrar o céu em que estou. No exterior, às vezes eu fico observando os picos das montanhas cobertos de neve. Lugares onde jamais pisei e onde talvez ninguém jamais tenha pisado também, mas que contemplo de uma poltrona. Lugares por onde já passei, mas nunca conseguiria olhar por essa perspectiva.

O mundo é grande demais, eu penso. A Terra é uma massa deslumbrantemente linda e vibrante. E nossa rotina – a rotina de todo mundo – parece bem pequena aqui do alto.

Lembro de certa vez, no começo da minha carreira, em que estava sentado com a Vania, minha chefe, durante o almoço para dividir um problema de trabalho. Era algo bem sério para mim e eu não sabia como resolver.

“Tá vendo aquele quadro ali, Rique?”, ela apontou para uma tela pendurada na parede do restaurante, onde se podia ver uma paisagem bucólica com algumas casinhas num vilarejo de campo. “Sim. O que tem?”, perguntei. “Pense que seu problema é uma daquelas casas ali. Para quem está nelas, aquilo é tudo o que eles tem, é tudo grande e complicado. Mas quando você sai dali e olha por outro ângulo, olha assim de cima, como estamos vendo agora, a verdade é que o problema fica pequeno demais. E você vê que não é tão grave até observar o que tem em volta e além dele”.

Toda vez que olho pela janela do avião, aperto o “pause” e lembro daquela conversa. Enquanto flutuo sobre as nuvens, começo a pensar na vida, na relatividade do tempo, nas minhas coisinhas lá embaixo. Penso na grandeza de Deus que compõe esse universo e em sua sutileza e cuidado com os detalhes da minha existência.

E a vida então se torna uma coisa grande demais para se resumir ao que meus olhos enxergam. Ela se preenche dessa dinâmica mágica, desse ir e vir, do piscar de luzes, do pão de cada dia, de chorar e sorrir, do correr atrás do vento, dos ciclos que percorremos em volta do sol. O sol. Que depois da noite escura, sempre volta a brilhar no céu.