Receita de férias

Paulo Mendes Campos, na crônica “Receita de domingo”, para resumir um tanto dessa sensação das férias:

“Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar docemente as grinaldas das janelas fronteiras. Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo.

Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona. Esse milagre doméstico tem de ser.”

(…)

“Enquanto tomamos café, lembrar que é dia de um grande jogo de futebol. Vestir um short, zanzar pela casa, lutar no chão com o caçula, receber dele um soco que nos deixe doloridos e orgulhosos. A mulher precisa dizer, fingindo-se muito zangada, que estamos a fazer bagunça terrível e somos mais crianças do que as crianças.”

(…)

“Noite pesada. À luz da lâmpada, viajamos. O livro precisa dizer-nos que o mundo está errado, que o mundo devia, mas não é composto de domingos. Então, como uma espada, surgir da nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada, de lado a lado. Para que os dias da semana entrante não nos repartam em uma existência de egoísmos.”

Como curar um fanático

Amós Oz, no ensaio “Como curar um fanático”, comentando o conflito em sua terra natal e quase todos os outros conflitos, de alguma forma, onde sirvam as carapuças:

“(…) existe alguma coisa na natureza de um fanático que essencialmente é muito sentimental e ao mesmo tempo carece de imaginação. E isso às vezes me dá esperança, embora uma esperança muito limitada, de que injetar alguma imaginação nas pessoas pode ajudar a deixar o fanático incomodado. Não é um remédio de ação rápida, não é uma cura rápida, mas pode ajudar.

Conformidade e uniformidade, a urgência de pertencer e a vontade de fazer com que todos os outros pertençam, podem ser as mais amplamente difundidas mas não as mais perigosas formas de fanatismo. Lembrem o momento naquele maravilhoso filme de Monty Python ‘A vida de Brian’, em que Brian diz à multidão de seus pretensos discípulos: ‘Vocês são todos indifíduos!”, exceto um deles, que diz encabulado, numa voz quase inaudível: ‘Eu não sou’, mas todos, com raiva, fazem com que ele se cale. De fato, tendo dito que conformidade e uniformidade são formas amenas mas amplamente difundidas de fanatismo, devo acrescentar que com frequência o culto da personalidade, a idealização de líderes políticos ou religiosos, o culto de indivíduos carismáticos podem bem ser outra forma difundida de fanatismo. Parece que o século XX sobressaiu nos dois casos. Regimes totalitários, ideologias mortíferas, chauvinismo agressivo, formas violentas de fundamentalismo religioso por um lado e, por outro, a idolatria por uma Madonna ou um Maradona. Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização da humanidade: ‘o jardim de infância global’, cheio de brinquedos e gadgets, balas e pirulitos. Até a metade do século XIX, alguns anos a mais ou a menos – isso varia de um país a outro, de um continente a outro -, mas aproximadamente, a maioria das pessoas na maior parte do mundo tinha pelo menos três certezas fundamentais: onde e vou passar minha vida, o que vou fazer para viver e o que vai acontecer comigo depois que eu morrer. Quase toda pessoa no mundo, há apenas 150 anos, se tanto, sabia que ia passar a vida exatamente onde tinha nascido ou em algum lugar próximo, talvez na aldeia vizinha. Todo mundo sabia que o que faria como meio de vida era o que seus pais tinham feito como meio de vida, ou algo muito semelhante. E todos sabiam que, caso se comportassem bem, seriam transformados para viver num mundo melhor depois de morrer. O século XX corroeu e muitas vezes destruiu essas e outras certezas. A perda dessas certezas elementares pode ter sido a causa do meio século mais pesadamente ideológico, seguido do meio século mais furiosamente egoísta, hedonista, orientado para gadgets. Nos movimentos ideológicos da primeira metade do século passado, o mantra costumava ser ‘amanhã será um dia melhor – façamos sacrifícios hoje’; vamos até mesmo impor sacrifícios a outras pessoas hoje, para que nossos filhos herdem um paraíso no futuro. Em algum momento em meados desse século, tal conceito foi substituído pelo conceito de felicidade instantânea, não somente o famoso direito de batalhar pela felicidade, mas a efetivamente difundida ilusão de que a felicidade está ali nas prateleiras e que tudo que se deve fazer enriquecer o bastante para se permitir adquirir a felicidade usando sua carteira. A noção de ‘felizes para sempre’, a ilusão de uma felicidade duradoura é, na atualidade, um oximoro (…)”

A essência do fanatismo reside no desejo de forçar outras pessoas a mudar. A inclinação comum para fazer seu próximo melhorar, ou para corrigir sua esposa, ou para direcionar seu filho, ou para endireitar seu irmão, em vez de deixá-los serem como são. O fanático é a menos egoísta das criaturas. O fanático é um grande altruísta. Frequentemente o fanático está mais interessado em você do que nele mesmo. Ele quer salvar sua alma, quer te redimir, quer te livrar do pecado, do erro, de fumar, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares, ou te curar da bebida ou de sua preferência na hora de votar. O fanático se importa muito com você, ele está sempre pulando em seu pescoço porque te ama de verdade, ou então está em sua garganta caso demonstre ser irrecuperável. E seja qual for o caso, falando topograficamente, pular em seu pescoço e estar em sua garganta é quase o mesmo gesto. De um modelo ou de outro, o fanático está mais interessado em você do que nele mesmo, pela muito simples razão de que um fanático tem muito pouco de ‘ele mesmo’, ou nenhum ‘ele mesmo’.”

(…)

“Eu comecei dizendo que o fanatismo muitas vezes começa em casa. Deixe-me concluir dizendo que o antídoto também pode ser encontrado em casa, virtualmente na ponta dos dedos. Nenhum homem é uma ilha, disse John Donne, mas eu humildemente ouso acrescentar a isso: nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, mas cada um de nós é uma península, metade ligada ao continente, metade voltada para o mar; metade ligada à família e amigos e cultura e tradições e país e nação e sexo e língua e muitos outros laços. E a outra metade quer ser deixada só e ficar voltada para o oceano. Creio que devíamos ter permissão para continuarmos a ser penínsulas. Todo sistema social e político que faz cada um de nós ser uma ilha darwiniana e o resto da humanidade um inimigo ou rival é um monstro. Mas, ao mesmo tempo, todo sistema social e político e ideológico que quer fazer de nós não mais do que uma molécula do continente também é uma monstruosidade. A condição de península é a própria condição humana. É isso que somos e é o que merecemos continuar sendo. Assim, em certo sentido, em toda casa, em toda família, em toda conexão humana, temos de fato um relacionamento entre um número de penínsulas, e é melhor que nos lembremos disso antes de tentar moldar um ao outro e modificar um ao outro e fazer o próximo fiar do nosso jeito quando ele ou ela, na verdade, estão precisando se voltar ao oceano por um momento. E isso vale para grupos sociais e culturas e civilizações e nações e, sim, israelenses e palestinos.”

Não podemos sair de dentro de nós mesmos

Hemingway, em “O sol também se levanta”:

– Escute, Jake – e curvou-se sobre o balcão – nunca tem a impressão de que sua vida vai passando sem você aproveitá-la? Não percebe que já viveu a metado do tempo que tem para viver?
– Sim, isso me acontece de vez em quando.
– Sabe que dentro de trinta e cinco anos já estará morto?
– Que diabo! Francamente, Robert!
– Estou falando sério.
– Isso é coisa que não me preocupa.
– Devia preocupar-se.
– Tenho tido sempre preocupações. Já estou farto delas – respondi.
– Bem, eu queria ir à América do Sul.
– Escute, Robert, tanto faz um país como outro. Tenho experiência disso. Não podemos sair de dentro de nós mesmos. Não adianta.

Aprendemos a voar pelo ar como pássaros

MLK

Aprendemos a voar pelo ar como pássaros, aprendemos a nadar pelos mares como os peixes e ainda assim não aprendemos a caminhar pela Terra como irmãos e irmãs.

-Martin Luther King

Fé na estrada

itapeva

As mudanças quase sempre parecem sombras novas e desafiadoras no horizonte. Mas só até o instante em que, refletindo sobre o momento, nos deparamos com fragmentos do passado recente que nos lembram que já vivemos essa sensação, essa mesma situação, pouquíssimo tempo atrás. Ainda ontem, circunstancialmente, lembrei de algo que anotei há pouco mais de um ano:

Sentado no quarto escuro, olho para a porta entreaberta, sondo a luz que vem da sala pelo corredor e admito uma ponta de medo ao notar a sombra do futuro que se projeta adiante. Bendita incerteza, quando parece que as coisas vão se acomodar e tomar um rumo finalmente, percebo que preciso reaprender a ser pai, ser marido, profissional, a encarar desafios diferentes outra vez.

Mudanças. Às vezes, precisamos mesmo que elas aconteçam para que nos desapeguemos. Alguém deve tirar nosso apoio, de supetão, de repente, para que a gente possa acordar, para que um novo passo seja dado.

E aí, sem mais, vem tudo aí de novo.

Livres da irrelevância

“Em um mundo em que 840 milhões de pessoas irão para a cama com fome nesta noite por falta de condições financeiras para fazer uma refeição, em um mundo em que 1 milhão de pessoas cometem suicídio todos os anos.

Jesus quer salvar nossa igreja do exílio da irrelevância.

Se tivermos quaisquer recursos, qualquer poder, qualquer voz, qualquer influência, qualquer energia, devemos convertê-los em bênção para quem não tem nenhum poder, nenhuma voz, nenhuma influência.”

(Rob Bell, em Jesus quer salvar os cristãos)

Leia antes de gastar

Alguns motivos para pensar antes de passar o cartão de crédito na próxima loja:

  • Quase 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com menos de um dólar americano por dia. Outros 2,5 bilhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares americanos ao dia. Isso quer dizer que mais da metade do mundo vive com menos de 60 dólares por mês.
  • 1 bilhão de pessoas no mundo todo não tem acesso a água tratada.
  • Falta saneamento básico para 40% das pessoas no mundo inteiro.
  • 1,6 bilhão de pessoas não tem eletrecidade no mundo.
  • A maioria absoluta das pessoas no mundo não tem carro.
  • Quase um bilhão de pessoas não conseguem ler ou assinar o próprio nome.
  • Nega-se educação básica a quase 100 milhões de crianças.
  • Uma em cada sete crianças no mundo todo precisa trabalhar todos os dias só para sobreviver.
  • A cada 7 segundos, em algum lugar do mundo, uma criança com menos de 5 anos de idade morre de fome.

(Dados extraídos do livro “Jesus quer salvar os cristãos”, de Rob Bell)